Entre o risco e a perfídia

O PT não pode se atrever a cobrar fidelidade de quem traiu com todos os pecados capitais

 

 

Walter Marcos Knaesel Birkner*

 

A estratégia de Lula em colocar Haddad no segundo turno mostrou-se eficaz. O cálculo foi correto e as vantagens, em caso de vitória, muito grandes: o reaparelhamento do partido e uma volta triunfal, da cadeia para a história em vida. Coisa de cinema. Mas pra isso foi necessário aniquilar aliados, traição que custará caro a toda a esquerda. Imperou o maquiavelismo rasteiro, sendo preferível o risco de perder o poder, a dividi-lo em nome do interesse nacional. Deu no que deu: a eleição caiu no colo do oponente e a esquerda foi pro pau. E não se atrevam a cobrar fidelidade de quem traíram com todos os pecados capitais.

 

 

Quando, afrontando o judiciário, Lula forçou sua candidatura, acompanhada com entusiasmo pelos séquitos, parte da sociedade se irritou com a presunção. Mas a estratégia foi literalmente plausível. Primeiro, o cálculo de que cabia a velha polarização entre esquerda e direita no 2º turno foi certeiro. Depois, usou-se a imagem do líder, prisioneiro político injustiçado pelas elites amedrontadas com sua volta. E quando o ex-presidente foi definitivamente impedido, sua imagem já estava estampada na cara de Haddad. O jogo é jogado e se o objetivo é o poder, então não há custo que não se pague, Daniel.

 

 

Também fazia parte do cálculo aniquilar qualquer concorrente do “campo progressista” e deixar Bolsonaro ir ao 2º turno, o “mais fácil” a ser vencido. Santa soberba, contavam com o apoio natural das esquerdas, todos contra #EleNão, facinho, facinho! É teatral a cega incapacidade da autocrítica, representada na elucubração da presidente do partido, ao dizer que 1) “esperava um apoio natural” no segundo turno. Imaginem a comoção de Ciro e Marina lendo isso. Além disso, a infâmia de subestimar o eleitor, que 2) teria sido levado pela “máquina de mentiras” do oponente. E a cretinice de afirmar que 3) “não dá para pedir desculpas porque o PT venceu(sic) o segundo turno”. Que show!

 

 

Agora observem o ato falho: venceram de quem? De Ciro, Marina, Alckmin?  Com que propósito? O de obter a hegemonia na esquerda? O orgulho subliminar aí implícito é o próprio orgasmo psicológico dos aduladores do chefe. Maravilham-se com a façanha, prontificados para a grande missão: derrotar o fascismo. Para tal fim, qualquer meio é justificável.  Lula e sua cúpula enterraram a renovação da esquerda. Jogaram dentro das regras, disse a Maria Antonieta do PT. Traição e perfídia com os aliados e mentira e difamação sobre os oponentes, por meio de narrativas maniqueístas marteladas na cabeça do eleitor.

 

 

Lula foi o grande líder das massas, mas o PT é um partido de intelectuais. É nas universidades que se constroem as narrativas que o PT usou com eficiência. Neoliberalismo, privatismo, golpismo, sempre foram chavões a alimentar a militância. Agora é o fascismo. Se o negócio é vencer eleições, então é preciso enfiar na boca dos séquitos as narrativas originadas pelos intelectuais orgânicos das universidades e disseminá-las para as ruas. Mas, sem um líder à frente, as narrativas voltam, pouco a pouco, ao pó de onde surgiram. O PT, assim como as universidades, perdeu a ligação com as massas.

 

 

Palavras e imagens foram fetichizadas e transformadas em mercadoria ideológica. A esquerda aprendeu a usar a linguagem a seu favor. Transformou as narrativas em produto político, moeda de comunicação e ferramenta de construção de uma sociedade identitária e dividida. Mantiveram a chama e ganharam eleições com a força discursiva e maniqueísta do “nós” do bem contra “eles” do mal. Não se trata de mentiras. Trata-se do fetiche produzido por intelectuais orgânicos das universidades, que trocaram a busca da verdade pelo engajamento político-ideológico sem pudor. Faz parte. Os fascistas de verdade já o haviam feito antes.

 

 

O problema é que o efeito se virou contra o causador. O convencimento dos séquitos foi superado pela aversão do homem das ruas à mentira, ao exagero das narrativas que potenciou o antipetismo e uma verdadeira ojeriza ao lulismo. Fascismo é o último fetiche saído das universidades, precedido pelo golpismo e pelo neoliberalismo. A inflação dessas narrativas inundou o mercado politico e eleitoral e as desvalorizou. O “consumidor”, gente do povo, até atribui valor a elas, mas desconfia da sua abundância quando um milhão delas não compra a verdade.

 

 

Falando nela, a verdade foi a maior prejudicada. Os fetiches sobre o neoliberalismo e as privatizações sempre encobriram o patrimonialismo, o corporativismo estatal e a irresponsabilidade fiscal. Com a estória do golpismo foi a mesma coisa, além de ocultar a responsabilidade pela crise econômica. Tão sério quanto isso é o prejuízo a discussões importantes sobre o racismo, o feminicídio e a homofobia. São problemas reais cuja compreensão tem sido prejudicada e postergada pela mercantilização política e ideológica. Mas não adianta, nem os intelectuais orgânicos, tão pouco os militantes reconhecerão suas responsabilidades.

 

 

Lula e o PT desonraram sua própria história, apostando na traição e na mentira. O cálculo foi egoísta e de curso prazo. Tivessem interesses verdadeiramente republicanos, teriam ajudado a unir as esquerdas e hidratado desde logo a candidatura de Ciro Gomes. Mesmo com o viés estatizante, seu projeto era coerente. Provavelmente, teria sido o único candidato com têmpera a enfrentar Bolsonaro. Do homem das universidades ao homem das ruas, muitos se convenceriam de que o País precisa de um projeto de desenvolvimento e não de uma escolha entre um projeto de reaparelhamento e um voluntarismo sem projeto.

 

 

Pois então tá, é isso. Entregaram o poder a um candidato sem programa que, conquanto expresse anseios da sociedade, é um voluntarista que gera incertezas e riscos. A coisa pode ficar feia. A esperança é o fator surpresa, mas isso é assunto pra depois das eleições. Lula e seus intelectuais perderão e apostarão no quanto pior melhor, ávidos pelo próximo bordão, do tipo: “viram: tínhamos razão! Tudo pela mesquinhez, idolatria ao líder e, é claro, pela possibilidade do (re)aparelhamento. E a “Maria Antonieta” arrebata: “a história avaliará a todos nós”. É verdade. O PT está sendo avaliado hoje nas urnas e isso é história. Se algo der errado, jamais assumirão sua responsabilidade. Só não se atrevam a culpar os que não votam em traidores.

 

 

*Walter Marcos Knaesel Birkner é sociólogo, professor visitante da UFRR

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