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Pacientes-caninos

Leia a crônica do fim de semana de Adair Dittrich                                                                                               

Estamos em constantes mudanças. No mundo, na Terra, na vida. Uma simples menção aos fatos que, há sessenta anos, nos pareciam tão naturais, tão normais pode causar arrepio a alguns nos dias de hoje.

E muito do que se vê, do que se ouve e do que se faz nos dias de hoje há sessenta anos nem sequer se ousaria pensar.

Este preâmbulo aqui está, apenas, para pedir que corações mais suscetíveis não esmoreçam ao ler estas linhas que tentam trazer um pedaço esquecido dos tempos em que pelos anfiteatros de nossa escola de medicina eu passei.

Foram três as fases em que o meu Ego subiu aos píncaros no decorrer de meus estudos. O primeiro, claro, foi o ter transposto a fatídica barreira do vestibular já na primeira tentativa. O último foi o momento em que o diretor da faculdade fez a imposição do anel de esmeralda em meu dedo indicador, outorgando-me o título de médica na memorável noite de nossa formatura.

Mas, é da segunda fase que eu quero falar. A fase do meio. A que foi, talvez, a mais marcante. Foi a minha entronização triunfal no reino das enfermarias da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba. Foi a fase em que, finalmente, pusemos as mãos nos pacientes. Era o almejado quarto ano de medicina.

Eram as enfermarias de clínica médica as que mais me fascinavam. Nelas eu poderia passar o dia inteiro. Sentia-me como um detetive em busca do malfeitor que minava a saúde das pessoas. Sentir os pacientes. Falar com eles. Aprender como examiná-los. Diferenciar os sons da percussão e da ausculta. Tudo isto sempre foi o meu encanto maior. Mas, necessário era também a iniciação à Técnica Operatória, cadeira que fazia parte da grade curricular. Que não me atraía. Nunca fui muito chegada aos cortes e às costuras…

Esta matéria era ministrada no subsolo do prédio da Universidade Federal do Paraná. As aulas teóricas no grande anfiteatro. As práticas em um grande salão onde se encontrava todo o instrumental necessário. Com mesas de aço inoxidável onde eram colocados os pacientes para o nosso aprendizado. Eram várias mesas para que, ao mesmo tempo, várias equipes pudessem fazer o seu treinamento. Professores e alunos paramentados com longos aventais brancos. A correta maneira de se lavar as mãos sendo explicada com minúcias, bem como as técnicas de assepsia e antissepsia.

E havia também aparelhos de anestesia, talvez muito simples até e para os quais pouca atenção eu dava. Naquela época não era este o meu foco, o meu campo, o meu sonho. Apenas, de longe, observava o professor e alguns monitores colocando tubos nas goelas, realizando as intubações oro-traqueais em nossos indóceis pacientes. Indóceis pacientes que faziam muito barulho. Que tentavam pular para fora das mesas. Que faziam um supremo esforço para não serem submetidos àquela técnica, como se previssem a dor que, inevitavelmente, sentiriam depois.

Nós, os estudantes, éramos os responsáveis em procurar estes candidatos a pacientes de nossa incipiente técnica operatória.

Onde encontrá-los?

Havia apenas um local. Distante. Nos arrabaldes da grande cidade. Chamado de canil. Que era apenas um imundo depósito de animais recolhidos pelas ruas e para lá transportados pelas famosas carrocinhas gradeadas.  Carrocinhas iguais como as encontradas em todas as metrópoles do mundo. Iguais àquela onde vimos encarcerado até o nobre Pluto dos desenhos animados.

No canil os bichos ficavam, digamos, em uma espécie de quarentena. Lá ficavam na esperança de que seus donos os viessem buscar. Se donos tivessem.

Os relegados poderíamos levar. Desde que não fossem muito miúdos ou de grande envergadura, era a recomendação primordial da chefia. O pior é que o escolhido era sempre aquele do qual mais gostávamos… E lá fomos nós, então, com um guapequinha branco com manchas amarronzadas, para a nossa primeira tentativa cirúrgica.

Como eu não conseguia sequer olhar para os cães com o abdome aberto e as alças intestinais dançando ao léu, optamos, minha turma e eu a realizar uma cirurgia cardíaca que levava o pomposo nome de Comissurotomia da Mitral.

Éramos quatro moças cursando o quarto ano médico e morando no mesmo local. Na casa da Estudante Universitária de Curitiba. Que se localizava em uma vetusta e imponente mansão. Com grande pátio nos fundos para onde levávamos os nossos cachorros-pacientes para os cuidados pós operatórios.

Em um anexo, nos fundos, morava um casal que cuidava da administração da casa. E o cidadão implicava com os nossos recém operados caninos-pacientes. Porque, claro, gemiam, uivavam, ganiam, choravam, latiam…

Conseguimos levar o nosso guapequinha, depois de uma semana, à presença do Professor Catedrático, para, diante de um anfiteatro lotado removermos os pontos cirúrgicos e explicarmos, detalhadamente, o procedimento que havia sido realizado e os cuidados pós-operatórios.

A premissa única para se obter boa nota era trazer o cão vivo e bem disposto para esta aula monumental. Lembro-me das agruras de uma equipe quando o cachorro-paciente foi a óbito ainda no decorrer da cirurgia. Os colegas tiveram que sair pelos escuros porões, noite adentro e, às escondidas, enterrá-lo no quintal da pensão onde moravam.

Também não consigo esquecer do triste amanhecer de um dia em que não encontramos o canino-paciente das colegas da outra equipe e que conosco na casa moravam. Deixamo-lo dormindo tão bem no confortável cantinho que para eles havíamos preparado. Ele se encontrava no terceiro dia do pós-operatório. Com as ataduras e esparadrapos envolvendo seu corpinho ainda. Haviam optado por uma cirurgia abdominal.

E o nosso caseiro-administrador de nada sabia… Teve o cinismo e o desplante de afirmar que, talvez, o guapeca tivesse aberto o portão de ferro da entrada de nossa mansão e fugisse para o desconhecido. Fomos até o canil em sua procura. A esperança de que a carrocinha o tivesse recolhido… E nada. Nunca mais vimos o coitadinho.

O que nos restou foi pedir uma vingança aos céus. Que o ilustre senhor caseiro-administrador tivesse homéricos pesadelos ouvindo desordenados e ensurdecedores uivos de cães danados. E que sobre a cabeça dele deixavam escorrer sanguinolentas alças intestinais.

Se os nossos rogos tiveram algum êxito, nunca soubemos. Mas o casal não esperou o fim do ano chegar para ir embora. Disseram que a vetusta mansão era mal assombrada e que os pequenos filhos deles andavam muito assustados…

Com o maior afinco aprofundei meus estudos nos livros de Técnica Operatória a fim de passar por média e não ter a necessidade de fazer a prova prática final. Para não mais precisar levar um cãozinho a uma mesa operatória. Para não mais sofrer com ele as dores subsequentes.

Caninos-pacientes são hoje apenas uma página virada na triste história das cátedras de Técnica Operatória e Cirurgia Experimental.

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