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Em agonia… um último aviso III

… e o vermelho do sangue no cáqui da farda                                                                                                                                                                      

 

Fora tudo o que lera e muito mais do que lera, imaginara, naquele sótão empoeirado. Quando a luz daquele dia dele se despediu e as letras se turvando foram naquela hora crepuscular, com tocos de vela de sebo – restos das velas de missas rezadas na casa grande – que ele continuou em seu aventureiro voo, a fim de empilhar na memória as imagens de há muito sonhadas: o andante cavaleiro de seu sonho infantil, o herói de bondade e amor.

 

E a decisão então desabrochou em sua alma, a decisão de fazer parte deste exército de homens que defendem os bons. Com todo o amor que tinha em seu coração iria mostrar que este mundo não tem fronteiras. Iria mostrar a todos aqueles assassinos foragidos da justiça que, se eles quisessem poderiam ser homens bons. E, em sendo bons, encontrariam o bem ao seu redor e seriam rodeados dos bons. E morariam no mundo dos bons. Sem precisar se esconder de ninguém. E a céu aberto apareceriam para todos.

 

E os cidadãos do mundo trabalhariam em paz, porque sabedores eram de que o mal já não mais existiria na face da terá.

 

No bruxuleante lusco-fusco de vela sumindo, o livro rolou-lhe das mãos e as cortinas dos olhos teimavam em fechar-se, numa luta muito forte para continuar naquela mistura de imagens lidas, de imagens pressentidas, de imagens sonhadas.

 

Foi música de coro de anjos que veio embalar o seu sono separando a vida vivida do mundo irreal de seus sonhos.

 

E embarcou na primeira nuvem branca e macia que pela claraboia passou e viajou pelos séculos, atravessando o infinito. No itinerário escolhido por seus cicerones viu terras de imensa desolação, com indivíduos cobertos de pelos, selvagens lutando por uma intranquila sobrevivência. E achou tão horrível um mundo assim. Seres iguais exterminando-se a fim de saciar uma fome incontida. E explicaram a ele que lá não havia outra lei senão aquela de sua própria natureza selvagem e atrasada. Mas eles também evoluiriam e o tempo de maior compreensão para eles também chegaria.

 

Depois foi levado a outros mundos. Viu seres iguais a ele, iguais aos que vivem na terra, com iluminados semblantes, evoluindo, trabalhando e amando. Viu ordem e paz. Viu gente de todas as cores dando-se as mãos. Lá não havia cavaleiros andantes defendendo os mais fracos já que opressores não havia também. Ninguém a dar ordens, nem celas ou campos de concentração, nem exílios e nem degredos.

 

Nem neve e nem intenso calor.

 

Felicidade incontida e suprema era o que estava visível na face de todos.

 

Nem editais procurando assassinos ou malfeitores, nem sanatórios para enfermiços de mentes conturbadas por uso de tóxicos. Lá ele tampouco viu o horrível flagelo, este horrível flagelo – que mina o tão triste planeta onde habitamos. Não havia fumaça de espécie alguma. Era um planeta feliz de imensos prazeres.

 

E o garoto então perguntou aos anjos onde estariam os homens que impunham a lei. Onde se encontravam os juízes e policiais? Paz imensa, mais imensa que as imensas estrelas de um céu esverdeado. De um céu sem névoas pesadas e escuras.

 

E aqueles seres que lhe pareciam anjos, mostraram-lhe, então, onde estavam os homens da lei e da justiça.

 

“… na consciência de cada um dos indivíduos…”

 

“Eles são os seus próprios juízes. Aqui, neste mundo, todos são bons. Aqui não há opressores e nem oprimidos. As terras pertencem a todos e todos trabalham e repartem o pão. Aqui não existe angústia premente, nem o choro incontido e nem soluços de dor. Aqui existe a suprema justiça e o supremo direito. Aqui existe a extrema utopia há tanto sonhada na terra onde habitas.

 

“Aqui há o entendimento mútuo entre todos os seres. Direitos e deveres igualam-se. A escala de valores é proporcional à evolução de cada um. E a cada qual é destinado um trabalho de acordo com o seu ideal. E todos procuram no aperfeiçoamento diário superar-se a si mesmos, sem frustrações e sem mágoas.

 

“E este mundo que é quase perfeito não é a morada dos anjos, como poderias pensar.

 

“Aqui habitam homens iguais aos da terra em seu envoltório carnal. A diferença suprema está no espírito de evolução infinitas vezes superior aos do homem da terra.”

 

Como seria bom ficar ali para sempre foi o que se passou por seu pensamento. E, sem sequer uma letra ouvir captou em sua mente a resposta.

 

“Não, teu mundo ainda é aquela minúscula terra, onde muita coisa ainda tens a realizar.”

 

E ficou então pensando como seria o paraíso se este mundo, visto agora, para ele já seria o mais puro que pudesse existir.

 

E no seu caminho de volta para o limiar entre o sono e a vigília a insistente recomendação dos amigos do espaço:

 

“Muito ainda tens como missão para ajudar aos homens da terra. Lá onde grassa a miséria e a peste, a fome e a guerra, lá onde mais forte brilha a moeda de ouro, lá onde são relegados os valores mais puros do espírito, inteligência e bondade…

 

“Lá onde os maus sugam o trabalho dos bons. Lá onde as portas precisam de cadeados de ferro, lá onde o faminto até rouba um pedaço de pão, deves saber que é preciso uma lei. Uma lei que proteja dos maus os que lutam para que aquele planeta se transforme em um mundo melhor.

 

“Lá, naquele planeta faminto de puros espaços azuis, não há policiamento nas consciências humanas. Lá existe, ainda, a necessidade de se vencer a qualquer custo. Comprando e vendendo consciências. Lá existe a necessidade de multiplicações de feitos e não de bem estar interior.

 

“Trabalharás em sublime missão. Encontrarás criaturas vis e cruéis. E, em meio a elas manterás teu sorriso de luz. Encontrarás muitos jovens iguais a ti, mas com as mentes obnubiladas por etílicos vapores, por químicas substâncias deletérias ou tóxicas fumaças, conduzindo potentes veículos. Não seria mais nobre levá-los a um local, onde supervisionados ficassem até que o efeito intoxicante passasse, do que deixá-los soltos pelas ruas, diabolicamente destruindo a tudo e a todos e até a si mesmos?

 

“Encontrarás pessoas torpes e mesquinhas que ficam a iludir a boa-fé dos bons e ingênuos que por lá vivem, vendendo o que não existe e tirando o pão da boca dos que trabalham para o bem comum, dos que trabalham para o desenvolvimento de tua pátria, do teu mundo.

 

“Amigo, a aurora já vem chegando e nós iremos te deixar. Iremos em busca de outros para mostrar-lhes o que acabamos de mostrar para ti. Adeus, amigo. Despedimo-nos por um curto espaço de tempo. Quando tiveres cumprido a tua missão, e se cumprires com devotamento e amor, com desvelo e carinho, então estarás pronto e viremos ao teu encontro.”

 

Algo estranho passou-se em sua mente ao acordar pela manhã naquele sótão empoeirado. O sol a tudo inundando. O rouquenho cantar dos galos ainda sem treino, ainda tenros, ainda frangotes de primeiro canto quebrando o silêncio matinal. Lembrou-se então de que um deles tinha as pernas quebradas e não poderia procurar alimento sozinho. E ouvia os gritos e os chamados dos que o procuravam.

 

De três em três foi saltando os degraus das escadas, chegando sem graça ao terreiro onde todos estavam, de olhares estupefatos, quase chorando ao vê-lo, pois desaparecido se encontrava desde a manhã da véspera.

 

E descera como um iluminado teria descido dos céus.

(Continua)

 

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