Quando não há mais o que se fazer

Michele: “Ele não tratou a depressão, não sabia o que era”/Edinei Wassoaski/JMais

Pai que perdeu o filho e professora que perdeu o pai contam como convivem com a dor de terem perdido entes queridos por opção deles

 

A professora Michele Hanemann custa a aceitar que o pai tenha se suicidado em janeiro de 2014. Ele foi encontrado morto por afogamento em um rio raso da localidade de Taunay, interior de Canoinhas. Perto do rio havia uma corda, o que sugere que ele tenha antes tentado se enforcar no rio onde um vizinho havia tirado a própria vida anos antes. “Pra mim ainda não está bem claro”, diz num misto de dúvida e consternação. Naquele ano sua mãe lutava contra um câncer quando descobriu que estava grávida. Como o tratamento impedia tratamentos invasivos como a quimioterapia, o médico que tratava dela disse para seu pai: “Se acontecer alguma coisa com ela a culpa será sua”. A frase martelou por muito tempo na cabeça de Ivan Hanemann, mas a família só percebeu isso em seu silêncio e olhar perdido. O antes alegre paizão se tornou cada vez mais calado e pensativo. Aos irmãos, Ivan dizia que algo estava para acontecer. “Conversei depois com meus tios e eles contaram que ele pedia para eles olharem pela família dele se acontecesse algo com ele”, conta Michele. Para os tios não há dúvidas de que Ivan tenha se matado.

 

A situação se agravou quando a mãe de Michele descobriu que esperava gêmeos e que o parto seria de risco. Ivan não esperou, o que gerou uma grande mágoa na mãe de Michele. “Ela não perdoa, e eu lamento por não ter ajudado. Ele não tratou a depressão, não sabia o que era. A dor é maior que qualquer outra coisa para a família”, afirma.


 

Os gêmeos nasceram sem sequelas e a mãe de Michele curou o câncer.

 

 

ABSTINÊNCIA DO FILHO

Luizinho: “Quando eu ajudo, deixo de lado um pouquinho os meus problemas e isso é muito bom”/Edinei Wassoaski/JMais

Se perguntam a Luiz Nascimento de Carvalho como o filho, Jacques Carvalho, promoveu uma mistura de remédios com drogas, o que o levou a um ataque cardíaco fulminante, aos 38 anos, ele demora para encontrar a resposta. Talentoso, bem-sucedido e muito inteligente, Jacques tinha entrado no mundo das drogas dez anos antes. Perdeu a esposa e viu os clientes de sua empresa de informática sumirem, foi rejeitado pelo restante da família, mas sempre que ouvia os conselhos do pai, concordava. “As drogas foram mais fortes que ele. Para vencer o vício, resolveu se matar”, lamenta.

 

Hoje, Luiz se dedica a palestrar em escolas e escreveu um livro chamado “Abstinência do Filho”, no qual conta a luta de Jacques contra as drogas. “Não busco dar lições de moral. Apenas explico que a vida é boa, nós é que a estragamos caindo nas drogas, escolhendo relacionamentos doentios, tomando atitudes equivocadas. Cada um escolhe como viver e como morrer. Quem usa drogas, está propenso a morrer”, conta.

 

Luiz frisa que ninguém se recupera de uma depressão sem apoio da família. Jacques passou sucessivas vezes por casas de recuperação e foi diagnosticado com depressão. Melhorava, mas o vício parecia falar mais alto e depois de meses limpo ele voltava a usar drogas. “A família é importante. A igreja também. Todas as igrejas ensinam coisas boas”, aconselha o escrivão aposentado.

 



Luiz lembra também que ajudar ao próximo é uma maneira de se ajudar. “Quando eu ajudo, deixo de lado um pouquinho os meus problemas e isso é muito bom”, conclui.

 

Foto: Luizinho: “Quando eu ajudo, deixo de lado um pouquinho os meus problemas e isso é muito bom”

 

Ombro amigo

 

  • Mostre que você se importa, que a pessoa não está sozinha. Ofereça ajuda sem julgar ou dar conselhos: Diga: “estou preocupado com você. Quer conversar? O que posso fazer para te ajudar?”
  • Não compare sofrimentos: não exija que o seu amigo se sinta alegre por ter menos problemas que outras pessoas. Cada um lida com os sentimentos de forma particular.
  • Pergunte se seu amigo cogita se matar. Se a resposta for “sim”, não entre em pânico. Compartilhar pensamentos suicidas pode aliviar a sensação de isolamento.
  • O melhor caminho é sugerir auxílio profissional. Por exemplo: “tudo bem se não quiser se abrir comigo, quer ajuda para encontrar um psicólogo?”

 

Em caso de emergência

  • Ao ver uma postagem suspeita, notifique o Facebook e entre em contato com o amigo.
  • Se alguém ameaçar tirar a própria vida, sempre leve a sério: ligue para o 190 ou acompanhe seu amigo pessoalmente até a emergência mais próxima.
  • Depois de uma ameaça de suicídio, entre em contato periodicamente com a pessoa.
  • Se você está com problemas:

 

Ligue para o CVV pelo número 141 (é 24 horas)

 

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