Dr Antonio Seleme e as memórias da medicina praticada em Canoinhas

Antonio Merhy Seleme, 82 anos, relembra momentos marcantes de sua profissão

 

 

Poucas pessoas não conhecem o famoso dr. Antonio Merhy Seleme. Aos 82 anos, o médico ginecologista obstetra especializado em medicina do trabalho e de tráfego, comemora 55 anos dedicados à medicina. Foram longos anos que o fizeram tratar de boa parte da população da cidade.


 

ORIGEM

A origem dos Seleme está no Líbano. Merhy Seleme, pai de Antonio, veio para Canoinhas a convite de seu tio, o lendário Emiliano Seleme. “A pobreza tomava conta do Líbano, já o Brasil estava em fase de desenvolvimento”, justifica Antonio. Dessa forma, Merhy e sua esposa aceitaram o convite do tio. Ao chegar em Canoinhas, no início do século 20, Merhy começou a trabalhar com Emiliano, um dos pioneiros canoinhenses a instalar aqui um dos primeiros comércios de exportação de erva-mate, além de ter instalado também em Canoinhas uma das filiais do Banco Francês/Italiano. Era função de Merhy cruzar o interior de (Santa Cruz de) Canoinhas comprando erva-mate dos colonos. Mais tarde, em sociedade com uma tia, Merhy abriu uma ‘bodega’ em Três Barras. A estratégia era aproveitar o grande movimento proporcionado pela South Lumber, a maior serraria já instalada em Canoinhas, que vinha revolucionando a região. “A Lumber, em matéria de colonização e desenvolvimento foi excepcional, mas trouxe junto a devastação”, opina.

 

 

Antonio lembra como grandes avanços sociais e culturais que a Lumber nos trouxe, o Cine Lumber, um dos primeiros cinemas da América Latina, o Hospital, avançadíssimo se comparado a hospitais de capitais. Como símbolo da opulência da Lumber, Antonio lembra que a madeireira tinha uma central elétrica própria, exclusiva.

 

 

“Quando a Lumber decaiu, o comércio local decaiu junto”, recorda.

 

 

No encalço da decadência, estava a ‘bodega’ de seu pai. Encampada pelo Governo Federal, a Lumber agonizou por dois anos. “Nesses dois anos, os funcionários trabalhavam com salários atrasados e isso refletia no comércio. Para meu pai ficava uma situação difícil. Como não vender fiado para pessoas que compraram por anos na bodega dele, pagando sempre em dia?”, conta Antonio.

 

 

Para salvar os negócios, Antonio lembra que quando estava em férias na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde cursava Medicina, ele e o irmão, Pedro, que anos depois seria prefeito por duas vezes de Três Barras, percorriam os municípios da região – General Osório, Antonio Olinto, Bugre, Divisa, São Mateus do Sul e região – vendendo os produtos da ‘bodega’ a fim de ressarcir os prejuízos em Três Barras.

 

 

Um ano antes de Antonio se formar médico, seu pai faleceu, deixando a ‘bodega’ aos cuidados de seu irmão, Pedro.

 

 

MEDICINA

 

Antonio se formou em 1962. Trabalhou um tempo em Palotina (PR) e retornou para Canoinhas a fim de trabalhar como médico do trabalho na Rigesa que já tinha seu setor florestal instalado em Três Barras. Antonio lembra que, ao contrário da Lumber, a Rigesa veio para Três Barras de forma racional e planejada, pensando em reflorestar e não apenas em explorar como foi o caso da Lumber.

 

 

Em 1963, Antonio se casou com Doraci, com quem teria três filhos – um deles o ex-vereador Juliano Seleme.

 

 

Em 1964, Antonio montou seu consultório em Canoinhas e começou a trabalhar no Centro de Saúde. Nessa época, lembra, o chefe do Centro de Saúde, mantido pela Secretaria do Estado, era Segundo Osvaldo de Oliveira, filho do primeiro médico que por aqui aportou – Osvaldo de Oliveira.



 

 

Sobre Segundo, Antonio guarda grande admiração, assim como pelo dr. Haroldo Ferreira, que também chefiou o Centro de Saúde e chegou a prefeito de Canoinhas. “Eram pessoas muito boas. Eu, no início de carreira, recebi grande ajuda dos dois”, relembra.

 

 

HISTÓRIAS DE MÉDICO

Perguntado sobre que fatos de sua carreira mais lhe chamaram atenção, depois de um rápido silêncio, Antonio recorda de uma noite em que foi chamado no Hospital Santa Cruz para atender um senhor que havia sido baleado na barriga. Para salvá-lo, Antonio teve que deixá-lo por dois meses usando bolsa de colostomia (desvio do intestino por meio de canos externos, enquanto cicatriza a cirurgia) até que ele estivesse apto a ser operado para reconstituir o intestino, rompido pela força da bala.

 

 

Depois da cirurgia, que foi um sucesso, certo dia, o paciente disse a Antonio: “Doutor, hoje o homem que tentou me matar veio me visitar”.

 

 

A intrigante declaração ficou ainda mais sinistra quando uma semana depois de ter dado alta ao paciente, Antonio soube que o homem havia sido assassinado por seu algoz sumariamente.

 

 

Outro caso que muito orgulha Antonio foi o de um menino que ele conheceu com “as tripas para fora”, em uma determinada noite quando seu pai o trouxe agonizante. Uma cirurgia de emergência resolveu o problema e o menino, hoje um homem, está mais vivo do que nunca.

 

 

Antonio recorda que antigamente era difícil o trabalho do médico. “Havia poucos recursos. Não havia laboratórios em Canoinhas, tínhamos somente um aparelho de raio-x e precisávamos de três dias para revelar uma chapa”. Perguntado sobre a alta incidência de câncer, um dos principais problemas de saúde da região, Antonio acredita que sempre houve um número alto de pessoas que sofrem de câncer, embora hoje o número de pacientes com câncer pareça ter acelerado. “O que acontecia no passado era que muita gente ia ao médico quando estava muito mal e pouca coisa poderia ser feita. A falta de equipamentos adequados também dificultava o diagnóstico e com isso muita gente morria sem que conseguíssemos detectar a causa”, recorda.

 

 

Antonio acredita que o crescimento da cidade acarretou no aumento de pessoas doentes. Como era comum pessoas baterem nas portas dos médicos da cidade em busca de ajuda de madrugada, Antonio conta que ele e os demais médicos da cidade decidiram instituir o Plantão no Hospital Santa Cruz. “Dessa forma, cada noite um médico ficava de plantão no HSC, sem ganhar nada. Assim, os outros médicos podiam descansar”, conta.

 

 

APOSENTADORIA

Há 15 anos, Antonio decidiu por uma aposentadoria pela metade. Deixou de consultar pelo SUS e trabalha apenas em seu consultório particular.

 

 

Pouco antes de encerrarmos a conversa, Antonio pratica uma das atividades mais gostosas da aposentadoria – relembrar a infância. “Tive uma infância muito gostosa, nossa diversão era tomar banho no rio Negro, depois ir ver o trem passar, então íamos aos Correios ver se havia vindo alguma carta para a família. Aos domingos a diversão estava nas matinês do Cine Lumber. Na adolescência, podíamos desfrutar das domingueiras na SBO e no Clube Tresbarrense, tudo com muito respeito”, relembra saudoso.

 

 

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