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Em agonia… um último aviso

… e o vermelho do sangue no cáqui da farda (I)                                                                          

 

 

Na névoa empoeirada da estrada seguia, cambaleante, um quase menino. Sim, um menino, de altaneiro semblante, com trôpego andar e nos olhos o brilho mais puro dos que conduzem bem dentro de si a certeza mais nobre de um ideal a cumprir.

 

Era um quase imberbe menino de olhos azuis. Com tênue penugem cobrindo sua face macia. Figura macia ao longo da estrada empoeirada, parecia uma estátua de barro movente, confundindo na cor de sua roupa a cor da terra onde andava.

 

Um quase imberbe menino, mãos crispadas, tentando, num último esforço, manter seu fuzil apertado a um corpo que não mais obedecia às manobras comandadas pela mente.

 

Névoa e poeira, confusas, foram aumentando, aumentando… e cada vez mais longe lhe parecia a terra… terra pegajosa, barro avermelhado em mistura com a ferrugem que crescia, crescia… como lago de fogo ao redor de suas botas.

 

Suor escorrendo, escorrendo, colando a farda no corpo, suor avermelhado, frio e pegajoso suor colorindo o cáqui da roupa, suor dolorido a aumentar mais e mais o tétrico lago vermelho a seus pés.

 

E aquela dor, antes tão lancinante em seu peito, aos poucos sumindo, sumindo, sumindo, apagando…

 

E as névoas lhe vinham à mente, fragmentos esparsos do turbilhão momentâneo quebrando a calma daquela manhã. Primeiro um barulho infernal como se todos os demônios fizessem desabar os trovões acumulados no espaço em um único lugar sobre a terra, o lugar onde ele estava… as imagens indo e vindo, perdendo-se, confundindo-se na poeira da estrada, na névoa da estrada… na névoa empoeirada da estrada, na névoa empoeirada de sua mente confusa…

 

Depois o soco imenso queimando entranhas, rasgando um túnel de fogo em sua carne. Vaga lembrança de um sol nascendo atrás de altivas palmeiras farfalhantes ao vento macio, de passarinhos saudando um amanhecer que era tão lindo.

 

E então o estrondo, o fogaréu, a queda num solo macio que lhe parecia o decantado veludo dos contos de fada. Deitado no estofo relvado, a vontade de assim ficar pela vida afora, num descanso infinito foi o pensamento a encher sua mente.

 

Mas, no fundo de seu arrebentado eu ouvia uma voz que o chamava bem alto para uma missão ainda a cumprir. Companheiros perdidos na mata em inacessíveis locais morreriam à míngua se o socorro que estaria indo buscar a tempo não chegasse.

 

Somente ele havia encontrado o caminho. Oriundo das matas do extremo oeste, criado entre índios e peões, criança ainda aprendera a se guiar pela natureza. Os demais colegas da busca haviam seguido em outras direções. E os companheiros famintos, feridos e endoidecidos jamais seriam encontrados.

 

Tropegamente arrastou-se entre touceiras e arbustos, espinhos e farpas, sentindo a mais lancinante das dores a corroer-lhe as entranhas. Com tufos de pano rasgados de sua camisa, bloqueava o caminho incessante que o sangue teimoso insistia em fazer.

 

Seu fuzil era a bengala, era a muleta, era o desbastador dos incertos caminhos, pista única visível ao remoto e quase imprevisível socorro. Sequer fazia ideia de onde vieram os tiros. Fora, realmente, insensato ao se deixar pegar, assim, tão de surpresa, quando já se encontrava a tão poucos quilômetros do ponto de encontro marcado na estrada. Fora tão longo o tempo em que estivera deitado na relva macia, semienterrado dentro dela, que, com certeza, os bandidos julgaram-no morto. Analisou seu fuzil e percebeu que cartuchos haviam sido deflagrados… então, também atirara… não se lembrava. Somente não percebia ruídos humanos por perto. Possivelmente os marginais julgaram haver atraído, com o tiroteio, os demais policiais encarregados da busca e infiltraram-se pelos esconderijos dos grotões da serra.

 

Foi um sol de meio-dia que o encontrou na estrada de névoa poeirenta. Enorme era o sol e tanta era a névoa, tanta névoa… era um sol de sangue. Era um sol tão forte que o cegava… mas é claro… claro que era a intensidade do sol…  E eram muitos os sóis, verdes sóis, sóis amarelos, sóis azuis e até brancos sóis. Eram sóis de ouro a desenhar-lhe a sua bandeira… eram sóis de ouro na imensa névoa empoeirada e o imenso lago de ferrugem vermelha aumentando… aumentando…

 

Foi só então que se lembrou daquela dor lancinante em seu peito… já não a sentia mais… E a sua fada de profundos olhos escuros e longos e negros e sedosos cabelos inundou sua memória… Sorriu ao lembrar-se desse amor tão lindo e tão intenso que por ela sentia… ao lembrar-se dos sonhos, de seus beijos, de seu carinho, de seu sorriso… ela iria se orgulhar dele.

 

Sua face estava já coberta pela aura dos iluminados. E sequer conseguira chegar perto da meta proposta, do ponto marcado para o encontro… Amargurado, num solitário final, conseguiu, num instante de retorno à consciência, traçar na poeira da estrada, num desenho que lhe parecia medíocre demais, um arremedo de mapa, onde tentava, em esforço supremo, indicar o local dos amigos perdidos.

 

Já se iniciando o crepúsculo do entardecer, já longas sombras esticadas na estrada, quando a sua farda da cor da poeira da estrada foi vista do alto em meio a um lago vermelho.

 

E vistos foram também os desenhos na lúgubre poeira. Riscos que o vento não apagou. Riscos que as águas não diluíram. Traçados vermelhos e grossos riscados no solo. Grossos como a ponta de seu dedo indicador titubeante, grossos como o dedo de seu indicador vacilante que já mergulhara em poça de sangue já seco.

 

Fotografaram o fantástico desenho geográfico. Ampliadas foram as fotos do fantástico desenho geográfico. E seguiram sua rota. E partiram pela avermelhada pista que o quase imberbe menino de semblante altaneiro havia percorrido. Partiram com todo o aparato indispensável de busca e salvamento e antes que a lua, como côncava canoa, sumisse horizonte abaixo, os companheiros dele se encontravam em um hospital, aquecidos e confortáveis, cercados de sorridentes anjos brancos que lhes pensavam as feridas, tranquilizavam as mentes confusas no torpor mais incrível daquele longo tempo em que perdidos ficaram no emaranhado das matas da quase inacessível montanha.

 

E o corpo do quase imberbe menino de olhos azuis, suave rosto coberto de fina penugem, branco e alvo rosto, foi, solenemente, carregado dentro de sua farda da cor da poeira da estrada.

 

E a poeira foi se apagando… apagando… orvalhada pelas incontidas lágrimas dos companheiros, dos amigos, dos anjos.

 

E um suave ribombar ecoou por pradarias e montanhas, naquela salva de vinte e um tiros. Foi a única homenagem que a terra lhe fez.

 

Os passarinhos fizeram uma última serenata vespertina e acompanharam seu sorriso de luz, seu altaneiro semblante e o puro brilhar de seus olhos até as fronteiras das últimas nuvens. E o entregaram ao séquito de anjos que o aguardava. Envoltos em vestes das cores do mais deslumbrante arco-íris, abriram suas asas em solene continência celeste. No toque de alvorada cobriram-no com as pétalas de vinte e uma rosas. Foi a primeira homenagem que o paraíso lhe fez.

 

                                                                           Ω

 

 “Foi encontrado na tarde de ontem no quilômetro 27 da Estrada da Serra o corpo do jovem policial-militar José Ricordi, natural do oeste do estado, filho de imigrantes italianos, eliminado por marginais lá refugiados. Fazia parte da patrulha de busca e salvamento aos sobreviventes de um helicóptero que se chocara contra os picos enevoados após ser atingido pelo grosso armamento de bandidos ligados ao tráfico de drogas, escondidos nos grotões da serra, a quem estavam dando caça.”

 

Foi a lacônica notícia inserida em página interna de tradicional diário.

 

(Continua)

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