O QUE É ISTO – O BRASIL? Por que se envergonhar?

É preciso olhar para aquilo que realmente somos

 

 

Wellington Lima Amorim*


 

 

Alberto Dines, na abertura da edição histórica do retorno do Jornal do Brasil (JB) em seu formato impresso, afirmou: Café, jornal, cigarro. Cigarro não mais”. Pensei: — Que pena. Ser politicamente incorreto, mesmo que docemente, sempre foi a marca do JB. Pensar o Brasil a partir da expressão de Coelho Neto, “Cidade Maravilhosa”, cidade-luz, como desejaria o Barão de Mauá, não se pode deixar de se levar por certo bovarismo, como diria Lima Barreto. É preciso olhar para aquilo que realmente somos. Por isso, a insistência do Palácio do Planalto em empossar cidadãos de caráter duvidoso é um exemplo perfeito para compreendermos a terra “brasilis“ em sua essência. O brasileiro nato possui uma moralidade dúbia e ambígua (redundantemente) carnavalesca. Mesmo que o STF deseje o mínimo de moralidade pública, impedindo, que certos cidadãos não assumam diversos Ministérios por ter respondido por ações criminais e por serem acusados de suposta associação a corrupção, tráfico, ou ainda, assédio moral contra servidores, como acontece no interior do país, no famoso voto de cabresto, esta se constitui como sendo a nossa principal característica, a saber.

 

 

Mas eu peço aos amigos que não sofram de bovarismos ou de um puritanismo hipócrita e fora de hora. Antes de gritarem FORA TEMER, lembrem que o PT, aliado de chapa do PMDB, tentou colocar a nossa querida jararaca como ministro, para ser protegido pelo foro privilegiado, e ainda pesa sobre o Partido dos Trabalhadores, crimes que ainda não foram totalmente esclarecidos. Esta ciranda viva, que nos parece mais um trailer de terror, é o exemplo vivo do que é a “civilização” brasileira: um cemitério de vivos, como diria Lima Barreto. O nosso maior símbolo é de uma mulher redundantemente sedutora e perigosa. Para se ter uma ideia, recentemente conversando com o técnico da empresa NET no RJ, perguntei:

 

 

— Onde você mora?

 

 

— Rio das Pedras!

 

 



— E como está a questão da violência nessa área?

 

 

— Uma uva, a milícia não deixa acontecer nada, não há assalto, violência contra moradores, a área está supervalorizada. A milícia nos protege.

 

 

Depois desta breve conversa com nosso amigo suburbano, em outro momento, em uma padaria no início da manhã em Santa Teresa, acabei entrando em um entrevero com um fotógrafo. Na altura da conversa que versava sobre Lima Barreto ele me disse:

 

 

— Quando eu vim morar em Santa Teresa, não precisava pagar o bondinho: era só subir no estribo e quem pagava tirava do bolso apenas 65 centavos. Existia liberdade para ir e vir. Depois do acidente horrível que teve em Santa Teresa, não se tem mais liberdade, nem se pode ficar mais de pé no bondinho. Imagine só!

 

 

Esse breve relato demonstra como naturalizamos o errado em detrimento do certo. Criamos outra versão, uma perversão, do que se pode chamar de “civilização” brasileira. Naturalizamos o assédio moral contra servidores em nome de eleições. Ou ainda: fraudamos o concurso público para que possamos ajudar nossos compatriotas, com a alegação de que isso acontece a rodo nas instituições, que, diga-se de passagem, deveríamos defender. Impedimos o livre exercício da profissão, o livre direito de ir e vir de alguns cidadãos, em nome da greve e manifestação contra os traidores, seus ex-aliados, mas se esquecem de que eles, convenientemente, sempre viveram da mesma prática e cultura marginal. O Brasil é uma mulher inquisidora, sedutora, anti-heroína. Afinal: é preciso ter experiência para navegar em suas curvas.

 

 

 

*Dr. Wellington Lima Amorim é professor

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