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Uma viagem transcendental

Adair Dittrich escreve sobre sua experiência com a meditação                                                  

 

Meditação sempre me pareceu algo muito acima do que a minha vã filosofia interpretava. Para entrar nestas esferas meditativas necessária é uma concentração profunda. Algo não inerente ao meu comum dia a dia. Eu jamais conseguia concentrar-me, inteiramente, durante aquele ato de todas as manhãs em nosso internato, o ato religioso, o acompanhar a Santa Missa.

 

 


Facilmente eu embarcava no chilrear do primeiro passarinho que nos dava o seu canoro bom dia, do alto de algum arbusto, no jardim ao lado da velha capela.

 

 

Existem pessoas que conseguem aprofundar-se em meditações, muitas vezes, até por horas seguidas.

 

 

Concentrar-me nos atos comuns da vida, no atendimento aos meus pacientes, no estudo, na leitura de algum livro era até algo fácil. Não demandava a esferas abstratas. Não havia necessidade de um foco único, de uma imaginária visão.

 

 

Então, eis que estou dentro de um curso de especialização em Medicina Tradicional Chinesa. Após findá-lo, outras opções foram surgindo, para que melhor nos imiscuíssemos no âmago deste ancestral método de se cuidar das doenças e suas causas.

 

 

Eis que surge à nossa frente a proposta para participarmos de um curso, não muito longo, de Meditação. E lá estava eu, presente, a cada duas semanas, acomodada em um colchonete tinindo de novo, toda ouvidos e atenta para ingressar nesta, para mim, tão difícil arte de, em algo transcendental, concentrar-me.

 

 

Já iniciamos a prática na primeira aula. No período da manhã, a tão necessária explicação teórica. E no decorrer de toda a tarde nós nos aprofundaríamos em nossas meditações.

 

 

A turma, pequena, era composta de alguns colegas cuja amizade já se concretizara no decorrer daqueles dois anos do curso de especialização em Medicina Tradicional Chinesa, acrescido de outros interessados. A maioria, com seus olhos puxados, marca registrada oriental.

 

 

Sala com cortinas escuras. Com a finalidade de manter um ambiente convidativo ao fim ao que nos propúnhamos. Apenas uma luz azul, incidental, indireta, a um canto. E ao fundo, músicas das esferas enchiam o espaço.

 

 

Nossa respiração parecia sincopada. Eu, com olhos abertos e ouvidos alertas. Não vai dar! Era o meu continuo pensar. O que vou dizer quando todos aqui falarão de suas experiências num mundo à parte, para onde migraram no decorrer de suas experiências?

 

 

Acomodei-me melhor em meu macio colchonete. Semicerrei os olhos e comecei a ouvir apenas a melodia que, do fundo, fluía mansamente. Alguns já respiravam ruidosamente. Eu, mantendo os meus movimentos respiratórios da mesma forma de sempre.

 

 

Resolvi, então, em pensamento, deixar aquela sala. Comecei a imaginar-me saindo da velha mansão. Uma velha mansão, que era, então, a sede de nosso curso, que era a clínica de Medicina Tradicional Chinesa de nosso professor. Desci as escadas circulares, de mármore, e adentrei o saguão da recepção. A porta frontal encontrava-se aberta. Passei por ela. Desci as escadarias externas, que ficavam sob um dossel de frondosas trepadeiras, carregadas de coloridas florzinhas. Abri o portão de ferro e comecei a subir a ladeira em direção à avenida Dr. Arnaldo. A ladeira não era reta. A íngreme subida era em formato semicircular. Muros altos carregados de musgo e de líquen que lhes conferiam uma cor verde, já escurecida pela umidade secular aglomerada em suas paredes.

 

 

Ao chegar na avenida rumei à direita, em direção à estação Sumaré do metrô. Lá chegando atravessei a cancela e rumei para a plataforma. Vislumbrei, ao longe, o trem chegando. Quando parou e uma porção de gente começou a sair, enquanto outras,acotovelando-se, iam entrando, tudo se transformou. Num repente.

 

 

Algo diferente ocorreu comigo no instante em que vi o comboio ali parado. Pareceu-me haver sido sugada para outras esferas. Para outras dimensões. Senti o baque. Algo como quando o avião entra em turbulência. Só não sei dizer se o choque enterrou-me abaixo do solo ou içou-me para o espaço sideral.



 

 

Fora uma rápida mudança. Eu não me encontrava mais na estação do Sumaré. O trem não era mais o elétrico e rápido metropolitano de São Paulo.

 

 

Encontrava-me na estação ferroviária de minha vila. E a locomotiva era movida a vapor. Escolhi, aleatoriamente, um vagão de passageiros. Ao nele entrar fui recepcionada por um sorridente chinês de barba e cabelos brancos. Os cabelos unidos em uma única trança que descia por suas costas. Vestia uma túnica, comprida até um pouco abaixo dos joelhos, com mangas imensas, que na altura do punho pareciam abrir-se como se fossem um leque, largas calças e, nos pés, uma sapatilha de cor indefinida.

 

 

Nada falava. Conduzia-me apenas. Por gestos. E assim levou-me naquele trem. Nossa primeira parada foi em uma aldeia indígena. Lá o sábio chinês apresentou-me a um velho índio que usava a mesma indumentária dos nossos tupis-guaranis. Um índio que me mostrou uma prateleira cheia de vidros com ervas medicinais. Que me explicava o uso e a finalidade de cada uma delas. Eu tinha a impressão de que conhecia aquele índio. Chamei-o Tupinambá, nome que na hora me ocorreu. Ele concordou. Era, sim, o próprio Tupinambá de quem tantas histórias eu já ouvira. Que de tantos perigos já me livrara. Sim, Tupinambá, um espírito de luz que sempre surgia, como índio, em nossas preces.

 

 

Voltando ao trem, notei que ele começou a tomar altura em direção ao céu. Não como se fosse um avião. Não tinha asas. Não como se fosse içado por um balão. Eram os trilhos que se estendiam pelo espaço sideral. Fomos até uma construção redonda, toda em vidro, localizada bem além das nuvens conhecidas.

 

 

Disse-me o velho sábio chinês que aquela construção seria o meu laboratório. O laboratório por mim um dia idealizado. O local aonde eu iria buscar toda a medicação de que necessitasse para a cura ou melhora de vida das pessoas que me procurassem aqui na terra.

 

 

O laboratório tinha diversas salas. Os móveis, os utensílios e, mesmo a roupa das pessoas que lá se encontravam eram em tons pastéis, bem clarinhos. Eram cinco salas. Cada sala com uma cor diferente.

 

 

Ali eram fabricados os medicamentos para todos os males. Do corpo e da alma. Mostraram-me todas as enzimas, aminas e sais de que o nosso organismo necessita para um viver normal. Cada um em uma gaveta especial. Não precisava perguntar nada e ao mesmo tempo já sabia as respostas. Tudo telepaticamente.

 

 

Mas, havia um segredo. Quando alguém necessitasse fazer uso de algum medicamento, daquele laboratório, no espaço sideral localizado, muita coisa deveria antes ser feita. Eu poderia lá chegar, em pensamento e pegar a medicação correta. Para isto eu já tinha a chave que abriria cada gaveta. Como se fosse a chave secreta de um cofre. Que chave seria esta?

 

 

— Ah! — Disse-me o velho chinês. —Você já usa esta chave. Ela é a agulhinha que você aprendeu a usar no curso de Medicina Tradicional Chinesa. Colocada e manuseada no ponto certo do corpo das pessoas as gavetas que contêm o medicamento abrem-se, instantaneamente. E, assim, o remédio, específico, para cada caso é liberado.

 

 

Quando eu dei por mim, não havia mais espaço cósmico, não havia mais laboratório com paredes de vidro, não havia mais um velho sábio chinês e não havia, nem mesmo, trem algum. Estava eu acomodada em meu macio colchonete, ao rés do chão na sala já menos escurecida da velha mansão onde os nossos cursos eram realizados. A melodia, a cada segundo, mais suave, mais lenta, até ficar quase inaudível.

 

 

E, lá na frente, um sorridente professor aguardando a narrativa dos resultados e dos achados de nossa experiência no mundo da meditação.

 

 

Não, não fora um sonho. Eu não cerrara, de todo os meus olhos. Não tenho lembrança de sonho algum com começo, meio e fim, como se fora um filme com detalhes, com nítidas imagens e nítidas vozes, desde o instante em que, imaginariamente, eu me encontrava na estação do metrô do Sumaré.

 

 

Foi, sim, um mergulho, num exercício de meditação, que me levou a conhecer e a entender a fábrica de medicamentos que existe dentro de cada um de nós.

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