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Um pedaço de “Rum na Lama Vermelha”

Adair Dittrich adianta trecho de seu próximo livro                                                                                         

 

Apenas à guisa de apresentação…

 

Quarenta anos! O tempo em que o esboço desta história perambulou entre caixas, gavetas e baús. Em uma noite eu o escrevera. Deveria ser tão somente um conto. Em minha velha e pequena companheira Olivetti eu o datilografei. Em vinte e seis páginas, sem margens e em espaços simples estava ele esparramado. E um conto já não era mais.

 

Parecia que, lá nos cantos escondidos, ficara o meu esboço à espera das tintas que o transformariam em livro. A história tomou corpo. Mas continua sendo uma história passada nos anos sessenta do século que passou.

 

Uma história que, para os dias de hoje, possa, talvez, até parecer piegas, talvez até ingênua. Mas, os fatos aqui narrados são típicos e próprios de uma época em que, na minha imaginação, teriam acontecido.

 

Uma história incrustada em estradas barrentas onde o asfalto ainda não havia chegado. História que se passa em um tempo em um local onde energia elétrica e água encanada somente eram sonhos.

 

Uma história com personagens captados apenas na imaginação. Caso algum deles tenha qualquer semelhança com qualquer pessoa terá sido tão somente uma coincidência.              Tão fictícios quanto os personagens, são os fatos nesta história narrados. Caso qualquer deles coincida com situações similares vividas por alguém, não passará também de mera coincidência.

 

Esta história inicia-se à época da renúncia do presidente Jânio Quadros, desenrolando-se depois pelos primeiros obscuros e cinzentos anos da ditadura militar.  A heroína desta história, Alícia, é uma médica. Incrustei, em meio ao romance de amor, casos de pacientes muito bem conhecidos por mim. Relatos estes que são apenas o ponto de partida para aventuras mais profundas e contundentes.

 

A finalidade principal em aqui dissecá-los é o de se fazer uma comparação entre a Medicina que hoje se pratica com a vivida em nossos perdidos sertões há apenas meio século.

 

E no espaço fica uma pergunta. Como sobrevivemos, naquela época, sem a parafernália diagnóstica e terapêutica dos dias de hoje? Sobrevivemos!

 

 

“Numa destas tardes em que fui ter com Alícia eu a encontro cabisbaixa, quase sem querer ou sem poder falar. Mas ela não era de mutismos. Até que enfim, de tanto eu perguntar foi falando:

 

– O que se poderia fazer para que estas pessoas, estas mães e estes pais entendessem que não é só pôr filhos no mundo? Estes serzinhos são gerados, nascem e, enquanto as pobres mães têm leite no seio para os amamentar, tudo bem. Até que vão se criando viçosos.

 

Mas acontece que estas mães vão para as roças de café com estas crianças penduradas a tiracolo. Não sei o que ocorre. Quer dizer, sei. Alimentação deficiente, pois elas também são desnutridas, anêmicas e ainda ficam de sol a sol no serviço pesado. E o leite vai definhando. Quando não há mais leite materno estas crianças vão, uma a uma, morrendo de inanição. Nosso índice de mortalidade infantil é altíssimo e inconcebível.

 

– Mas, Alícia, quem tem a ver com isto é quem trabalha no postinho de saúde. Não tu. Quem deveria olhar para isto é o governo que permite estas disparidades. Não tu. O que houve hoje que estas considerações estás agora a tecer?

 

–Tu sabes, Eduardo, eu não gosto de contar do meu diário daqui deste meu consultório. Mas hoje eu desanimei. Preciso desabafar.  Foi triste. Foi muito triste.

 

Quase com lágrimas nos olhos começou a contar o caso que a deixara tão para baixo.

 

Era a mulher de um peão destas grandes fazendas de café daí dos arredores. Como sempre, quem a trouxe foi o Gato. Veio com a criança, de colo ainda, num estado de desnutrição avançada. Olhos enormes e encovados. Nem bola de Bichat tinha mais. Edema ainda nos tornozelos. Porque se o tivera no restante do corpo até este já sumira. A própria mãezinha já foi dando o diagnóstico por eles usado:

 

            “É doença de Simioto, dona, a criança tá com Simioto”.

 

Então eu fui perguntando que mistura ela dava naquela mamadeira para a criança, pois ela portava uma garrafinha de vidro incolor, imunda, com uma gororoba indistinguível dentro e já dizendo que dava aquilo porque o leite do peito secara.

 

“Secou, dona, porque eu tive uma recaída pru mó dos arrebento que tava dando demais, não deu dois meis que eu tive a criança…”

 

E a resposta para o conteúdo da mamadeira:

 

            “É farinha de mandioca com água, dona, água da fonte com farinha de mandioca.”

 

Quando eu disse a ela que aquilo não sustentava o nenê, que o que faltava para a criança era o leite, ela já foi me cortando a conversa:

 

            “Criei seis filho diansim, dona…”

 

Ao perguntar-lhe que idade tinham os demais e como eles estavam de saúde, ouvi a estarrecedora resposta que me deixou no chão onde ainda me encontro. Onde me encontraste:

 

            “Morreram tudo, dona, morreram… Deus quis”.

 

É, ela criou seis filhos assim… Mamadeira de farinha de mandioca com água sabe lá de onde e como da fonte fora tirada. Criou seis filhos, assim… para aumentar o número de covas infantis nos cemitérios do mundo…

 

Alícia calou-se. Calei-me também. O que poderíamos fazer. Era preciso começar do começo. Era preciso, dizia Alícia carregar estas pobres crianças para algum lugar onde possam ser atendidas desde que nascem. Onde possam aprender um novo estilo de viver. Um novo modo de viver. Mas como? Quando? Onde?

 

E Alícia emendava:

 

– Um dia este sonho meu será realidade. Um dia, nem que leve cem anos, a mortalidade infantil será zerada no mundo. E todas as mãezinhas saberão como cuidar de seus nenês… e haverá leite materno em abundância para todos…

 

A incurável sonhadora Alícia…”

 

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