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Sarjetas … para trás (Parte 1)

Adair Dittrich começa a contar uma emocionante história de amor                                                 

 

Cobriu com o lençol branquinho aquele corpo agora limpo, embora fraco e arquejante.

 

Fitou com seus grandes olhos negros o paciente adormecido. Enxugou, uma vez mais, as gotículas de suor, teimosas gotículas, condensadas em sua testa. Ternamente olhava para aquele solitário homem de olhos azuis.

 

Saiu do quarto. Fechou a porta. Atravessou longos corredores vazios enfiada em sua veste branca, escondendo os longos cabelos negros debaixo do gorro branco também. Tudo branco, inclusive o espírito que branco trazia desde os umbrais.

 

Entregou o plantão. Trocou o branco pela comum roupa de todos os dias. Saiu para a noite molhada, para a rua encharcada, desviando poças. Encolhida.

 

Em casa o cenário de todos os dias. Pai exausto, cheirando a álcool, reclamando da vida, irmãos de idades tão várias quanto os sonhos de todos os que lá viviam. Ambiente triste. Chão de misérias. Esperança cansada. Mãe? Não tinha palavras. Não tinha horários. Escrava branca do negro da vida.

 

No banheiro tirou o barro aderido ao corpo. Na alma o grudento visgo. A água do banho levando a gota que transborda dos olhos tristes. E lembra do paciente de olhos azuis, sem lágrimas. Viúvo. Não era jovem.

 

– Mas parecia um anjo. – Disse-me em tom jocoso.

 

–Vou pedi-lo em casamento, vou cuidar bem dele. – Brincara, com um grande sorriso nos negros olhos.

 

– É um doente crônico, menina. Diabético. Não dá Gracinha. Sabes disso. Logo tu, cheia de vida… vais querer um filho… que ele não poderá te dar.

 

– Não faz mal. Vou cuidar bem dele. O resto não importa, não. Depois ele não retornará mais aqui para o Hospital em estado de coma por falta de alguém que dele cuide com desvelo e carinho. Ele é tão bonito! Com aqueles olhos azuis… e tem uma casa tão bonita, tão limpinha, tão branquinha, rodeada de jardins cobertos de flores…

 

Fica ali debaixo do chuveiro pensando naquela conversa e nos sonhos sonhados no dia branco enquanto lágrimas se fundem, num choro sem mágoas, com a água comum.

 

Queria ser Cinderela. Uma das muitas Cinderelas da vida espalhadas pelaí. À procura de um príncipe. Porque não há Cinderelas sem príncipes. Sonhos… sonhos… sonhos… Tinha-os dentro de si. A seu lado. O tempo todo. Uma casa branquinha, cheia de flores. No campo… sonhos de rainha num reino restrito, pobre, mais que pobre. E o cansaço pelos plantões dobrados, na ânsia por algum conforto… a casinha e seus jardins… os olhos azuis de seu príncipe.

 

– É… eu cuidaria bem dele…

 

Ouve o som de uma buzina insistente à porta.

 

– Diz para ele esperar um pouquinho. Já estou saindo…

 

E lá se vai Maria da Graça, Gracinha, jantar num restaurante comum de motel que para ela é um espetáculo de gala. Vai em busca de uma refeição melhor. E Lauro sabia como cativá-la. Lauro? Qualquer um que a tirasse de dentro daquela pocilga onde morava saberia cativá-la.

 

Nos ouvidos a voz da mãe:

 

– Vai sair outra vez Gracinha? Agasalhe-se bem… esta sua tosse… esta chuva… e amanhã cedo o trabalho outra vez…

 

Precisava esquecer essa cantilena de todas as noites em seus ouvidos. E esquecer a voz que dentro de si mesma ouvia. Precisava sentir o latejo da vida, o ruído de vozes alegres.

 

Música! Queria música. E o prato enfeitado do restaurante colorido. Precisava aninhar-se nos braços do mundo. Hoje seu mundo era Lauro. Hoje, ontem, há dias, semanas. Lauro trazia presentes. Roupas, chocolates, discos…

 

– O que farei com os discos? Tocarei em baixo do braço? – brincava ela.

 

E um dia Lauro trouxe um toca-discos. E Gracinha ia ficando. Com a esperança de uma certeza qualquer. Lauro era tão bom para ela…

 

Conhecera tantos tropeços! Sentira a rudez do chão. No dia do casamento o noivo casara com outra. Lembrava apenas que tinha sido num sábado azul, sem mar, mas era azul.

 

Depois, a espera. Com a família toda. A noite chegando com uma lua enorme clareando tudo. A noite chegando com uma história enorme escurecendo tudo. Ele já estava casado desde a manhã daquele mesmo sábado. Com outra. E ontem aqui tinha estado, acertando tudo. Hora marcada.

 

Alianças. A casa bonita, limpinha, branquinha. Sempre a casa bonita e limpinha e branquinha!

 

Seu filho nasceria feliz, teria um lar. Lembrava-se de tudo, até da gargalhada histérica que marcou mais um fim de sonho. Em seu quarto engoliu todos os soníferos e calmantes que foi encontrando. Queria dormir para sempre.

Obnubilação total. Vagueou em meio a nuvens negras e trovoadas ensurdecedoras. Nem lembra agora quantos dias depois retornou daquele pesadelo. Estava no hospital. Encharcada em suor, em lágrimas e em dores na alma e em dores no corpo. Perdera o bebê. Perdera o último pedaço do velho amor, o pedaço mais limpo. Quis deixar o emprego, aturdida em sua vergonha.

 

Merecia ser punida. E foi.

 

– Três dias de gancho? Por que não me mandam embora de uma vez? Já não chega esta droga de vida?

 

Explodia em pânico. Jurava vingança contra tudo e contra todos.

 

Tentei contornar a queda. Colocar veludo e algodão para fingir a maciez que ela não conhecia. Não saiu do hospital. Era rainha nesse mundo branco. O tempo a ajudou a trazer de volta aquele seu meigo sorriso que abrandava a dor dos outros.

 

Lá fora ela despia o sorriso, como despia o manto branco. Lá fora tornava-se a plebeia que rolava em busca de um pão nosso de cada dia que a cada dia mais amargo se tornava.

 

Acreditava que tinha sido tão bom encontrar Lauro. E o encontrou assim, nessas loucas idas e vindas. Mas agora sonhava com o paciente de olhos azuis.

 

– Puxa, doutora, eu casava com ele. Eu cuidava dele. Ele não viria mais pra cá, quase morto. Parece um príncipe! De olhos azuis!

 

Eu a vejo como uma criança perdida. Lá fora, aos olhos do mundo, ela é alguém sem nome, alguém que sai todas as noites com quem lhe pague um jantar ou lhe leve presentes. Cá dentro ela reina. Vestida de branco, sem luxo nem adereços. Reina na memória dos amigos que por aqui conquistou.

 

No seu dia a dia Gracinha faz curativos nas criaturas mais infectas. Suas habilidosas mãos limpam o lodo do pária social. Lavam corpos encardidos, cheios de fétidas chagas.

 

Retiram secos excrementos, aderidos já à pele curtida, com o macio algodão de suas mãos. E seu sorriso meigo, seus grandes olhos negros tiram o mal estar do paciente nu sobre a cama, enquanto ela lava todas as dobras da pele, enxuga todas as gotas de sangue e suor, derrama a paz em tranquilas palavras.

 

Agora Gracinha tosse, tosse, tosse, angustiadamente, dolorosamente. O dia clareando vai encontrá-la ainda acordada e gemente, com lancinante dor junto às costelas. E, mesmo assim chega ao seu posto, ao seu trabalho. A palidez e a fria sudorese a acompanham. Fraqueza intensa. Imagina que seja apenas uma gripe vulgar.

 

– Queria apenas um xarope para a tosse.

 

Foi o lacônico recado que deixou. Havia esperado horas por mim, gemendo, suando… e tossindo.

 

– Ela não quis lhe incomodar, doutora. Disse que tinha gente em estado pior e mais grave que ela para ser atendida.

 

No dia seguinte Gracinha volta. Com a pontada mais forte ainda. Desmaiando.

 

Queimando em febre. A pneumonia torna-se evidente. E a rainha troca o manto branco por rósea camisola. E reina de cima de seu leito com um sorriso molhado. No melhor apartamento, com televisor. Parentes e vizinhos de seu bairro triste a visitam e a encontram no pedestal. E conhecem outra Gracinha. No apartamento róseo. Com televisor. Aqui ela é alguém.

(Continua)

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