Medo do escuro dos porões da ditadura

Mão de carvoeiro de Santa Catarina/Arquivo

Adair Dittrich escreve sobre o perigo que ronda a democracia brasileira

 

 

 


“Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito…
Onde estás, Senhor Deus?…”

 

 

Esta é primeira estrofe de uma ode de amor. A primeira estrofe de um hino de amor. Versos que estão entalados em nossa garganta. Que precisam ser lançados ao espaço para que as nossas vozes sejam ouvidas.

 

 

Com estes versos Casto Alves alçava aos céus o seu grito de liberdade.

 

 

O ano era o de 1868.

 

 

Um século, exatamente um século a anteceder o “ano que não teve fim”, o ano de 1968. O ano em que os jovens do mundo, junto com as mulheres do mundo, alçaram aos céus um grito de liberdade.

 

 

Lutavam com suas vozes pelas ruas em passeatas para que a guerra no Vietnã tivesse um fim.

 

 

Lutavam com suas com suas vozes pelas ruas em passeatas para que as ditaduras no mundo e, em especial, as da América Latina, tivessem um fim. Manifestações que a imprensa no Brasil foi proibida de reportar.

 

 

O grito dos jovens na Primavera de Praga que a imprensa no Brasil teve permissão para divulgar.

 

 

 

O grito dos jovens no Brasil não podia ser ouvido pelos jovens do mundo.

 

 

Castro Alves declamava seus poemas em defesa dos escravos oprimidos nos escuros escaninhos, como se pútridos porões tivessem sido.

 

 

Meu irmão Aldo não declamava poemas. Mas desde o tempo em que era estudante de Direito as armas que usava em defesa dos oprimidos de nosso tempo era a sua voz e a sua pena.

 

 

E atrás de seus ideais em defesa dos que trabalhavam nos subsolos da vida ele foi. Alistou-se no exército dos que defendiam a lei. E esta arma ele usava com maestria.

 

 

Especializou-se no terreno das leis trabalhistas. Que desde há muito já deveriam estar sendo cumpridas.

 

 

Foi para o sul de nosso estado. Um território que esnobava a riqueza de uns poucos. Uma riqueza que vinha do fundo da terra. Que vinha das escuras minas de carvão. Uma riqueza que ceifava a saúde, que ceifava a vida.

 

 

Lá ele não encontrou velhos nas praças brincando com seus netos nos dias de sol da primavera. Lá ele não encontrou pessoas pelas ruas nas tardes de sábado. Porque o mundo da superfície era um mundo onde poucos perambulavam.

 

 

 

Lá ele encontrou pessoas ainda jovens com a saúde já em meio do caminho. Lá encontrou adultos jovens já velhos.

 

 



Era o ganha-pão das famílias o trabalhar nos escuros corredores, nas escuras galerias que, como labirintos eram cavadas no subsolo de uma terra que apenas enriquecia a vida de uns poucos. À massa que dava o seu suor e a sua vida para este enriquecimento sobravam tostões para um teto e para um pão.

 

 

Lá ele viu pessoas que nunca viam a luz do sol. Que desciam para o interior das minas muito antes que o dia clareasse. E de lá só voltavam quando a escuridão da noite cobria os campos e as cidades.

 

 

Muitos, em seus domingos de folga preferiam ficar em casa em quartos escuros… A dor que a claridade causava em seus olhos era insuportável. Depois de uma semana inteira sem ver a luz sua visão adaptara-se à escuridão.

 

 

Não se viam velhos nas praças brincando com seus netos, contava-me o meu irmão Aldo. Porque trabalhador de mina de carvão não vivia o suficiente para ver um neto crescer.

 

 

A pneumoconiose devora todo o tecido pulmonar. A microscópica poeira negra do carvão infiltrando-se traqueia e brônquios abaixo envolve os bronquíolos terminais e abraça os alvéolos. A ventilação pulmonar fica prejudicada. O oxigênio já não chega ao seu destino. As hemácias que tanto dele precisam para a sua sobrevivência e a sobrevivência de todas as células de nosso organismo retornam sem sua preciosa carga ao ponto de partida.

 

 

E então é a vez do coração receber o choque desta sobrecarga. Continuando este concerto nada sinfônico sem fim, este moto perpétuo, acorrentam-se as causas desastrosas, sucumbe o organismo.

 

 

Foi presenciando tudo isto que Aldo, como advogado do Sindicato dos Mineiros da região carbonífera de nosso estado, primeiramente tentou convencer os responsáveis para que as leis fossem cumpridas. Que uma pessoa não poderia trabalhar nas galerias das minas por mais de 6 horas por dia. Que a intervalos regulares os trabalhadores subissem à superfície a fim de ver a claridade do dia, a fim de respirar ar puro. Que fossem pagos adicionais de insalubridade. Enfim, que as leis que regem o trabalho fossem obedecidas.

 

 

Como nada conseguiu nas conversações, partiram para as chamadas greves. Que foram muitas. Que envolveram a totalidade dos operários das minas de carvão. A muito custo, muita coisa, com muita luta, foi conseguida.

 

 

Mas eis que, em 1964, um regime totalitário é instalado no país. E Aldo teve que procurar abrigo em lugares distantes. Porque ele tinha mexido no bolso dos ricos que mandavam nas terras do carvão. Porque ele tinha ousado pôr mais que um pedaço de pão na mesa do mineiro que era o artífice da riqueza da região.

 

 

Suas armas sempre foram a sua voz e a sua pena. E num triste dia, do qual eu não gosto de me lembrar, ele foi conduzido à prisão e torturado como se fora um pestilento cão raivoso.

 

 

Com ele muitos outros companheiros da luta por uma vida melhor saíram dos escuros porões das galerias de carvão para os negros porões da ditadura.

 

 

O crime de Aldo Pedro Dittrich foi apenas exigir que a lei fosse cumprida. Que fosse dado a cada indivíduo o direito de trabalhar e viver em paz. E sobreviver para, num futuro, poder, nas praças da vida, brincar com seus netos.

 

 

E hoje eu conto este pedaço desta história. Para que muitos saibam o porquê do medo que eu sinto de que tudo de novo volte a acontecer.

 

 

Tenho medo do escuro dos porões…

 

Castro Alves finaliza a sua ode de amor aos Homens assim:

 

“Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!…
Há dois mil anos… eu soluço um grito…
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!!…”

 

 

O poema “Vozes da África foi publicado em São Paulo em 11 de junho de 1868.

 

 

 

 

 

 

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