Seu nome era Clara (II)

Acompanhe a segunda parte da crônica de Adair Dittrich                                                     

Quando éramos crianças Clara foi o tudo em nossas vidas. A palavra Clara só tinha um significado. O significado do nome dela. Mais tarde eu aprendi que para outras coisas a palavra clara poderia ser usada. Mas era ela sempre que aparecia em minha mente quando este nome eu ouvia.

Ela ficou profundamente encravada em nosso mundo. Em minha memória não existe o tempo em que vivemos na residência da estação da estrada de ferro. As imagens que lá por dentro vagueiam já me levam para a nossa casa de Marcílio Dias. Que já era grande. Que quartos e salas adicionais já haviam sido anexadas àquela meia-água, primeira morada de nossos Nonnos Pedro e Thereza após o fim do Hotel Gobbi.

Com o crescente movimento de passageiros nos trens minha mãe já tomava conta do restaurante da estação ferroviária. E não só a Clara, como outras ajudantes foram recrutadas. E todas moravam conosco. Mas Clara era quem de tudo sabia. Muitas delas que não por muito tempo ficavam conosco e das quais pouco eu me lembro, iam dormir sempre mais cedo.  Clara permanecia ao lado de minha mãe e de minha Nonna aprendendo tricô, aprendendo crochê, aprendendo a bordar e aprendendo a arte da costura.

Enquanto as outras moças com seus namorados só conversavam do lado de fora do portão, o seu Arthur, o namorado de Clara era recebido dentro de casa, na sala de visitas. Porque Clara era de casa. E Arthur era o eleito do coração de Clara. Também viera ele de serra abaixo.

Imaginem os dois conversando em nossa sala e dois pirralhos lá junto, aos pés deles a incomodar. Mas assim era a ordem estabelecida. Sem alguém de vela, namorados não poderiam ficar em lugar alguma do mundo.

Nas férias escolares minha mãe ia sempre a Curitiba com minhas irmãs mais velhas. Porque muita coisa só naquela capital poderia ser encontrada. Tanto para o Restaurante da Estação como para nossa vida particular. E nós ficávamos aos cuidados totais de Clara. Que não permitia sequer que de perto dela saíssemos. Escapulidas para correr entre os vagões dos trens enfileirados nas diversas linhas paralelas que ficavam diante do conjunto de prédios da rede, nem pensar. Lembro-me que seu olhar arguto nos encontrava onde quer que tentássemos nos esconder.

Em minha vila nós éramos uma ilha de italianos cercada por um mar de descendentes de alemães por todos os lados. E de todas estas pessoas oriundos de Serra Abaixo só se ouvia a língua alemã. Mas Clara era diferente. Ela até falava o alemão. Mas sua tez e seus olhos e seus cabelos lembravam as trigueiras mulheres da orla mediterrânea. Ela era Finta. E dizia que seu povo era hungarês. Ela vinha da colônia húngara das bandas de Jaraguá.

No rasto dela outros Finta vieram depois. Primeiro seus irmãos Otto e Tecla. Que também trabalharam com meus nonnos e minha mãe no restaurante. Outros primos vieram mais tarde.

Clara tornou-se uma exímia cozinheira. Aprendeu rápido a arte com minha mãe e meus Nonnos. Com perfeição preparava todos os molhos e todas as massas italianas. Foi aluna dócil e interessada em aprender tudo o que minha mãe sabia e pudesse lhe ensinar.

O enxoval de Clara foi todo feito lá em casa. Minha mãe sempre comprava peças de cretone para confeccionar lençóis e outros tipos de tecidos com os quais se costuravam as toalhas de mesa. Mas o forte mesmo para as toalhas de cozinha e mesmo para lençóis era o branco tecido obtido das sacas de trigo e de arroz. As de trigo eram bem mais brancas e serviam melhor para a confecção de lençóis.

Mas o jogo especial de alvo cretone foi todo bordado por minha irmã Aline. Que, com esmero, preencheu com ponto cheio flores e raminhos inseridos nos interstícios das linhas desenhadas à Point d’Ajour por minha mãe.

Então Clara, quando montou sua casa, pode levar dois grandes baús repletos de peças por ela feitos com ajuda de minha mãe.

O casamento de Clara e Arthur foi uma grande festa. Um fino almoço preparado por Dona Nena, minha mãe, no mesmo restaurante aonde por tantos anos ela serviu.

E eles foram morar em uma casa nova, um bangalô diferente, um bangalô avarandado, com sótão e porão e com artística escadaria ao lado. Ficava no meio da colina entre a linha férrea e a igreja.

Na parede da sala um presente de Avany já estava dependurado. Uma pintura a óleo com gatinhos. Que Clara e Arthur não cessavam de admirar. Diziam que os gatinhos lá retratados por minha irmã até falavam com eles. . .

E naquela casa muitos dias eu e meu mano Maurinho nos divertíamos. A casa dela era a continuação de nossa casa.  Continuávamos ficando aos cuidados de Clara sempre que minha mãe de Marcílio Dias precisava se ausentar. Ela era nossa segunda mãe. Em casa dela a comida tinha o mesmo aroma e o mesmo sabor que a feita por minha mãe ou por minha nonna Thereza.

O terreno em torno da casa dela era um imenso território onde choças e tabas de índios nós construíamos. Em miniatura. Com os pequenos cavacos de madeira, que da serraria aonde trabalhava, Arthur para casa trazia. Aonde as árvores frutíferas eram sempre carregadinhas de saborosos frutos de boa qualidade. Seu Arthur conhecia os segredos de se colocar um bom enxerto em um velho tronco de pessegueiro. E havia ainda um imenso quintal coalhado de legumes e verduras. E de moranguinhos também…

Ela continuava sendo o nosso arrimo, o apoio à distância. Sempre acorria em socorro de minha mãe no restaurante em dias de maior movimento de passageiros nos trens.

No dia em que o sol estava mais esplendente, com um sorriso ele entregou Luizinha para eles. Para alegrar a vida do casal. Tempos depois, quando Clara já não mais podia ajudar minha mãe na hora do apuro, que era a hora da chegada dos trens, Luizinha, já adolescente, ia em seu lugar.

Uma das grandes dores de minha vida foi dela ter que cuidar, como médica, nos últimos anos de sua vida. Partiu muito cedo de nosso convívio.

Lembro-me que, quando solteira ainda conosco morava, muitas vezes, na madrugada, mamãe chamava o Dr. Oswaldo de Oliveira que, pressuroso, corria até lá em casa para atendê-la.

Sua saúde sempre fora muito precária. Um coração tão imenso, na tentativa de abraçar o mundo, desordenadamente batia. E assim, neste galope tumultuado, ele continuou até o triste dia em que ela sorriu pela última vez. E nos deixou.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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