Última noite em Montreal e as Cataratas do Niágara

Cataratas do Niágara/Arquivo

Adair Dittrich retoma sua viagem pela América do Norte                                                    

 

Tanto a se ver na Expo/67 e os ponteiros do relógio em moto perpétuo. Sem preguiça, sem tréguas, sem cessar. Os pavilhões distribuíam-se pelas diversas ilhas ligadas à de Montreal, ao longo do rio São Lourenço. Para que, pelo menos, a parte externa de alguns deles eu pudesse ver, era a pé que aqueles percursos todos eu fazia.

 

 


Já entardecia quando coloquei os pés dentro do grande espaço destinado à União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Era uma construção toda em cinza-prateada, tendo, em destaque, sobre a entrada principal as datas 1917 – 1967, dando ênfase aos seus cinquenta anos.

 

 

E dentro do tema da Expo/67 “O Homem e seu Mundo”, nominaram a sua grande apresentação com o sugestivo título “Em nome do Homem, pelo bem do Homem.”

 

 

Toda a tecnologia espacial de então estava instalada no Cosmo Hall. Tive a sensação de estar viajando pelo espaço enquanto, confortavelmente, estive lá sentada em uma poltrona. “Átomos pela Paz”, uma parte bem significativa incentivando o uso do átomo apenas para o bem. Claro que se destacavam aspectos da vida urbana e rural, bem como realizações científicas e de engenharia das diversas repúblicas que compunham a União Soviética.

 

 

Mas, o que mais me deslumbrou foi o grande teatro. Nele eram exibidos filmes, documentários e até desfiles de moda. Mas… fui privilegiada. Já na porta de entrada ouço a música. Inconfundível. “O Lago dos Cisnes”, a inebriante suíte de Tchaikovski para balé. Entrei. E no palco os bailarinos iniciavam os primeiros movimentos. Embevecida e estática lá eu fiquei. E nada mais naquela exposição eu vi. Precisava?

 

 

 

Ainda tomada de encantamento com a bela melodia do magistral poeta da música na cabeça saí a vagar nessa minha última noite pelos espaços abertos da grande exposição de Montreal. Canções diferentes estava eu a ouvir. O som vinha de uma imensa praça onde a alegria imperava. Mesas ao ar livre. Quiosques oferecendo as mais variadas opções em bebidas e pratos típicos de diversas partes do mundo. Grupos musicais que se formavam, aleatoriamente, faziam arranjos fenomenais de cantigas novas e antigas, clássicas e populares com uma inusitada gama de instrumentos.

 

 

E todo mundo dançava. Danças aos pares. Danças de roda. Malabarismos. Acrobacias. Quando dei por mim lá estava eu no meio do povo, de braços dados rodando junto. Quando os pés já não davam conta procurava-se uma mesa. E as conversas foram entrando pela noite, numa miscigenação de idiomas e culturas.

 

 

Quando ainda estávamos na estrada, rumo ao Canadá, minha amiga Regina São Clemente comentava que em breve entraríamos em um território onde se falava uma língua, a francesa, bem mais conhecida nossa. Que a comunicação far-se-ia com maior facilidade. Mas, o impressionante foi que, depois de quase um mês falando e até pensando em inglês, as palavras francesas não aportavam em nossas mentes com a facilidades esperada. Mas, de súbito, ali, naquele aconchego de novos amigos, que até me pareciam velhos conhecidos de longa data, tal a afinidade, o francês fluiu normalmente.

 

 

 

Foi uma memorável noite com estes novos amigos. Amigos com quem, por muitos anos, ainda, troquei cartões de natal e que me esperaram, em vão, em seus países, pela minha prometida visita…

 

 

Passava de meia-noite quando um táxi me deixou em nossa pousada. Pouca coisa para ser colocada na mala. Apenas algumas lembranças adquiridas nos estandes que visitei.

 

Basílica de Notre Dame

Deixamos o nosso encantando recanto entre os bosques de ciprestes e pinheiros numa fria manhã de agosto. Pouco víramos da bela cidade de Montreal. E após o café da manhã, antes de tomarmos a estrada rumo a Toronto e às Cataratas do Niágara, nosso próximo destino, rodamos por entre os parques, praças, ruas e avenidas. Jamais poderíamos deixar de conhecer a belíssima Basílica de Notre Dame onde ainda chegamos a tempo para assistirmos à celebração da Santa Missa.



 

 

Se nossa intenção fora dar apenas uma rápida olhada através das janelas do carro, ela logo se desvaneceu. Impossível não caminhar pelo verdadeiro labirinto formado pelas preservadas ruas de pedra. Admirar os velhos prédios com suas floridas jardineiras. E parar a fim de comprar mais alguma coisa bem canadense, bem local, bem Québec. Encontrei o mais suave mocassim que tive em minha vida. O verdadeiro mocassim dos índios Mohawks.  De puro couro amaciado. Que me acompanhou por longos anos.

 

 

Praça Jacques Cartier

Quando percebemos já era o momento de almoçarmos. Estávamos circulando exatamente na região do Vieux-Port e chegamos até a Praça Jacques Cartier onde encontramos muitos restaurantes e bares com deslumbrantes jardins e suas mesinhas ao ar livre. Como despedida, pedimos, uma vez mais, a deliciosa Poutine, típico prato de Québec.

 

 

E então a estrada rumo a Toronto. Que era longa. Estávamos rodando nas mais distantes longitudes. Lá pelo paralelo setenta e nove. E dirigíamo-nos rumo oeste. O sol ainda nos acompanharia por muitas horas. A rodovia margeia o rio São Lourenço, o rio que leva as águas do Lago Ontário para o mar. Paisagens ímpares em ambos os lados. Poucas elevações de terreno. Muitos bosques. Florestas. Um verde sem parar. Dizem que após uma boa cobertura florestal que rodeia as rodovias, estendem-se as plantações. Por isto não se observavam campos cultivados no entorno delas. Por isto as erosões não tomam conta das estradas. As árvores preservam o solo.

 

 

 

Quando passamos por Toronto o sol ainda se mostrava pleno. Deixamo-la ao largo e partimos diretamente para as Cataratas do Niágara. As luzes noturnas das cidades que as margeiam já se mostravam no horizonte quando delas nos aproximávamos. Hospedamo-nos no lado canadense, para, no dia seguinte, por aquele lado, começarmos as nossas incursões pelas turbulentas águas. Pois Niágara foi o nome dado àquelas quedas pelos índios iroqueses, seus primeiros habitantes, e significa exatamente “Trovoada de Águas”.

 

 

 

Imensidão de águas que, ruidosamente, vertem por inúmeras gargantas, num contínuo estrondo, como se milhares de trovões por ali estourassem sem parar. Diferente do som das ondas do mar, o som das águas que se despencam continuamente pelas gargantas dos rochedos. Aos poucos os ouvidos vão se acostumando àquele ribombar e a sensação é de que lá sempre se esteve. As cidades estendem-se, em ambos os lados da fronteira, ao longo das águas. Das águas do rio, das águas dos lagos, das águas das cataratas.

 

 

Nosso primeiro passeio foi dentro do “Maid of the Mist”, um barco que singra aquelas águas desde o ano de 1846.  Porque o maior impacto seria o de se ver as cataratas de frente. Para que as pessoas não se molhassem demais capas amarelas, não descartáveis, poderiam ser alugadas. Vinham acondicionadas em plásticos, com selos garantindo uma total higienização e assepsia. Eram grossas e pesadas. Então, envoltos nelas acomodamo-nos no barco. Lentamente ele cruzava o território das águas indo em direção ao ponto principal, em direção à enorme fenda que é formada pela queda das águas, em direção às quedas da Ferradura.

 

 

Impressionante o estrondo das águas bem à minha frente. O imenso volume líquido despencando-se sem cessar ante os meus olhos estáticos e extasiados. Não fosse o balanço do barco tenho a certeza de que eu estaria ali completamente imóvel.

 

 

Miríades de arco-íris, alternando posições, de acordo com as gotículas de água, que, projetadas no espaço eram como prismas dispersando a luz solar.

 

 

Mesmo envoltos com as grossas capas amarelas não houve maneira de se escapar de uma verdadeira inundação com aquele borrifar forte e incessante.

 

 

Mas as emoções nestas cataratas não cessam por aqui.

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