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… e vomitou seu desespero! (Parte II)

Leia a segunda parte do conto romântico de Adair Dittrich                                                        

 

Exames finais na Faculdade e não conseguia estudar. Sua cabeça, em turbilhão, não retinha o mais simples cálculo. Márcia pedindo apoio e amparo. Como ser apoio e amparo nas condições em que se encontrava agora? Como ser apoio e amparo sentindo-se um farrapo que aos poucos se estraçalhava?

 

 

Nunca imaginara que o homem seria tão vil, tão cheio de aparências enganosas. Sabia, e bem demais até, que seus juízes não eram bentos, nem puros. Conhecia detalhes de suas vidas que faria corar a uma corista do mais barato cabaré.

 

 

 

Ele errara, sim. Sentia-se ferido, magoado. E de dentro de seu remorso até achou que todos estariam certos.

 

 

Foi ver Márcia. Era noite já. E saíram os dois a vagar pela estrada encharcada em luar. Olhou-a bem nos olhos e os sentiu vibrantes, lindos, meigos. E cheios de lágrimas. – Não chores, menina, não chores. Encontraremos um mundo novo somente para nós. Num beijo carinhoso sussurrou:

 

 

– Queres casar comigo?

 

 

No carro pequeno, encolhidos dentro da noite cheia de lua e de estrelas brincando no céu, rumaram a um canto perdido de um bosque distante.

 

 

Em meio a um pranto convulso ela falou que iria trabalhar em um hospital qualquer de uma cidade qualquer, mas quase sem coragem para deixá-lo agora. Gabriel enxugou suas lágrimas com beijos, e ficou acariciando seus negros e longos cabelos. Ela havia confiado nele e se entregara sem reservas. Agora, somente agora acreditava nela.

 

 

Quantas e quantas vezes feriram-se mutuamente nestes onze meses de amor. E somente agora tinha certeza de que a amava. Somente agora, depois de tudo perdido.

 

 

– Não é tarde para dizer que te amo muito, muito. Enxugue estas lágrimas.

 

 

E a beijou longa, longamente, em êxtase, tomando-a nos braços como a uma pequena boneca. Mas uma voz falou mais alto dentro de seu eu misterioso para que aquele enlevo terminasse apenas naquele beijo e naquele abraço.

 

 

 

– Logo, logo este pesadelo terá passado e então nos casaremos.

 

 

 

Deixou-a em casa. Márcia entrou e ao ver sua pequena Fabíola adormecida desatou outra vez em convulsivo pranto. Uma dor diferente agora. Quando a menina nasceu ela estava só. O pai da criança longe. Partira sem deixar um rasto, sem lembrança e sem memória ou sem sequer saber que deixara uma semente.

 

 

Seria por isto que não tivera coragem de enfrentar uma nova gravidez? Sua confusa cabeça não saberia dizer. Quando percebeu que um novo ser germinava dentro de seu interior sentiu-se esvaziar por inteiro. E procurou Gabriel, para que, juntos, encontrassem uma solução.

 

 

Remorsos? Sim, ele sentia remorsos. Se estivessem casados tudo estaria certinho. Não haveria aborto. E toda esta confusão teria sido evitada. Mas, casar? Como? Não tinha certeza de que ela fosse somente dele. Quando veio, desesperada, em busca de socorro em seus braços, ele não se sentiu forte para uma decisão.

 

 

 

E numa noite, há algumas semanas foram a uma cidade vizinha onde ele deixou o dinheiro emprestado de amigos. E o fruto de seu amor num esgoto qualquer.

 

 

Voltaram cabisbaixos. Ele, sentindo o gosto amargo do fel em sua boca. Tinha náuseas do ar, náuseas das estrelas… náuseas do nada que era. Tudo estava consumado. E ela poderia ter morrido! Deus! Ela também poderia ter morrido! Sua consciência fazia mais barulho e dava mais solavancos que os solavancos do carro na esburacada estrada de terra.

 

 

 

Há apenas algumas semanas. E os senhores juízes, os donos da verdade e senhores atuais da instituição beneficente que era o seu Hospital queriam provas de que gravidez não havia. E, na manhã seguinte ao aborto o teste foi realizado. Com resultado positivo.  Desconheciam que muitas horas depois de consumado o aborto ainda positivo seria o resultado.

 

 

E o filho deles já escorria pelos esgotos putrefatos de outra cidade. Não! Não era verdade o que tinha acontecido! Não poderia ser verdade! Mas era! Agora o emprego estava perdido. Faculdade? Perdida também. Como estudar sem emprego?

 

 

Fora errado, sim, fora errado o que fizeram. O amor então era um erro? Não, o amor não era um erro. “Pecado é não saber amar”, lera, não lembrava onde. Seu amor não era um pecado. Pecado foi a fuga, o crime, o aborto.

 

 

Admitia para si mesmo que não a amava, deveria ter sido mais gente, mais homem e ter saído da vida dela há mais tempo. Mas não saíra. Não, ele não era um forte. Continuaram juntos porque quando se desentendiam não suportava vê-la como a um frágil barquinho dançando nas águas de um mar turbulento. Uma ocasião a separação foi mais longa. Tinha certeza de não ser o único na vida dela. Havia o pai de Fabíola. E muitos mais, talvez. Arrependeu-se depois em ter sido rude com ela.

 

 

Em uma trágica noite voltara correndo quando Márcia tomara comprimidos demais para dormir… ela já havia ameaçado fazer algo assim se ele a deixasse. Não acreditou. Desta vez era sério. Ela poderia ter morrido… só porque o orgulho dele, o tolo e pueril orgulho dele foi capaz de imaginá-la com outro.

 

 

 

Por infindáveis horas Gabriel permaneceu ao lado dela, segurando suas pálidas e gélidas mãos. E o sorriso dela foi imenso, quando, entreabrindo os olhos, viu-o ali, barba crescida, denunciando o tempo da espera, o tempo do retorno dela à vida. Deus! Ele gostava mesmo dela! E quanto! Não, não era o medo de levar a morte dela em sua consciência. Não, era amor. Mesmo!

 

 

Agora via tudo com clareza. Jamais deveria ter duvidado. Quantas vezes, ao tomar a pequena Fabíola nos braços, ficara a imaginar como seriam os filhos que teriam… não sabe explicar porque ficou em pânico quando soube que ela estava grávida. E a pílula? Esquecera de tomar um dia. Como iria esquecer… ela… logo ela… Queria forçá-lo a uma decisão? Gravidez premeditada? Mas com ele, um joão-ninguém? Dúvidas e angústias roendo intensamente.

 

 

O pesadelo ficando a cada dia mais forte. O filho, perdido. O emprego, perdido. Estudo, interrompido. Mas, o amor não seria. O amor, não! Compreendia agora que a amava demais para deixá-la ir-se assim. E esse amor não iria se diluir no vazio.

 

 

Seus momentos tinham sido tão lindos. O início. O encantamento. Há quase um ano. Festa de Natal no Hospital. Ela viera. Ainda não trabalhava lá. Quanta coisa a preparar. E ela junto. Ajudando. Enfeitando a árvore, a capela, na compra dos presentes para todos. A música na hora da Missa num coro ensaiado. Algumas garotas acompanhando ao violão… e ela cantando junto.

 

 

Festa findando. Poucos ficaram. Eles dançando, dançando… quando perceberam estavam abraçados, num longo beijo. Depois outros e outros mais. E mais outros. O sol de dezembro chegou encontrando-os ainda juntos. Juntos, no meio de muitos que ainda comemoravam a festa de Natal.

 

 (Continua)

 

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