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Sarjetas… para trás (Final)

Última parte da triste história de Gracinha                                                                                                                

Num domingo à tarde precisei ir ao hospital. Para anestesiar um paciente. Cirurgia de emergência. Coisa de gafieira. Briga de várzea. Tiro no pulmão. Cirurgia terminada. Paciente na Unidade de Terapia Intensiva. Embora exausta pelas longas horas no Centro Cirúrgico não deixei de visitar Gracinha. Estranhei ver crianças circulando pelo hospital, defronte o Centro Cirúrgico e na boca da UTI. Não era permitido.

 

– São filhos do baleado.

 

Engoli a reclamação. Tristeza para eles. Infância expectante, com medo da dor, esbugalhados olhos, tímidos, silenciosos… Num lapso de tempo o medo nascendo…

 

– … levou o tiro numa disputa por outra mulher.

 

Encontrei Gracinha com o rosto em desespero. Pranto convulso. Lágrimas quentes, tristeza infinda. Virou o rosto que só a parede viu em lágrimas, lágrimas depois escondidas nas mãos longas e magras.

 

–Gracinha! Chorando porque está quase com alta?

 

E outras perguntas e mais perguntas ainda. E só o choro dela como resposta. Tento mostrar-lhe outras coisas tristes. Tristes fatos e coisas que volteiam ao nosso redor. Sempre existe alguém mais faminto… sempre existe alguém mais triste e condensei um poema fantástico tentando trazê-la de volta. Falei do moço baleado, com uma mulher tão linda, com crianças tão lindas, tão lindas e tão assustadas…

 

– Que é isto Gracinha? Até parece que é o teu namorado que lá está entre a vida e a morte…

 

Nem acabei a frase e ela:

 

– … é … doutora … é … é …. é ele …

 

Depois o silêncio. E a impressão de medos. Depois, ainda depois, o soluço. Restou o soluço. O soluço, só.

 

Gelei.

 

Balbuciando tentei consolos. Mas ela estava ali, doente, precisando de apoio, do apoio dele. E ele lá baleado, longe de quaisquer palavras com jeito de amor. Longe, como estivera antes, como estivera sempre, talvez.

 

– Menina, levanta a cabeça. Estás muito acima disso tudo para te entregares a tantas lágrimas. Não irás permitir que esta mágoa, esta ferida da alma fique doendo e faça ruir o tempo de cura da doença do corpo.

 

Gracinha emocionou-me mais ainda quando dizia o sim apenas com a cabeça e, comovida, abraçou-me.

 

Fingiu estar bem, fingiu estar curada. Continuaria o tratamento em casa. E foi morar com uma tia em local de clima mais ameno, mais quente, aguardando a recuperação.

 

Um dia retornou. Para a nossa cidade. Para a sua vida de sempre. Para o nosso hospital. Para o seu trabalho.

 

Tentando trabalhar em um turno só. Tentando. Precisava. Tinha dívidas. Comprara coisas bonitas para deixar sua casa mais alegre, mais branca. Tanto sonhara com uma casa mais branquinha, mais alegre, mais limpa… fogão a gás, televisão… e um jardim, um florido jardim…

 

O retorno foi curto. A tosse voltara. Só a alegria não voltara. A dor voltara. Só Lauro não voltara. Voltara a falta de ar. Só não voltara o sorriso antigo.

 

– Não dá para eu me tratar sem ficar no encosto da previdência? Eu preciso do dinheiro…

 

Tratar-se continuando a trabalhar no hospital? Não, não seria possível. Necessário seria o afastamento, novamente, para tratar de sua saúde.



 

O exame do escarro evidenciou aquele exército de bacilos curtos… azuis… que, noite após noite escavaram o seu enfraquecido pulmão nele construindo cavernas.

 

A camisola cor de rosa era o seu manto de rainha e envolta nele embarcou numa carruagem que não era de sonho. Envolta nele embarcou na ambulância que a levou ao sanatório.

 

Lá seria um novo reino, onde como súdita entrou, soberanamente nobre, no alto de sua humildade. Onde Lauro não entraria. Nem como rei, nem como nada. Porque a náusea teria que esbarrar na porta e lá ficar. E dele somente náuseas teve. Porque ele então era nada mais que um monturo de escarros pestilentos e nauseabundos. Não!

 

Ele ali jamais entraria. Não porque alguém lhe barrasse os passos. Porque a arrogante mediocridade do covarde, que ele era, encontraria mil desvios.

 

Gracinha não sabe e, talvez, nem chegue a saber, que está cavalgando em um mundo mais elevado. Nas pradarias de esferas azuis. E de dentro de sua pobreza material, de sua humildade, pensa igualar-se ao rés do chão onde vive. E, nesse árduo rastejar, sente os duros espinhos a lhe magoarem a carne e a tenra pele. Uma carne sem couro e sem crosta. Sem o couro e sem a crosta dos animais selvagens que rastejam em solo pedregoso sem jamais lhes sentir as asperezas.

 

Depois viu seus dias passando sempre iguais. Navegando lentamente entre a multidão fantástica. Não sabia realmente o que queria, o que sentia. Extravasou um dia pelo elo de cadeias recortadas em caminhos sinuosos a insinuar as evidências que o mundo lhe mostrara.

 

E assim passou seus dias. Numa indefinível tristeza inexpressiva e inexplicável, cansando-se e exaurindo-se à procura do algo indefinido e impreciso que ela não conseguia enxergar na densa neblina em que se amalgamava. Um vulto, talvez.

 

Caminhou um dia para além dessas fronteiras de sua mente. E depois nem soube afirmar e nem dizer o que sentira. De um tropeço a outro ficava perdendo, aos cachos, às pencas, os tesouros recolhidos em um tempo anterior a tudo. Não saberia nem mais dizer se o adeus que dissera um dia teve algum sabor.

 

E agora? Começar um novo caminhar. Um alongar de olhos em busca de outros horizontes. Subir a escarpa.

 

Controlar as mágoas. Procurar o bálsamo. Mas… onde?

 

E uma voz submersa no lago da memória a empurra em busca, ao encontro de um trilhar mais leve. Uma voz que foi ficando forte, muito forte, cada vez mais forte conseguiu fazer com que o seu eu vibrasse mais intensamente.

 

E criou o motivo para reagir. E novo ânimo encontrou.

 

Sarjetas imundas ficariam para trás. Monturos de imundo lixo ficariam para trás.

 

Serpentes molesmentas ficariam para trás. Odores insuportáveis ficariam para trás.

 

Sentiu-se invadida de estranho pensar e caminhou mais lentamente já com o olhar desanuviado. E começou a vislumbrar estrelas e conseguiu entrever um céu azul para mais além da estranha fumaça nebulosa pairante nas coisas de aqui.

 

Passos indecisos já não cabiam mais em seu caminho. Retornou na trilha tortuosa para um recomeço sem turbulências.

 

Pés enfiados em sua sandália com alto solado de madeira faziam estranha e intensa ressonância na calçada umedecida.

 

O tumulto e a barreira dessa rua sempre cheia que tanto a irritava deixou de existir. Como se estivesse a vislumbrar em meio a tanto bulício rostos sorridentes, olhares límpidos, olhares coloridos, olhares de amor, olhares de pessoas que ela imaginara já nem existir.

 

Seus passos já mais firmes, mais compassados, já não tímidos, fizeram-na adentrar na igreja aberta e vazia.

 

O silêncio, quebrado apenas pela música de um órgão, fê-la enlevar-se para muito além de tudo o que a sua pequenez e covardia até há pouco conheciam.

 

Sentou-se no último banco, na última fila e enfiou o rosto, ainda belo, em suas magras e gélidas mãos.

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