Terror branco

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João Pedro Lemos Petter*

 


Meu amigo conhecia o dono de um lindo chalé rústico nos Andes. Eu sempre quis ver neve, esquiar e ficar em um chalé rústico em terras nevadas e como normalmente meu amigo vai nesse chalé durante as férias de inverno, e nesse ano ele iria visitar os pais de sua noiva no Rio de Janeiro, ele me apresentou o dono do chalé, um velho e gentil homem de descendência chilena.

 

 

Com as chaves do chalé na mão eu parti sozinho rumo aos Andes. Minha jornada começou no aeroporto de São Paulo que me levou até o aeroporto de Santiago, então eu dirigi duas horas com um carro alugado.

 

 

No caminho do chalé eu vi neve pela primeira vez na minha vida. Flocos dançando calmamente rumo a terra, pintando-a com um lindo tom de branco, enchendo o ar de magia e beleza.

 

 

 

Algum tempo depois cheguei ao chalé e imediatamente eu percebi algo estranho, uma das janelas estava aberta. Ao examinar o chão debaixo da janela eu pude perceber, graças a uma pilha de neve composta tanto de neve nova como neve que suspeito haver derretido sob o sol matutino. No momento eu simplesmente aceitei a teoria de que algum zelador tinha esquecido aberta quando veio limpar a cabana, afinal ela estava bem limpa. No entanto eu não pude me preocupar com a janela, pois a gentil queda de neve estava se tornando uma violenta nevasca.

 

 

Com uma pá, que encontrei junto a outras ferramentas num armário perto das escadas para o segundo andar, eu joguei a pilha de neve para fora da janela e a fechei com pressa. Nunca em minha vida eu havia imaginado que algo lindo e gentil como a neve que tinha presenciado mais cedo pudesse se tornar, tão rapidamente, uma terrível força da natureza. O vento assobiava, frio e intenso, debaixo de um céu furioso.

 

 

Acendi a lareira e me sentei na frente da televisão, mas após alguns minutos a luz caiu. A nevasca enchia o ar com sons, o vento rugindo, a neve caindo furiosa, mas havia algo errado com essa sinfonia de fúria, um som não se encaixava com os outros. Foi então que eu percebi, um barulho estava vindo de dentro do chalé.

 

 

Levantei-me em meio a escuridão brandindo uma vela que encontrei na cozinha. No princípio eu pensei que fosse apenas outra janela aberta, mas todas as janelas estavam fechadas. Então eu conclui que fosse algum galho, movido pelos ventos violentos. Voltei para a frente da lareira com um livro. Eu estava me sentindo estranho e não conseguia mais relaxar. Os ventos e a neve eram incessantes. Havia alguma coisa errada.



 

 

Após alguns minutos eu ouvi o barulho novamente. Forcei-me a levantar e subir as escadas com minha lanterna, um fio de luz em meio a escuridão. Ao examinar o segundo andar percebi o que havia de errado, de repente todos meus sentimentos de medo e estranheza fizeram sentido. Meu coração se encheu de horror, quase parando, a cor desapareceu de minha face. Eu não estava sozinho na cabana.

 

 

 

Tenho certeza de que em algum ponto eu o vi pelo menos por um segundo, antes de eu derrubar minha vela em meio a escuridão. Talvez mesmo tenha ouvido sua voz, mas eu não me lembro de nada, nem mesmo se ele era humano ou alguma besta. Quando fecho meus olhos e tento relembrar o que vi, visualizo apenas uma sombra em meio a escuridão.

 

 

Quando minha vela caiu no chão, ela se apagou.  E eu corri, sem rumo a princípio, apenas tentando colocar distância entre eu e o estranho. Em minha pressa eu tropecei na escada e por alguns segundos fiquei imóvel no chão. Mas o medo é um poderoso aliado e a adrenalina minimiza a dor. Em pouco tempo eu estava correndo para a porta novamente, em minha mente eu ia conseguir, no entanto ao abrir a porta eu apenas encontrei um muro de neve.

 

 

Não parecia possível ficar mais desesperado do que estava momentos atrás, mas a vida tem um jeito engraçado de destruir suas vontades. Não só a porta, mas as janelas estavam seladas pela neve. Eu tinha uma ideia, provavelmente não a melhor solução possível, porém a mente se entorpece perante o terror. Então abri uma janela e pulei para fora. Eu havia escapado da cabana, mas a tempestade de neve ainda caía.

 

 

Em plena nevasca eu me sentia nu. Abri minha mala e comecei a colocar camadas de roupas enquanto mancava para longe do chalé, a neve estava na minha cintura. Não demorou para que eu encontrasse meu carro, quase totalmente enterrado na neve, mas eu consegui, quase que miraculosamente, me desfazer da neve que bloqueava a porta.  Eu perdi a noção do tempo em meio a fúria e o terror da nevasca. Tive que passar a noite dentro do carro.

 

 

Pela altura da neve quando acordei na manhã seguinte a tempestade deve ter passado não muito depois de minha fuga. Naquele dia eu fui na delegacia de polícia da cidade mais próxima. Ao investigar o chalé a polícia não encontrou ninguém…

 

 

 

*João Pedro Lemos Petter é estudante de Ciências da Computação e mora em Palmeiras das Missões, no interior do estado do Rio Grande do Sul

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