Os escritores estão por aí…

Capa do livro de Adriana Bueno/Reprodução

… a esperança revivida em novos serões literários!

 

 

Emoções deslizam pelos interstícios mais íntimos da alma em ocasiões que em minha vida jamais imaginara experimentar. Emoções que chegaram com as chuvas das últimas primaveras, com os frutos destes recentes verões, com as amarelecidas folhas que eu vejo mais belas a cair ao chão nesses outonos de alguns anos já e com a brancura das neblinas e das geadas dos invernos que há poucos anos também passaram por nós.


 

 

Emoções atingindo a alma que vislumbra encontrar em futuro bem próximo um quintal carregado de produções literárias de muitos jovens ávidos pela literatura. Jovens adolescentes, quase crianças ainda, debruçados sobre obras de inúmeros escritores que pelos nossos caminhos perambulam.

 

 

Era uma manhã de sol quando levei, um tanto acanhada ainda, o primeiro livro que escrevi, “O Meu Lugar” para que fosse apreciado pelas mestras e alunos de algumas escolas de nossa região. Foram gratificantes recepções. Ouvi poemas serem declamados e vi lágrimas sendo derramadas.

 

 

E um dia a escola que fica quase no meu quintal, a escola que fica na esquina de minha rua, a escola que leva o nome de minha mestra “Irmã Maria Felícitas” convida os membros de nossa Academia de Letras do Brasil/Canoinhas para conversar sobre suas obras com os alunos quer lá estudam.

 

 

E lá estivemos nós em um Café Literário… Depois outros mais e mais outros. Tivemos que responder a instigantes perguntas sobre os temas de nossos livros. Vi e ouvi, emocionada, estudantes lendo meus tristes poemas em prosa.

 

 

Esmiuçaram temas de nossos livros. Pedro Penteado contando dos pedaços de sua “Mácula” e seu Zorico, o herói do Contestado. Fernando Tokarski lendo suas histórias escritas no linguajar bem regional nosso. Ederson Mota deixando à mostra, assim bem devagarinho, pedacinhos intercalados de várias histórias de seus “Olhos Flamejantes”. Rosane Godoi lendo poemas do mano Celso Godoi Neto. Maria de Lourdes Brehmer declamando com a arte que ela conhece tão bem, versos de nossos poetas maiores.

 

 

Nossas falas intercaladas com poesias recitadas pelos estudantes. Poesias de sua lavra ou poesias de poetas outros. Cantos, muitos cantos. Música, muita música.

 

 

 

Em um destes Encontros com o Autor, colocaram-me no palco. E fui, a fundo, questionada sobre os mais variados temas inseridos naquele que foi o primeiro de meus livros publicado.

 

 

Como estes meninos e meninas a tudo querem saber. Como se começa a escrever. Quando. O que escrever primeiro. Onde buscar inspiração. A que horas se escreve. A avidez em aprofundar-se nas coisas da caneta e do papel é imensurável. Eles serão os futuros membros de nossa Academia de Letras. Tenho disto firme convicção.

 

 

Neste ano a escola da esquina de minha rua realizou um sarau literário de maior envergadura. Para que os pais dos estudantes pudessem ver de perto a produção de seus rebentos. E assim passamos uma noite especial em plena Câmara de Vereadores conversando uma vez mais sobre nossos mais novos livros. Pedro Penteado sendo dissecado pela história do menino que sonhava voar em “O Pássaro Abatido”, Vagner Trautwein, outro escritor aqui da terra, sobre seu livro “Amor e Morte” e eu tive que me explicar sobre as várias passagens de meu romance “Rum na lama vermelha”.

 

 

Uma certa manhã encontrei-me com os estudantes do Instituto Federal de Santa Catarina, Campus de Canoinhas.

 

 

Era uma manhã de céu carregado. Era uma manhã plena de nuvens escuras. Era uma manhã em que as águas do espaço fluíam com toda a força que a natureza possuía para empurrá-las, aos borbotões, em direção ao solo.

 

 

Era uma manhã em que em um local de sonhos eu entrei. Levada por minha amiga Fátima Santos. Era uma manhã em que em um local encantado eu entrei atendendo a um convite singelo que brotava do fundo do coração daquela gente lá habitava.

 

 

Era uma manhã de muita chuva que poderia bloquear o caminho de muitos. Mas não bloqueou o caminho, como jamais bloqueará, para aqueles especiais seres ávidos pelo conhecimento.

 

 

Estávamos em um pleno dia letivo. Sentia-se no ar o nervosismo, sentia-se no ar a curiosidade, sentia-se no ar a agonia sufocada pelo evento que em momentos seria anunciado.

 

 

Estávamos no aconchego do auditório do Instituto Federal de Santa Catarina. Estávamos no Campus de Canoinhas.

 



 

Eu não tinha ideia do que ali eu iria presenciar.

 

 

Muitos dias antes a professora Marilde Salomon Ruppel solicitara-me um exemplar de meu primeiro livro, do livro onde conto as coisas do meu lugar. “O Meu Lugar”, que ostenta na capa uma belíssima foto da estação ferroviária de Marcílio Dias. Uma foto do lugar onde vim ao mundo. Uma foto de Fátima Santos.

 

 

O evento fora programado para naquela plataforma ser realizado. As intempéries, a chuva, o vento e o frio não permitiram. Mas as imagens da minha estação de trem sucediam-se à minha frente. De todos os ângulos, de todas as formas. Em todas as cores. Fotos de Fátima Santos, naturalmente, entre outras.

 

 

Fotos do restaurante da estação, o restaurante que meus Nonnos Pedro e Thereza Gobbi construíram, nas mais diversas fases de sua desintegração, lá estavam também.

 

 

E as primeiras lágrimas começaram a escorrer.

 

 

As primeiras de uma série sem fim. As primeiras de uma série que continuou a se repetir no decorrer das apresentações.

 

 

Tudo eu poderia ter imaginado. Menos o deslumbramento a que assisti.

 

 

Ver e ouvir um dos meus textos declamado em forma de poema!

 

 

Ver e ouvir a um outro que fora transformado em melodia e a sua letra cantada em suavidade enterneceu-me demais.

 

 

Assistir meninas transformadas nos meus fantasmas dançantes das noites de chuva… declamando o texto inteiro, com gestos dignos das estrelas que dançam… com as luzinhas ao fundo como se fossem as luzes dos olhos dos fantasmas que me olham…

 

 

Ver os estudantes da Escola de Educação Básica “Manoel da Silva Quadros”, de Marcílio Dias, especialmente convidados, trajados com a tradicional vestimenta típica da região renana, apresentar um bailado com músicas germânicas, relembrando os primeiros colonos que à minha vila aportaram.

 

 

E depois conversar com aquelas meninas e aqueles meninos. Responder capciosas perguntas… monossilabicamente… Foi o impossível. Porque jamais uma palavra apenas diria do meu sentimento interior que extravasava em doçura e lágrimas naquela manhã tão linda, de céu carregado e de chuvas torrenciais.

 

 

Para findar as coisas literárias nesta nossa primavera de agora a escola de minha rua convida-nos para mais uma manhã de conversas literárias. E a conversa girou em torno de um maravilhoso livro que conta as coisas do mar, homenageando a escritora Adriana Bueno de Oliveira. Que contou dos mares e maresias, de conchas e caranguejos, de espumas e águas vivas, de ostras e de pérolas.

 

 

O livro de Adriana é uma ode ao que de mais íntimo dentro de nós existe. De um íntimo até desconhecido por nós mesmos. Em “Os Segredos do Mar”, um livro que é uma história em poema, dissecamos nossa alma. Ela vagueia por uma filosofia ímpar e faz-nos crer, pelas metáforas em sua obra inseridas, que mesmo quando estamos despedaçados, somos parte de um todo e somos importantes e que coisas belas sempre existem.

 

 

O livro é recheado de poemas e de imagens coloridas do mar e dos seres que habitam o mar. Imagens tecidas por Adriana.

 

 

E termina o seu livro citando Santa Terezinha: “Toda vez que olhar o mar, ame a Deus por mim.”

 

 

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