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Mãe… a minha mãe

Petronilla Rosina Castanha Dittrich, mãe de Adair/Arquivo pessoal

Adair Dittrich escreve sobre sua relação com sua mãe                                                                                   

 

Ela sonhara para mim uma vida de princesa. Para concretizar este sonho ela galgou íngremes caminhos por penhascos sem fim, atravessou pântanos pestilentos, cavalgou no lombo de indomáveis corcéis pelo fogaréu dos desertos e rasgou suas vestes e sua carne nos espinheiros de indevassáveis florestas.

 

Para ver-me sorrir sob um céu estrelado, tudo ela fez.

 

Ela, a dona Nena do Restaurante da estação de trem de Marcílio Dias. Ela, a minha mãe. Minha e de mais cinco personagens que a vida a meu lado passaram durante muitos e muitos anos. Éramos seis. E tudo o que para mim ela sonhou, sonhou para cada um de nós. Trabalhou, incansavelmente, em todas as horas de todos os seus dias para nos ver realizados e felizes.

 

Mas, eu quero falar dos meus tempos com ela. Desde os mais remotos até onde a minha memória alcança.

 

Eu a vejo debruçada sobre o meu leito de criança, cobrindo-me com um fofo manto de penas. Para que eu não sentisse frio.

 
Eu a vejo debruçada sobre o meu leito de criança, sussurrando palavras carinhosas para que tranquila eu penetrasse no mundo dos sonhos.

 

Eu a vejo ajoelhada ao lado do meu leito de criança, para rezar comigo a primeira prece que ela me ensinou, a prece para o meu anjinho da guarda, para o meu amiguinho, pedindo a ele para sempre me levar pelo bom caminho.

 

Ela nos ensinou a não temermos as tempestades e nem os raios e nem os trovões. Porque são acontecimentos da natureza. Ao lembrar de suas palavras ainda sinto no ar o aroma das ervas que ela queimava para que as intempéries não nos atingissem. Ervas abençoadas na capela de minha vila em cada Domingo de Ramos.

 

Sei que dei a ela muito trabalho, não apenas na mais tenra infância, mas no decorrer de toda uma vida. Quando criança, pelas contínuas artes. Mais tarde, a eterna preocupação para que nada de mal me acontecesse.

 
Apanhar dela eu nem posso dizer que apanhei. Apenas uma vez acertou minhas pernas com uma longa e fina vara de marmelo. Como boa e legítima filha de italianos ela era muito enérgica. Ninguém passava incólume e nada passava em branco às suas admoestações. Cansei de ir dormir com o rabo entre as pernas, imaginando nem acordar no dia seguinte na expectativa de que o sermão continuasse. Mas, não. No dia seguinte tudo apaziguado e esquecido. Coisas de mãe. De mãe zelosa. E todos os sermões sempre foram merecidos.

 

Minha mãe era feita de ternura. Sua maneira de nos agradar não tinha limites. Desde os meus três anos de idade eu já frequentava a escola de minha vila. Ia sempre junto com a professora que morava lá em casa. As aulas eram sempre no período matutino. Não havia jardim de infância. Apenas eu ia junto. E mamãe só me deixava sair da cama depois que o café quentinho estivesse em minha caneca esmaltada cheia de florzinhas coloridas. Agasalhava-me da cabeça aos pés. Para que o frio não fosse morar dentro de mim.

 

Ao final das aulas íamos diretamente para o restaurante da estação para almoçarmos. E sempre aquele prato saboroso. Não, ela não fazia uma comida especial só para nós. A comida que ela fazia sempre era especial. E desde a mais remota infância ela sempre nos acostumou a gostar de todos os vegetais. Como eu senti falta do aroma e do sabor dos pratos que ela preparava quando de casa eu tive que sair para continuar meus estudos.

 

No tempo de aluna interna do Colégio Sagrado Coração de Jesus, de Canoinhas, minha roupa, semanalmente, era mandada para casa para ser lavada, engomada e passada. Roupa que era colocada dentro de uma pequena maleta de grosso couro que o seu Pires e depois o seu Walfrido Gonçalves, estafetas do correio, encarregavam-se de trazer e levar. Mas, na volta da malinha para o colégio, além da roupa minha mãe colocava sempre um pacote com as coisas gostosas que ela fazia no restaurante.

 

Havia ocasiões em que o frio naqueles invernos chuvosos era muito intenso. Ficávamos em casa, na cozinha, ao redor de nosso fogão de lenha. E a preocupação dela era tanta para que não nos molhássemos naquela garoa gelada e intermitente que não permitia que descêssemos até ao restaurante, para almoçarmos. Mandava então alguém levar duas enormes cestas com um inefável banquete. E lá encontrávamos tudo para o nosso deleite. Desde a suculenta sopa até a sobremesa. Passando pelos pratos quentes e saladas. Acrescidos ainda de uma gasosa e de uma malzbier.

 

Enquanto isto ela passava um domingo de chuva e de frio, quase todo, quase a sós, no restaurante, dando de si o melhor para o conforto dos seus.

 

A lembrança de tanta ternura derramada naqueles dias de gélidas e finas chuvas faz com lágrimas de emoção escorram de meus turvos olhos.

 

Era um tempo em que não havia em nosso meio peças de vestuário prontas para se comprar. E tudo ela confeccionava. Toda a nossa roupa de vestir. Das meninas, cheias de rococós, babados e rendas. De meu pai e dos meninos, até as camisas. Lembro-me de uma gravata de crochê que ela confeccionou, com finos fios de seda de maravilhosas tonalidades.

 

Toda a roupa de cama, de mesa e até de banho. Peças estas sempre brancas, impecáveis, muitas feitas dos panos dos sacos de farinha de trigo. Com uma indefectível marca em todas as barras. A marca que ela impregnava com sua máquina de ponto ajour. Linhas de ponto ajour entrelaçando-se pelas bordas, formando variados desenhos, enfeitando toalhas, enfeitando lençóis.

 

Tudo ela fazia. Tinha criação de galinhas e porcos. E eu a vejo ainda a transformar aqueles músculos suínos em belos assados de lombo e pernil. E ainda a vejo preparando salames, presuntos, toicinhos e cudiguins para serem defumados. Claro que sempre havia quem a ajudasse. Mas quem regia esta orquestra toda era ela.

 

Fazia uma variedade imensa de vidros de compotas e geleias e caixetas de marmelada, goiabada, doces de pera, pêssego, uva e maçã, não só da produção das árvores frutíferas de nosso quintal, como também as adquiridas de fornecedores de nosso entorno. Esses doces eram uma variação nas sobremesas do restaurante em quase todas as estações do ano.

 

O prazer imenso dela era ficar ao ar livre, cuidando das hortaliças e dos legumes. Plantava de tudo. Tinha uma grande sementeira e lá ficava ela a admirar o desabrochar e o desenvolvimento das mudinhas. Havia até um enorme canteiro de aspargos. O amor por sua horta era intenso. Julgava que lá era o seu reino encantado onde as soluções para tudo eram encontradas. Afirmava sempre que enquanto nós estamos dormindo, as plantas crescem.

 

Quando tinha já mais de noventa anos, sofreu uma queda, fraturando o colo do fêmur. Foi longa e com muitas complicações a sua recuperação. Já em casa, acomodada em sua poltrona afirmava, categoricamente, que se pudesse ir para o quintal, que se pusesse as mãos na terra ela logo ficaria boa.

 

Dava a impressão de nunca se cansar. Pois, apesar de todos estes seus afazeres, ela jamais deixou de atender o último pedido de minha Nonna Thereza Gobbi, o último pedido da mãe dela, o pedido de sempre ajudar o Hospital Santa Cruz de Canoinhas.

 

E, fazendo pastéis e coxinhas de galinha, presente ela esteve ajudando também nas festas e quermesses do Colégio Santa Cruz, da igreja de minha vila, da Matriz Cristo Rei e da de Três Barras também.

 

Além dos passageiros e ferroviários que em seu restaurante almoçavam e jantavam em todos os dias do ano, ela tinha ainda uma freguesia toda particular que se arrastava, humildemente, pelos vãos das paredes em busca de um prato de comida. Eram vários os pedintes a quem o pão de cada dia ela jamais negou.

 

Era uma pessoa feita de ferro e granito. Mas, contar da ternura imensa e do carinho de que era feito o coração de minha mãe é pouco, muito pouco por tudo aquilo que ela fez.

 

Ao envolvê-la, neste esboço de homenagem, a todas as mães eu envolvo.

 

Porque mães transformam-se em feras para a seus filhos defender.

 

Porque mães retiram forças e energias de todas as galáxias para que em seus ombros possam seus filhos carregar.

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