Fantasmas dançantes das noites de neve…

Adair Dittrich divaga sobre os fantasmas do passado e do presente                                      

 

A lua brilha intensamente sobre a planura nevada e branca que se estende, ao longe, em meio às montanhas andinas. Gotas douradas pingam da monumental árvore estrelada que pelo céu todo se debruça. E em meio à gélida solidão da madrugada, os meus fantasmas, no espaço, começam a delinear-se. Porque sempre é madrugada quando eles se insinuam em meio aos meus pensares, multiplicando-se pelas paisagens que me envolvem.

 

 


Num repente, tudo em torno se torna opaco. Porque o vento, que há pouco sibilava, apenas fraco e tonto, torna-se mais intenso, voluptuoso e arrogante. Os verdes pinheiros que se salientavam na brancura nevada, com suas cúpulas apontando para o alto, dobram-se pela fúria das vergastadas e lentamente, vão sumindo atrás da névoa que os atordoa.

 

 

E então os meus fantasmas dançam pela noite que fora de luar. São fantasmas brancos, muito brancos. São minúsculos os fantasmas que hoje chegam para turbilhonar meus pensamentos. Em flocos insinuam-se os meus fantasmas. E eles dançam, enrodilhando-me entre suas diáfanas vestes luminosas. Voluptuosamente, ao som de sinfonias que brotam das cordas dos violinos que o vento tem para sonar.

 

 

Aglomeram-se na noite os pequenos fantasmas, formando um todo e imenso fantasma que gira, que gira, que tange, que tange e que não cessa jamais.

 

 

E continuam sua dança ritual envolvendo-me entre eles, tentando levar-me pelos céus, pelas montanhas, pelo universo além.

 

 

Quedo-me, inquieta, atrás destas imagens tão nítidas que carregam em seu bojo imagens cristalizadas na memória.

 

 

E os fantasmas, envoltos em minúsculos flocos de neve, acumulam-se nos pequenos arbustos, nas tenras arvorezinhas que se debruçam a meus pés, no avarandado imenso da grande montanha.

 

 

E quando a névoa se dissipa eu torno a vê-los entre as árvores que circundam o meu vale. E eles brilham refletindo luzes que então começam a aparecer.

 

 

Fantasmas dançam em meio aos flocos de neve que caem, fantasmas dançam entre as sombras, fantasmas dançam no balanço das árvores que dançam em meio às luzes que em meio delas dançando se infiltram.

 

 

Os meus fantasmas têm cores, os meus fantasmas têm sons, histórias os meus fantasmas têm. Meus fantasmas lembram cirandas de um tempo de sonhos.



 

 

Será que os meus fantasmas sonham os meus sonhos? Será que os meus fantasmas cantam os meus cânticos? Será que os meus fantasmas sabem de mim?

 

 

Não, eles não sonham os meus sonhos, eles não cantam os meus cânticos, eles nada sabem de mim. Porque a vergasta do tempo encarregou-se de apagar todos os sonhos, de calar todos os cânticos e de anular todas as memórias.

 

 

Mas os meus fantasmas, em meio aos flocos de neve, riem-se dos meus pensares.  Porque não se sufocam memórias que navegam em meio à inconsciência de um leve despertar, por mais nebulosas que sejam.

 

 

Os meus fantasmas brilham entre os flocos desta neve que não cessa de cair, pinçando imagens egressas de um reluzente mundo que se fez distante apenas no nevoeiro dos tempos. Mesmo tendo ante os meus olhos uma cortina de lágrimas eu vejo este mundo que foi reluzente, ouço os seus sons, sinto o seu aroma e perco-me nesta saudade que não cessa de ser saudade.

 

 

E os fantasmas que riam em sua dança em meio aos flocos de neve, estáticos, de repente, ficam a olhar-me. Já não riem. Sorriem, tristemente, olhando-me por entre as tênues plumas brancas que caem. Sentiriam os meus fantasmas a mesma saudade que eu sinto?

 

 

Porque poemas os meus fantasmas querem criar para ver-me sorrir menos tristemente. Poemas com palavras doces. Poemas com palavras simples. Mas, poemas. Que era tudo o que eu ainda queria ver. Que era tudo o que eu ainda queria ler. Não aqueles já lidos e relidos em folhas de papel de seda amarelecidas e amassadas por meu constante manusear… Poemas já com seus escritos quase apagados pela avalanche de água salgada que de meus olhos escorreu nesses anos todos.

 

 

Então os fantasmas continuam lá fora, em meio à neve que cai, olhando-me com seus olhos tristes.

 

 

Seriam estes fantasmas os olhos do amor que brilham na gélida noite, entre os flocos, entre os galhos das árvores que já nem mais balançam, entre os galhos das árvores que vergam sob o peso da neve que cai?

 

 

E por que esta lágrima de saudade, sempre quente e úmida não congela no relento da noite dos gelos da alma?

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