A Santa e a Cruz

Santa Cruz de Canoinhas/Fátima Santos

Adair Dittrich conta uma bela história relacionada à padroeira de Canoinhas                                                   

 

Era um tempo muito frio. Era um tempo em que as geadas cobriam nossos campos e nossas matas, nossos telhados e nossas plantações, antes mesmo que se iniciasse o outono.

 

 


Foi numa noite gélida assim, num dia de um abril que findava que minha amiga contou-me uma história. Uma longa história.

 

 

Aconchegadas ao pé do fogo de um rústico fogão a lenha, naquela casinha situada quase à beira da linha do trem, ela me contou uma história que marcou fundo em minha memória.

 

 

Naquele tempo parecia que minha amiga tinha muito mais tempo de vida do que se poderia deduzir pela sua face morena, ainda lisa, e pelos fios de seus cabelos ainda castanho-escuros, quase negros. Porque o seu tempo de vida era contado, não pelos anos que tinha, mas, pelo muito que lia, pelas histórias que conhecia, pelas histórias que contava.

 

 

E ela começou a me contar esta história muito antes que o crepúsculo do entardecer daquele dia pudesse ser vislumbrado atrás dos morros que ficavam logo além da linha do trem.

 

 

Não só as labaredas que crepitavam no fogão, mas também um café bem forte e bem quente não só nos aquecia o corpo, como aquecia, também a mente de minha amiga que não cessava de falar.

 

 

Falou-me de uma história singular. Uma história que lhe fora contada há muitos anos, quando menina ainda ela era. E ela acreditou. Porque a mulher que esta história lhe contou era uma mulher de um rosto enrugado. Porque a mulher que esta história lhe contou era uma mulher com um semblante maduro que impregnado se encontrava pelas durezas da vida. Porque a mulher que esta história lhe contou era uma Santa. Pois, como Santa ela era conhecida por todo aquele povo que vivia naqueles rincões de outrora. Não Dona Santa. Simplesmente, Santa. Porque Santa não era o nome dela. Foi o povo que começou a chamá-la Santa. Começou a ser chamada Santa, certa vez, quando, muito nova ainda, apenas uma frágil garota, ela livrara muitas crianças de seus “ataques de bicha” somente com seus benzimentos e mais algumas ervas que colhia no mato.

 

 

Diziam que a Santa jamais se casara. Porque recebera, antes ainda do adolescer, uma ordem vinda do Alto, vinda dos Céus. Uma ordem vinda diretamente da boca de um velho homem que parecia ser um monge. Um monge que carregava consigo uma cruz de madeira.

 

 

E aquele monge, vindo do espaço, carregando uma cruz de madeira em seus ombros, estava envolto em uma luz muito brilhante, uma luz que quase a cegara.

 

 

E, naquele dia, o velho monge, que carregava uma cruz de madeira em seus ombros, falou-lhe que a missão que havia sido destinada a ela era a de livrar de seus males todos os que por ela procurassem.

 

 

E, naquele dia, o velho monge, que carregava uma cruz de madeira em seus ombros, disse-lhe também que, embora sendo muito pequenina, ela deveria sempre levar consigo uma cruz. Uma cruz de madeira. Que deveria ser construída por ela. Com apenas o peso e o tamanho que ela suportasse carregar.

 

 

E, muito mais coisas disse-lhe o velho monge, que das alturas viera, envolto em um manto de luz tão forte, que o campo ao redor a tudo iluminava, deixando emudecidos os animais que pastavam ao lado e as aves que nos galhos das árvores do bosque vizinho pousavam.

 

 

Disse-lhe que ela deveria sempre usar vestes em tons azuis. E foi desde então que aquela garota franzina começou a ser chamada de Santa. E foi desde então que aquela criança, que não chegara ainda à idade do adolescer começou a usar um longo vestido azul que se estendia até os seus pés. Com longas mangas a cobrir seus finos braços. Uma veste feita de um brilhante tecido acetinado, como se fosse uma túnica, apenas amarrada em sua cintura por um grosso cordão também azul. E por cima de tudo um manto de tule da cor do céu, que como se fosse um véu, esvoaçava desde sua cabeça até o chão.

 

 



Assim trajada perambulava pelos campos e pelas matas, pelas vilas e pelas estradas a menina Santa, carregando uma cruz que tinha o peso que seu corpo conseguia suportar.

 

 

E o velho monge, que de alguma galáxia viera, o monge que do céu, envolto em um halo de luz, aparecera para lhe transmitir esta sagrada missão, disse-lhe algo muito mais forte, algo que, a ferro e a fogo, em sua mente e em sua alma gravado ficou pela eternidade afora.

 

 

Falou-lhe que aquele dia era o dia consagrado à Santa Cruz, o dia consagrado ao Lenho Sagrado. Esta mesma Cruz que o primeiro nome fora de nossa nação.

 

 

E que chegaria o dia em que os povos do mundo inteiro iriam entender o poder desta Cruz, que é Santa. Não uma cruz qualquer. Mas, uma Cruz que deverá ser erguida em todas s colinas da terra para nós nos lembrarmos do infinito amor d’Aquele que, crucificado, por nós nela morreu.

 

 

A menina então, tentou, pela sua vida toda, cumprir a missão que, através do velho monge, o Alto lhe destinara.

 

 

O sangue, remanescente das matanças inglórias de um tempo atroz que, como sombras malignas marcaram a nossa região, quente e viscoso, encontrava-se e ainda se encontra, misturado à poeira das estradas.  E muitos escárnios, pelos caminhos por onde andou, a pequena menina Santa teve que ouvir.

 

 

Ela tentava, apenas, mostrar a Cruz a todos e falar palavras de paz e de amor. As mesmas palavras que o Mestre dos Mestres proferira, em seu tempo, pelos desertos por onde andou.

 

 

Sempre havia, junto dela, algumas pessoas que a protegiam das barbáries de alguns. Porque o Alto não abandona os seus. Aos poucos, com o intuito de protegê-la, um séquito formou-se em seu entorno. Com o passar dos anos, os escárnios e as zombarias foram amenizando. Apenas algumas poucas palavras ou alguns olhares maldosos ficavam no ar.

 

 

A Santa cresceu, amadureceu, envelheceu. E pouco dela se ouve ainda falar.

 

 

Minha amiga tirou a chaleira com água fervente da boca do fogo e coou um café quente e fresquinho para que nos aquecêssemos na gélida madrugada que morria.             Passáramos a noite colocando achas de lenha no rústico fogão. Acendeu mais um cigarro. Não parara de fumar a noite toda. E, entre um cigarro e outro que ela acendia no braseiro à nossa frente, a história toda se desenrolou.

 

 

Disse-me que eu deveria ter conhecido a Santa. Ou, pelo menos, que eu tivesse visto, de passagem, aquela mulher vestida com uma longa túnica azul e coberta com um véu de tule esvoaçando ao vento.

 

 

Aquela mulher que, diziam, fazia curas miraculosas. Que ensinava palavras de amor. E de paz. Que jamais aceitara pagamento material pelos trabalhos que realizava. As pessoas, agradecidas pelo bem recebido, ofertavam-lhe abrigo, agasalho e alimentos. Deles ela fazia uso apenas do pouco que necessitasse para sua sobrevivência. A maior parte ela doava para os pobres da terra da Santa Cruz de Canoinhas.

 

 

A noite fora curta para uma tão longa história.

 

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