“Eu sou o pinhão…”

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“Eu sou o pinhão que a gralha enterrou e esqueceu de ir buscar”                                                        

 

Uma frase. Um poema. Tenho esta frase na memória. Sei que alguém em algum dia a rabiscou pelaí. Sei que a li em algum caderno de poemas esquecidos. Algum poeta ou alguma poetisa, amante de nossas araucárias, um dia o escreveu. Sinto nela a alma de Isis Maria Baukat. Ou seria uma das frases de outrem que ela amava citar… e em seus velhos cadernos anotou?

 

 


Mas é a que seria exclamada por um dos solitários pinheiros, que hoje vemos, perdidos pelos caminhos. Porque são poucos os que conseguimos vislumbrar, ainda, nos  horizontes longínquos.

 

 

E quantos pinhões foram enterrados por milhões de gralhas, azuis e picaças, e por elas esquecidos pelas nossas planuras em todos estes séculos que se passaram pelos tempos do mundo. E quantas imensas araucárias formaram extensas florestas carregadas de sons, carregadas de vida, carregadas de amor…

 

 

Quantas altaneiras árvores, com suas majestosas copas, de braços abertos aos céus, assim nasceram?

 

Nosso território encantado era um maciço só de solenes araucárias. Que em todos os outonos ficavam recheadas de verdes esferas. Recheadas de pinhas. Que explodiam ao brilhante sol do meio-dia, atirando para longe, muito longe, num raio de cinquenta metros, ou mais, uma rajada de pinhões.

 

 

E a grama, que era verde, coberta ficava por uma camada de pequenas cunhas, de uma coloração sui generis, entre o marrom e o rubi. Que consagrou uma nova tonalidade aos produtos que hoje embelezam lojas, que embelezam vitrines, que embelezam nossas roupas, que embelezam acessórios, que embelezam a vida. A tonalidade cor de pinhão. Porque, diferente ela é, das demais cores conhecidas.

 

 

Mas, a madeira das araucárias era algo de grande valia. Então elas foram sendo arrancadas, serradas, cortadas e transformadas, primeiramente, em tábuas e depois em móveis espalhados pelo mundo.

 

 

Não se pensava que, em algum dia, tudo isto poderia ter fim. Não havia uma lei que obrigasse a se plantar três árvores no lugar de uma que fosse abatida.

 

 

E a mata foi ficando vazia. Vazia de pinheiros, vazia do nosso pinheiro, vazia da nossa araucária. Da espécie de pinheiros que produz pinhão.

 

 

E a mata foi ficando vazia do pinhão que alimenta os nossos roedores, tão ou mais necessários à perpetuação da floresta do que as próprias gralhas. Sim, pois são os serelepes os que mais dele se nutrem. São os serelepes, mais que as próprias gralhas, os que mais os escondem sob o solo, na intenção de uma busca futura. Quando não mais sobrarem pinhões na mata, a fim de garantir a sobrevivência destes animaizinhos, eles, inevitavelmente, invadirão lavouras e até entrarão nas regiões urbanas, em busca de alimento.

 

 

E a mata foi ficando vazia do pinhão que alimentou gerações e gerações dos primeiros habitantes de nossa região.

 

 

Do pinhão que alimentou os nossos Kaingangs. Pensar que os nossos nômades índios, que passavam o tempo de verão junto ao mar, subiam as encostas da montanha para atingir as regiões planaltinas, nas épocas frias, porque nelas encontrariam seu principal alimento. Porque nelas, caía o maná que dos céus Tupã lhes mandava. Porque do alto das araucárias caíam aqueles pedacinhos de massa branca, compacta, recobertos por uma casca de cor marrom-avermelhada, facilmente removível, até com os dentes.

 

 

Sapecavam-nos nas grimpas de pinheiro, incandescentes, ou cozinhavam-nos em água dentro de suas panelas de barro.

 



 

As pinhas jamais deveriam ser derrubadas. Porque o ponto de pujança do pinhão, o ponto em que seu sabor está no auge, é o momento exato da explosão natural da pinha.

 

 

Pelo fato de pinhas, ainda longe de seu clímax, longe de seu momento de explodir serem retiradas de seu habitat, encontramos hoje, pelas esquinas da vida, pinhões magros, sem viço, baços, vendidos em meio ao conjunto de falhas que as acompanham.

 

 

Com a preocupação de que as araucárias não fossem exterminadas, estabeleceram-se muitas regras. Tarde demais? O tempo dirá. Mas, o fato de se cobrar um alto preço para ser permitida a derrubada de uma delas não faz com que possamos ver, novamente, um novo maciço verde e altaneiro ante os nossos olhos. Porque, prevenindo-se contra multas futuras, arrasam-se agora os novos rebentos, que mal adquirem alguns poucos centímetros de altura, logo que surgem pelos terrenos de lavoura.

 

 

No tempo em que as jovens araucárias eram as nossas árvores de Natal, viam-se, por toda parte, fileiras de pinheirinhos, servindo até de cerca para as propriedades, não só rurais, como urbanas também. Dentre elas, escolhia-se aquela que melhor serviria para adornar nossas salas na maior festa do ano.

 

 

Não foram, tenho certeza, os pinheirinhos cortados, que enfeitaram nossas vidas nos dezembros passados, os responsáveis pela quase extinção da espécie entre nós.

 

 

Porque, para cada árvore cortada para este fim, muitas outras foram plantadas.

 

 

Sei que para se viver, necessário é um teto. E de muitas araucárias nossos tetos foram feitos. Mas, se todos os serradores do passado tivessem tido a preocupação de refazer nossas florestas nativas, teríamos hoje onde buscar nosso pinhão em todos os outonos. Teríamos os belos troncos nos quais nós nos recostaríamos nas tardes quentes de verão. Teríamos a sombra benfazeja de um verde carregado de vida a cobrir nossas cabeças.

 

 

Jamais alguém, no passado, privou-se do calor de um fogo amigo nas gélidas noites invernais. Porque galhos pendentes desprendiam-se já de muitas árvores. Ou devido ao desgaste natural causado pelo tempo decorrido desde que aos céus apontaram seus ramos, ou por vícios inerentes à sua própria natureza. E, com os galhos, os fantásticos nós dos pinheiros, de madeira concentrada, carregados de resina, que conferiam um calor extremo, quando em combustão.

 

 

O nosso pinheiro nativo era o nosso aconchego. Sempre.

 

 

Hoje, cuidamos de guardar, com cuidado, as fotografias que deles algum dia fizemos. Para não nos esquecermos daquela imagem de taças que se erguiam, altaneiras, majestosas, carregadas da mais pura seiva, para saudar o sol de cada manhã, para receber o clarão da lua em cada dia que findava.

 

 

É, dizia o pinheiro solitário, à beira do caminho:

 

 

“Eu sou o pinhão que a gralha enterrou e esqueceu de ir buscar”.

 

 

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