O candidato perfeito

Mais uma história com pitadas de drama político                                                               

 

 

“A democracia representa a supervalorização da igualdade e, neste sentido, impede o crescimento de grandes homens que promovem o progresso da cultura e da humanidade”. Friedrich Nietzche

 


Padilha era o típico morador da cidade, nasceu e sempre viveu ali, apesar de ter viajado para outras cidades e até mesmo para o Nordeste do país. Formou-se aos 30 anos na faculdade de Direito da cidade e como nunca conseguiu passar no exame da OAB preferiu seguir a carreira política, uma vez que tinha boa conversa e que sua família era tradicional da cidade.

 

 

Pouco se importava com o que os outros pensavam, preferia usar da arrogância, era impaciente e costumava não retribuir com gratidão às pessoas que outrora lhe haviam ajudado ou prestado serviço. Era o típico político regional, cometia constantemente erros de português, odiava o silêncio enquanto conversava e vivia a vida com pressa. Não tinha muito primor na vestimenta, mas isso não importava, pois ele já havia sido candidato a vereador por duas vezes e sido eleito em ambas.

 

 

Já Randolfo era diferente, era comedido, controlado, ponderado e sempre que discursava media as palavras, a fim de não ferir ninguém e de não se comprometer nem com promessas desmedidas, nem legalmente.

 

 

Randolfo também nascera na cidade, porém teve a possibilidade de estudar fora, se formara, exercia a profissão de advogado e era respeitado como tal. Não tinha nascido em uma família tão tradicional da cidade, como Padilha, mas tinha o respeito da população.

 

 

Enfim eram candidatos antagônicos e pouco tinham em comum a não ser a vida pública, pois Randolfo também era vereador, porém este era seu primeiro mandato.

 

 

Ambos se candidataram para o cargo de prefeito da cidade e as pesquisas mostravam que Padilha liderava em 10% as intenções de voto, principalmente porque Randolfo era popular entre os mais letrados, os habitantes do centro e já Padilha era o favorito dos bairros mais afastados, da zona rural e da população com menor escolaridade, porém todos esperavam o debate que deveria acontecer em dois dias. O índice de indecisos era de 18%, e se caracterizava principalmente por eleitores menos letrados, porém 70% morava no centro da cidade.

 

 



No debate Padilha acusou Randolfo de elitista, capitalista e cometeu uma gafe ao criticar a atual administração que tinha alta aprovação popular. Prometeu muito pouco, falou muito pouco de seu plano de governo, de suas soluções para os problemas da cidade, porém direcionou seu tempo principalmente para criticar o candidato opositor. Já Randolfo, procurou se defender, falou de suas intenções quando assumisse a prefeitura e lembrou Padilha de que não deveriam se degladiar tanto, uma vez que eram colegas de Câmara dos Vereadores e deveriam se encontrar ainda muitas vezes.

 

 

“Como o nobre candidato deseja que eu lhe respeite se em sua juventude deixou a cidade para estudar fora e por isso, acabou vivendo ao menos 10 anos fora. Ou seja, são 10 anos a menos de convivência com nosso povo, com nossos problemas, com nossas dificuldades. Então não dê mais bostaços[1] candidato e desista dessa candidatura”, replicou Padilha.

 

 

“Vereador Padilha, se eu deixei a cidade foi para poder tornar-me uma pessoa melhor, para estudar o que os livros diziam, para buscar realidades diferentes e melhores e poder trazer para a nossa querida cidade. Vereador Padilha, naquele momento eu era somente uma criança, hoje sou apenas um homem e estou ciente de que a cidade precisa de um administrador preparado como eu.”

 

 

No dia seguinte só se falava no debate e a população praticamente era unânime em afirmar que Randolfo foi melhor, que era mais elegante, mais educado e que estava mais preparado para exercer o cargo.

 

 

O dia da eleição chegou, ambos os candidatos compareceram à urna, e Padilha venceu.

 

 

Meu nome é Alvaro Concha, tenho 4 filhos, moro em Porto União, no estado de Santa Catarina, no sul do Brasil.

 

 

 

[1]Bostaço – termo utilizado no sul do país que se refere a “cometer gafe”.

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