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Em agonia… um último aviso (2)

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… e o vermelho do sangue no cáqui da farda                                                                            

 

 

Em letras garrafais e coloridas um vespertino trazia a manchete e as fotos que enchiam ávidos olhos e sádicas mentes que, como abutres vorazes,deliciavam-se em ficar, nem que fosse por apenas alguns minutos, nas entrelinhas opacas de um noticiário sensacionalista e vazio.

 

E apenas alguns dias bastaram para apagar das mentes voltadas às suas fainas diárias a curta notícia de mais um garoto varrido do mundo ao cumprir seu dever. Cumprindo o dever mais humano de ajudar aos humanos na defesa da moral e da ordem, de ajudar aos humanos a viver sem a angústia e o medo gerado no submundo de cruéis desumanos.

 

No coração dos companheiros de farda ficou o heroico ato daquele garoto que com eles ombreou por tão curto espaço de tempo!

 

Há alguns meses apenas ele chegara. Muito tímido ante o desconhecido, mas com invulgar entusiasmo. Seu sonho era ser policial militar. Viera do campo, viera das lides vaqueanas, viera do amaino da terra. Viera de longe, de muito além das serras. Viera de um ermo desprotegido, de um sossegado refúgio de desordeiros e foragidos da lei. E via a sanha assassina a rir-se, debochadamente, pelos currais e vinhedos, pelos trigais e invernadas. Via o sarcástico debochar de tiros cavalgando a morte e de punhais cavalgando o sangue. No amaino tranquilo da terra estavam à espreita o assalto e o crime.

 

E via seus vizinhos e amigos largando o arado, largando a enxada, largando o solo fecundo de onde brotava o sagrado pão de cada dia. Cabisbaixos e amedrontados corriam em busca de redutos maiores onde houvesse ordem e lei que os protegessem de sanha tão destruidora.

 

Nas frias noites de lua cheia, na campina gelada, acariciava seus livros, herança pequena da escola onde em criança descobrira o maravilhoso mundo do saber. E nestas histórias de heróis do sertão agigantava-se o seu mundo. E via o seu sonho refletido contra o céu da noite. Mas foi também pelos livros que ele soube não ser dono da justiça.

 

Foi algum tempo depois que encontrou, em baús muito velhos, esquecidos no empoeirado sótão da velha casa grande da fazenda, livros furados por traças e cupins e amarelecidos pelo tempo, a história dos soldados de sua terra. Soldados que ele nunca vira. Mas que lhe pareciam deuses, pairando acima das nuvens, convencendo marginais para que seguissem o caminho da lei. Confundiam-se com aqueles heróis das velhas histórias de seus livros infantis.

 

Descobriu, então, que os homens que defendiam a lei não tinham apenas a missão de se infiltrar sertão adentro em busca de criminosos. Também velavam o sono tranquilo das pessoas que moravam nas cidades.Viu vigilantes das rondas das madrugadas em defesa do bem, retirando das ruas assaltantes e desordeiros.

 

De apito na boca, nos cruzamentos de ruas, orientando o tráfego, viu o guarda de trânsito, em fina garoa ou sob sol causticante ou, ainda, em gélidas manhãs de vento cortante, impassível, evitando atropelamentos, colisões ou mortes.

 

E, no tráfego mais alucinante das grandes rodovias, viu o policial rodoviário, com seu amplo sorriso, a disciplinar os corredores incautos das horas incertas. Trazendo no bojo a habitual simpatia, aconselhando imprudentes para que devagar seguissem e inteiros chegassem aos braços dos seus.

 

Viu, também, soldados do fogo, salvando crianças de incêndios, saltando nas mágicas escadas, com seus negros capacetes entremeados de reluzentes metais. E viu ainda o branco capacete do chefe saltando entre as chamas, retirando gementes e alucinados dentre retorcidos ferros em brasa que se derretiam ao calor infernal daquele caos indefinível e imenso.

 

Depois, em sua imaginação, viajou até as praias. Onde viu o garboso atleta de calção vermelho, invadindo o mar grosso em luta demente contra vagalhões ensurdecedores, arrancando de um alucinante redemoinho, um infeliz e incauto banhista. E o viu depois, exausto e ofegante, em longas braçadas, com o semináufrago colado a seu corpo, retornar por entre as desordenadas ondas. Ondas imensas que tentavam engolir os dois escolhidos pelos deuses do mar, a viver nos jardins submersos, em meio a suaves sereias. Mas, o salvador resistia ao impacto das águas e conseguia depositar na branca esteira de espumas, onde ficava a areia, o inerte corpo que furtara à morte.



 

Nem o aplauso da multidão ele ouvia e nem percebia as manobras de seus companheiros treinados na árdua tarefa de ressuscitação. Nada ouvia e nada percebia, porque seus agora embotados sentidos, seus fatigados músculos rolaram de lado, repousando na calma areia branquinha, recuperando seu físico de uma luta quase desigual, uma luta sem refrega contra um mar enfurecido.

 

Mas a alma de nosso garoto quase entrou em frenesi quando leu a história dos heroicos homens que tentaram salvar os sobreviventes de um desastre aéreo nas montanhas da distante mata litorânea.

 

Adentrou pelas serras cobertas de densas e impenetráveis florestas onde viu policiais procurando, na mais trágica história de quantas já lera, os semivivos de um avião lá caído. Era grotesca a cena deste pseudotombadilho, pensou, lembrando-se de Castro Alves.

 

Semivivos, (ou seriam semimortos?) em histéricos gritos de desespero e dor, agitando pedaços de brancos panos na tentativa mais vã para que fossem vistos dos céus, onde aviões a ronda faziam. Copas folhadas de imensas árvores impediam qualquer visão lá do alto. E os uivos gementes dos vivos não ultrapassavam as primeiras paredes de rochas. Sobreviventes, já quase subviventes dos muitos dias e muitas noites sem nem água sequer, exangues alguns por múltiplas fraturas e ferimentos, compartilhando o mesmo pedaço de chão com restos carcomidos sem vida, com corpos carbonizados, com o nauseabundo cheiro de carne em decomposição que atraía negros abutres. Negros abutres, agourentos profetas de um porvir todo em preto vestido.

 

E nas cercanias deste tão lúgubre cenário, policiais na infindável e contínua busca. Sabiam que um minuto de seu descanso significaria um minuto a mais de sofrimento às criaturas que por seu socorro aguardavam. Os heróis salvadores, acostumados às frias noites das serras, sentiam-se já desolados por este encontro que não vinha, por esta procura atordoante de um não achar.

 

Mas, na manhã de um reluzente sol ainda saindo por detrás da montanha, alguns reflexos foram percebidos. Era alguma coisa que lhes parecia um metal em brasa enterrado em grota profunda. Seguiram no rumo daquele reflexo dourado que aos poucos ia sumindo. Na calculada rota continuaram confiantes e encontraram a “grotesca cena do hediondo tombadilho”.

 

Alguns subviventes, alucinados e enlouquecidos, tentaram mover-se ao encontro deles. Vã e obnubilada tentativa. Os homens do serviço de busca e salvamento ali permaneceram no auxílio imediato, auxiliando com o que tinham e o que conseguissem fazer em tão dantesca situação. Abriram clareiras na mata para que helicópteros pudessem aterrissar e conduzir os sobreviventes aos hospitais. A triste missão findara. Neuroses tomaram conta do âmago de alguns. E o chefe ainda precisava retirar uma descomunal força de dentro de seu eu para encorajar seus jovens comandados.

 

Duas semanas já nesta quase insana busca. Deixara em casa a esposa e filhinha recém-nascida. Sabia que agora poderia voltar a revê-las, na certeza de sublime paz interior, na certeza de um dever cumprido.

 

Tropegamente, com seus amigos comandados, retornou a sua base. A ruiva barba crescida em desalinho, o cabelo revolto, a farda em frangalhos. Botinas rotas, corpo cheio de escoriações, mutilado por galhos pontiagudos e espinhos cruciantes e pelas implacáveis picadas de insetos sedentos de sangue.

 

Dele restava o sorriso de paz de seus olhos castanhos quando abriu o portão de sua casa e caiu desmaiado nos braços da esposa.

 

O garoto respirou profundamente, emocionado fechou o livro, apagou a tosca vela de sebo e dormiu sonhando com os anjos salvadores.

 

(Continua.)

 

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