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Sempre ao som de um piano…

Leia a crônica da semana de Adair Dittrich                                                                            

 

As minhas horas jamais se escorrem vazias. Porque os sons de mãos a dedilharem as teclas de um piano continuamente impregnam de vida a minha mente. Porque os sons de dedos que suavemente comprimem as cordas e tangem o arco de um violino sem cessar invadem o meu todo.

As minhas horas jamais se escorrem vazias porque no embalo destes sons palavras escorrem ante os meus olhos. Palavras escorrem pelos meus dedos que correm pelo papel.

E vejo, através das pálpebras semicerradas, melodias em forma de notas a emergir dos neurônios pulsáteis dos mestres da música que tantas páginas primorosas nos legaram.

Atravesso as estepes russas e vejo Pyotr debruçando sua alma nas pautas musicais, arrancando melodias de dentro de seu ser. Impregnando de pretos pontinhos os espaços e as linhas paralelas que se perdem em infindáveis folhas de branco papel.

Aquelas colcheias e semicolcheias, fusas e semifusas, mínimas e semínimas, breves e semibreves que, meticulosamente desenhadas, correm pelos espaços e pelas linhas após as imponentes claves que as antecedem. Pretos pontinhos ali jogados a traduzir um momento de dor, um momento de saudade, os céus e os infernos de uma vida…

Eu vejo lá, para além das estepes russas o jovem Pyotr a colorir as suas angústias em maravilhosos concertos para piano e violino, em sinfonias, em suítes para balé…

E, em cada nota que de seus dedos escorre, escorre também um pedaço de uma vida. A cada nota uma ruga a mais esculpida em seu rosto. A cada acorde mais aumenta o branco em seus cabelos. A cada solo mais brancos os pelos da barba que emoldura a sua face.

Como não se deixar envolver pelos sons dos concertos para piano e violino de Pyotr Ilyich Tchaikovski?

Depois eu vagueio pelas margens do Reno e do Danúbio onde encontro um desesperado e incompreendido Ludwig que pelos caminhos vai deixando sinfonias e concertos e pedaços de sua audição.

Impossível, quase, a imaginá-lo, completamente surdo, com uma batuta na mão, na regência de uma orquestra sinfônica executando suas fantásticas obras.

Mais que impossível é sentir, é imaginar as turbulências que se passavam em seu espírito que vivia nas mais altas esferas da arte e nas maiores agruras ao rés do chão.

Entre as nove sinfonias de Ludwig van Beethowen não sei escolher a mais bela. São fantásticas viagens que se empreendem através delas.

Na atmosfera parisiense, em deslumbrantes salões, poucas, mas escolhidas pessoas aplaudem a Frédéric, um jovem polonês, quase garoto ainda, a dedilhar em um piano suas valsas e mazurcas.



Um jovem tímido que um brilhante húngaro chamado Franz impulsionou para a glória dos grandes auditórios. Que se apresentou nos mais famosos teatros do mundo em busca de apoio para a luta pela liberdade do oprimido povo polonês.

Apresentou-se em teatros de vários continentes. E acordou milhares de criaturas para a causa que defendia, ao som de seu piano, executando o vibrante Estudo Revolucionário e a magnífica Polonaise Militar.

Um jovem que revolucionou o mundo com seu apelo musical, esqueceu-se de sua precária saúde, de seu frágil pulmão e, sobre as teclas de um piano, aos poucos, foi dizendo adeus à vida.

Frédéric François Chopin nos legou as mais suaves páginas melodiosas carregadas de amor e as mais retumbantes mensagens revolucionárias que a música pode conter.

Mais uma vez, caminhando pelas nevadas e gélidas estepes russas, encontro Sergei que consegue fazer com que dos mais profundos mares da memória sejam retirados fragmentos de doces momentos vividos.

Sua música se enrodilha ao meio de temas mais atuais em muitas produções de Hollywood. “Lua cheia e braços vazios” são versos inseridos, aleatoriamente, em meio ao seu mais inspirado e conhecido concerto.

Rachmaninoff reflete em sua música as agitações de uma mente sempre em ebulição. Mas, também nos transmite os tempos de calmaria que o possuíam, quando nas primaveras, levava seu pensamento para as longínquas pradarias floridas perdidas na imensidão.

Assim eles, como tantos outros mais, passaram pela Terra deixando para a posteridade memoráveis fantasias musicais que, a todo instante podemos ouvir emocionados, emanadas de mágicas mãos que dedilham as teclas de um piano, que tangem as cordas de um violino.

Incontáveis intérpretes maravilhosos que, em todos os tempos, estão a brindar os nossos ouvidos e a nossa alma com estes sons trazidos do fundo mais fundo de tão sofrida e conturbada alma de tantos.

Se não existissem estas mãos maravilhosas que não se cansam de dedilhar as teclas de um piano ou de tanger as cordas de um violino, sepultadas tantas músicas teriam sido.

Mas, elas, as mãos, estão sempre por aí a nos extasiar.

Impressionante ver a dança destes dedos deslizando sobre um palco branco e preto dos teclados de um piano. Impressionante ver a dança destes dedos comprimindo cordas e sobre elas deslizando um arco. E do balé destes dedos irrompem aos ares as mais diferentes e mágicas melodias.

Num embevecimento total dentro delas eu mergulho e do melódico banho musical emerjo para divagar nas palavras que jogo pelo papel.

 

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