Eu… depois do 7 a 1

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Adair Dittrich relembra a traumática goleada que o Brasil levou na Copa de 2014                                                      

 

Uma apatia tomou conta do meu eu após aquele, para mim, triste dia em que os nossos canarinhos se deixaram abater na verde grama nacional. Não os perdoava. Não os entendia. Não me conformava. Não, não precisavam ser campeões. Poderiam, mesmo ter ficado na quarta colocação. Outros grandes já haviam ficado há muitas copas já. Mas, nunca, jamais, em tempo algum, uma avalanche de gols abatera tanto o meu eu.

 

 


E, desde aquele famigerado dia, só quis saber de outros esportes. E, pouco, muito pouco até. Porque o baque fora grande. Puxa vida, eu era fanática pela nossa seleção de futebol. Desde sempre.

 

 

Triste muito triste, para quem nasceu no ano da segunda copa mundial. Triste, muito triste para quem, aos quatro anos de idade já ficava, com os manos mais velhos, mesmo sem nada entender, a ouvir os nossos locutores irradiando os grandes embates futebolísticos que se sucediam, dia após dia, nos gramados franceses.

 

 

Sofri, junto a uma multidão, a nossa derrota para o Uruguai, na final de 1950. Mas, éramos vice-campeões e perdemos por apenas um gol.

 

 

E era o futebol o nosso néctar de sempre. Mesmo que, durante um intervalo de quatro anos, pouco me interessasse por este esporte, quando era chegada a época da Copa do Mundo eu já sabia de cor o nome de cada jogador convocado, o nome de cada cidade e de cada estádio onde os jogos seriam sediados e até a cor da camisa dos adversários que o Brasil enfrentaria nas oitavas de final.

 

 

Reunia-me com amigos, com a família e ficávamos, ouvidos grudados nos autofalantes de nossos rádios. Em silêncio total. Para que nenhum lance fosse perdido. Um silêncio só quebrado na hora em que se sentia que o gol seria inevitável. Nosso ou do oponente. Se nosso, gritaria geral.

 

 

Já contei ter ficado sabendo de nossa vitória final, em 1958, na copa da Suécia, em pleno voo entre Foz do Iguaçu e Assunção, no Paraguai. E a grande festa na embaixada brasileira na capital do país vizinho. Já contei de outras festas. Que a maior fora a do tricampeonato, quando o Brasil ficou com a posse permanente da Taça Jules Rimet. A primeira copa que eu assisti pela televisão.

 

 

Fala-se tanto que antes era um futebol arte. Que se jogava limpo. Que não se quebravam ossos de nenhum jogador. Seria? Não! Não era esta finura, não! Apenas que, na época das transmissões, através das rádios, não se via o terror que acontecia pelos gramados do mundo.

 

 

Na copa da Inglaterra, em 1966, quebraram o Pelé. Quebraram um osso do antebraço do Pelé. E ele ainda continuou jogando mais algum tempo com todo o seu membro superior avariado, grudado junto ao peito. Cena real que o filme “Fuga para a Vitória”, tendo ele como um dos protagonistas, repete. Na ficção, sem tipoia, faz um maravilhoso gol de bicicleta. Filme que eu não me canso de ver.

 

 

E a cada quatro anos sempre estava eu, meses antes, esperando o dia da abertura da copa, dos primeiros jogos, preparando a casa em verde-amarelo. Desfilando com uma bandeira nacional em cada janela de meu carro. Discutindo a escalação de tal jogador e reclamando porque Dunga não chamou Neymar e Ganso em 2010.

 

 

O entusiasmo era tanto, que na folha de agendamento de cirurgias, do Hospital Santa Cruz, no local onde eu deveria marcar o nome do procedimento a ser realizado e o do cirurgião, eu colocava o jogo que naquele horário seria realizado. Só urgências e emergências levavam-nos ao centro cirúrgico.



 

 

Éramos entusiasmados, todos nós, toda a nossa equipe, pelos jogos de nossa seleção canarinho. Quantas vezes, cinco minutos antes do início de uma partida em que nossa seleção jogava, ou Dr. Haroldo Ferreira, ou Dr. Antônio Seleme, telefonavam-me pedindo minha ida, urgente, ao hospital, para anestesiar um paciente em estado grave. E, após o meu momentâneo silêncio, após gaguejar, perguntando se não daria para esperar para mais tarde, vinha uma sonora gargalhada e as eternas palavras de que só queriam me ver tartamudeando uma vez na vida. Porque, assistir aqueles espetáculos, pela televisão, era algo imperdível.

 

 

E assim eu continuei até o tétrico dia do jogo em que a seleção germânica conseguiu colocar, sem dó nem piedade, sete bolaços para dentro de nossa tão fragilizada rede.

 

 

Não, o mundo não ruiu. Apenas ruiu dentro de mim o entusiasmo pelo futebol.

 

 

Ano passado, conversando sobre o meu livro “O Meu Lugar” com estudantes da Escola Básica “Irmã Maria Felícitas”, a muitas perguntas que me faziam eu fui respondendo, com muitas palavras, estendendo-me longe, até. Quando me perguntaram sobre futebol, porque naquele livro há um texto intitulado “A minha história das copas”, eu nem sabia o quê responder. “Gostava, até o 7 a 1”, laconicamente, respondi. Não, eles não riram. Porque eles, assim como eu, estavam com uma trave sobre os seus corações.

 

 

E assim estava eu. Feliz fiquei e quase continuei a torcer, fanaticamente, pelos canarinhos por ocasião dos Jogos Olímpicos. Mas, aquela era uma outra seleção. Poucos do plantel principal. E, pela vez primeira, desde que o futebol começou a fazer parte de uma das modalidades olímpicas, conseguimos chegar lá. Foi de lavar a alma. Até, após ficar sabendo que vencêramos as primeiras partidas, resolvi acompanhar, de olho na televisão, o restante daquele campeonato olímpico. E foi só.

 

 

Desde então, apenas os resultados das eliminatórias, que, felizmente, nos classificaram para a copa, e os dos amistosos eu ouvia, de longe e de relance, no dia seguinte.

 

 

Até que, há uma semana, ouvindo algumas opiniões abalizadas, de sobrinhos, congêneres e agregados, que eu deveria assistir, sim,o jogo amistoso contra a Áustria, no último, domingo, de manhã. Que a turma de agora era uma turma de se pôr fé. Capitulei. Foram tantas as razões dadas que, na hora do jogo de domingo passado, de manhã, lá estava eu, rente, defronte à enorme tela da televisão do apartamento de meu sobrinho Décio, em Curitiba. E torcendo, como uma caloura.

 

 

Hoje minha casa já se encontra toda em verde amarelo. São toalhas, fitas, flores, toalhas de mesa e banho, panos de cozinha e bandeiras espalhando-se por todo o meu território encantado. Até uma corneta com as nossas cores, afim de com a maior festa, comemorarmos os gols de nossa seleção. Tudo para aguardar hora em que os nossos canarinhos entrarão no verde gramado de Rostov. Para vencer a Suíça. Claro! Para vencer!

 

 

Depois de passarem pela primeira fase, outros embates tristes virão.  Tristes, sim, angustiantes, sim, porque, então, necessário será vencer! Ou vencer! Não! Eles não precisam vir com a taça e as medalhas de campeões. Nem de vice-campeões. Podem chegar com um honroso quaro lugar. Sim, porque lá se encontram as 32 melhores, no momento, seleções do mundo.

 

 

Só não poderei aceitar outra avalanche de gols. Porque então não sei se na próxima copa eu terei, ainda, um laivo, que seja, de vontade de colorir minha casa em verde e amarelo. Que os nossos jogadores estejam, o tempo todo, assim como eu, nesta pujança, canarinhos em verdes campos. Que só, em nome de Tupã e de todos os nossos deuses, não amarelem mais.

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