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O Último Trem

Trem deixa estação de Marcílio Dias/Acervo de Fátima Santos

Adair Dittrich escreve sobre a última viagem do “trem de Marcílio Dias”                                                             

 

Nascer ao som das locomotivas, que, com o vapor produzido em seu bojo, impulsionavam engrenagens, que impulsionavam rodas, que movimentavam comboios…

 

 

Crescer ao som dos apitos de máquinas a vapor ao lado de minha cama, ao lado de minha mesa…

 

 

Viver, por anos, um quotidiano entre trilhos e vagões…

 

 

… sem nunca pensar que um dia tudo aquilo não existiria mais.

 

 

Ver o trem, viver o trem, sentir o trem e do trem tirar o pão nosso sagrado de todos os dias.

 

 

Negras locomotivas de testadas prateadas, cheias de douradas insígnias e reluzentes números.

 

 

As velhas e por tanto tempo marias-fumaças, que a tantos serviram, substituídas depois por outras, modernas, a diesel movimentadas, as que mais celeremente corriam deixando o rubro rasto de sua cor tingindo as campinas.

 

 

Locomotivas a diesel que mudaram as paisagens à beira das ferrovias. Já não mais se viam as negras caixas d’água e nem as infindáveis pilhas de lenha que sustentavam as velhas máquinas.

 

 

Vermelhos vagões e em amarelo as enormes letras e os imensos números ostentando as marcas de sua identificação. As primeiras grandes letras maiúsculas, que aprendi a ler e a escrever em minha vida, mesmo antes de conhecer as vogais, foram R. V. P. S. C.

 

 

Os longos cargueiros serpenteando pela ferrovia com seus vagões hermeticamente fechados, repletos de preciosas mercadorias.

 

 

Os gradeados vagões de carga abarrotados de frutas, com milhares de imensos verdes cachos de banana, vindos de serrabaixo para abastecer o nosso planalto e os territórios do oeste e da linha sul.

 

 

Comboios de gado que iam deixando seus rastos de esterco ao longo da ferrovia. Por mim passaram caravanas de vagões com as mais belas espécies de equinos. Também muares, com seu olhar desconfiado, fitavam-me através das frestas horizontais.

 

 

A grande maioria era, no entanto, composta pelos bovinos que, certamente, faziam sua última viagem antes de seguir rumo aos abatedouros.

 

 

Os suínos eram dispostos em camadas horizontais, verdadeiras prateleiras, os beliches que os acomodavam.

 

 

Mas havia também, muitas vezes, comboios inteiros só de aves. Que viajavam em enormes engradados, verdadeiramente engaioladas, espremidas umas às outras.

 

 



Cada carga viva era sempre acompanhada pelos tratadores contratados pelos proprietários dos animais. Para que a perda sofrida fosse a mínima possível.

 

 

Era, porém, o trem de passageiros o que mais atraía as multidões para a beira dos trilhos. Era a rotina de todas as manhãs e de todas as tardes. No restaurante da estação ele já era esperado com as iguarias prontas, para que as pessoas pudessem ser servidas com algo quente no decorrer das suas viagens.

 

 

Os ferroviários encarregados de manipular e manobrar os trens de carga, apenas eventualmente, serviam-se das refeições do restaurante. Eram os maquinistas, foguistas e guarda-freios. O último vagão destes cargueiros diferenciava-se dos demais com suas cores vermelha na parte inferior e branca na superior. Tinham vários beliches e ainda um fogão a lenha e os acessórios para lá se cozinhar. Era bonito ver de longe a fumaça que evolava de sua pequena chaminé contrastando com a que resfolegava pelos imensos tubos da locomotiva que puxava o comboio.

 

 

Os trens de carga permaneciam por muitas horas, muitas vezes até por muitos dias, parados na estação de minha vila. Lá ficavam manobrando, sem parar, até descarregar, vagão por vagão, o conteúdo destinado à nossa região. Ou carregando os produtos daqui que se encontravam depositados no armazém ao lado da estação.

 

 

Além destes vagões fechados e gradeados existiam os vagões-plataforma. Eram vagões abertos, escalados para levar a madeira daqui e trazer pedras, cascalho ou sambaqui de outras regiões para cá. Até automóveis novos em folha eram neles transportados.

 

 

Na estação de trem de minha vila havia quatro linhas férreas paralelas. A mais afastada era a que permitia o carregamento da madeira acumulada no pátio da serraria dos Olsen. No decorrer de todo o dia, e em todos os dias, operários da madeireira empilhavam, sem parar, como hábeis formiguinhas, tábuas e mais tábuas.

 

 

Lembro-me de ter visto, quando eu era bem pequena, enormes toras de imbuia serem embarcadas nestes carros-plataforma. Mais tarde, as tábuas apenas serradas, com suas faces rugosas. Com o aprimoramento da indústria da madeira as tábuas tornaram-se lisas, cepilhadas, já. Depois vieram as laminadas, os compensados, os tacos e por último o famoso parquê que assoalhou boa parte das residências e prédios desse mundo.

 

 

Trens especiais circulavam, algumas vezes por ano, em nossa linha férrea. Com uma pequena locomotiva e apenas um vagão. Com reluzentes metais dourados sobre o tradicional vermelho de fundo, a decorar o seu exterior. Era o carro onde viajava a diretoria da rede. Em seu interior móveis clássicos, abajures de cristal, candelabros, tapetes, cortinas de veludo. Nunca vi o interior da parte do dormitório…

 

 

Mas o carro solitário, que quando chegava fazia o maior bulício, era o do trem pagador. O trem que, pontualmente, chegava uma vez por mês, para alegria de todos os ferroviários.

 

 

De repente, acabou-se o trenzinho que fazia a linha para a cidade. Ferrovia que tinha a extensão de apenas quatro quilômetros e duzentos metros e que deveria ter sido estendida, de acordo com o projeto inicial, até Caxias do Sul, razão pela qual foi o trenzinho misto, originalmente, chamado de Caxias… Eventualmente, após findar o transporte de passageiros, por esta via circulava uma locomotiva puxando apenas um pequeno comboio de cargas. Até o dia em que este se acabou também.

 

 

As florestas no entorno já estavam nuas. Nada se reflorestava. As árvores eram apenas serradas, deixando somente podres tocos em seu rasto. Dizia-se que, por onde as serrarias passavam, restavam montes de serragens e de aleijados.

 

 

Preciso seria, então, trazer a matéria-prima, as toras brutas, de locais distantes para aqui serem serradas. O que seria, economicamente, inviável. Sem madeira para ser transportada, sucedeu-se um corte profundo no serviço dos cargueiros ferroviários.

 

 

O povo achava mais elegante sofrer dentro dos ônibus mal cuidados, que circulavam por péssimas rodovias, do que viajar nos trens de ferro. Os ônibus eram mais rápidos.

 

 

Mas, do que eu jamais poderei me esquecer são das lágrimas que vi nos olhos de minha mãe, quando, em uma tarde, dissemos adeus ao último trem de passageiros que por minha vila passou.

 

 

 

 

 

 

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