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E continuam os trens em seus trilhos…

Estação de Marcílio Dias/Acervo de Fátima Santos

Adair Dittrich segue crônica sobre os bons tempos das ferrovias                                                                                                                            

 

Para os que ficavam, soluçante era o som das rodas sobre os trilhos…  o som das engrenagens de uma locomotiva a se mover, lentamente, deixando para trás lenços abanando, lenços enxugando lágrimas…

 

 

Para os que partiam, soluços misturavam-se ao ardor da fumaça, ao lúgubre som das ferragens que rangem…

 

 

Tão diferentes estes sons daqueles que, outros tantos, juntos, felizes, seguiam, em dias festivos, em dias de folga, em tempos de férias.

 

 

O trem não era apenas um concreto enfileirado de vagões que, sem vida, deslizava pelos trilhos. O trem era a vida. Porque com ele, e por ele, a vida corria.

 

 

Lembranças desta vida que, com tanta frequência, eu vislumbrava enquanto o comboio galgava espaços, atravessando campinas, ultrapassando rios, contornando serras…

 

 

Poderia ser uma curta viagem. Como as que fazíamos nos dias em que aniversariavam nossos padrinhos que moravam na então vizinha vila de Três Barras.

 

 

Era sempre um alegre ir e vir. Entrávamos no trem na estação de nossa terra e, em apenas quinze minutos, desembarcávamos lá naquele território que ficava além dos dois rios.

 

 

Quase correndo, para logo se chegar à casa dos padrinhos. Que ficava num pedaço de chão de terra escura, quase preta, no chamado Quadro da Lumber, o espaço onde moravam os que na grande serraria trabalhavam. Era só entregar os presentes, dar os abraços e ir brincar com os amigos. Depois o esperado almoço de festa e assistir a um filme no cinema ao lado.

 

 

Antes de corrermos para a estação, a fim de tomarmos o trem de volta para casa, havia, ainda, tempo para participarmos do grande café da tarde, café que deixou na alma o aroma, o sabor e as reminiscências de doces e salgados inigualáveis. E então o retorno. Num instante passavam-se os rios, os viadutos e as pontes.

 

 

As viagens longas tinham outro matiz. Eram mais raras. Eram as nossas viagens para Curitiba, Joinville ou Ponta Grossa. Quase que somente nas férias.

 

 

Devido à poeira da estrada, e também às cinzas e às brasas, que das locomotivas a vapor, os ventos jogavam para dentro dos vagões, quase todo mundo viajava trajando um longo guarda-pó por cima das vestes habituais. Que, na maioria das vezes, era de cor beige. Parecia que todo mundo pertencia a um mesmo colégio vestindo um uniforme de viagem.

 

 

A festa já começava antes do embarque. Não era o arrumar de malas o principal. Eram os preparativos para o que se comeria durante. Preparar pacotinhos com sortidas balas e a cesta com os sanduíches, os pastéis e a indefectível galinha com farofa. Não poderia faltar uma garrafa térmica para o café a ser tomado na longa estrada.

 

 



De muitas eu via sair apenas água fervente. Que enchiam cuias para que o mate quentinho pudesse ser saboreado. Muitas vezes eu vi as garrafas térmicas e ou umas grandes canecas de metal ser preenchidas com água borbulhante que era obtida na própria maria-fumaça. Água que, através de uma torneira, saía do bojo da grande máquina, espargindo seu vapor, em altíssimas temperaturas, em todas as direções.

 

 

O trem tinha vida. O trem era a vida. Para ir a Curitiba ou a Joinville, passava-se o dia todo dentro dele. Conhecendo pessoas. Conversas infindas. Embevecendo-se com novas paisagens. O trem saía de minha vila, normalmente, às dez horas e quarenta minutos da manhã. Aportava-se em Curitiba, às sete horas e trinta minutos da noite e, em Joinville, quando já era noite, também, e o relógio da estação com seus ponteiros a nos dizer que eram nove horas.

 

 

Parava sempre alguns minutos nas estações dos pequenos povoados. E eram muitas. Parava em torno de uma hora em Mafra. Porque lá era um importante entroncamento. E necessária era a troca entre os comboios. Então as manobras eram demoradas. Enquanto isto as pessoas poderiam almoçar no restaurante que funcionava junto à rede ferroviária.

 

 

Nós aproveitávamos este tempo para visitarmos as famílias de meus tios, que também eram ferroviários, como meu pai, e que moravam pertinho da linha do trem.

 

 

Na estação de Engenheiro Bley havia uma importante conexão com os comboios que de Curitiba saíam rumo a São Paulo e ao norte do Paraná. Mas, para quem saía de nossa região e que para aqueles lados precisasse ir, deveria fazer uma baldeação. Ou seja mudar, não só de comboio, mas de vagão também.

 

 

E, no decorrer de uma viagem, muitas eram as novidades, muitas eram as variantes. Diferentes figuras pelos corredores desfilavam. Ou eram pessoas que se dirigiam aos lavatórios. Ou que precisavam esticar as pernas. Ou ainda outros que a serviço, um a um, todos os vagões percorriam.

 

 

Passava o chefe de trem solicitando as passagens ou os passes. Passe-livre era o bilhete, cortesia da rede aos ferroviários. Mas havia, também, um outro, destinado aos familiares dos obreiros da estrada de ferro. Chamava-se passe, também. Tinha um valor quase simbólico, apenas um quarto do preço normal.

 

 

Às vezes passava um fiscal de trem, o temível homem do boné verde. Temível por aqueles que não portassem um documento comprovando que haviam pago o preço da viagem. Temível por aqueles que, do chefe de trem conseguindo esconder-se, vagavam entre um carro e outro, mas, se pegos pelo homem do boné verde, seriam obrigados a desembarcar na próxima estação. Não importava onde ela se situasse, se em uma cidade ou em meio a um inóspito matagal.

 

 

Passava o jornaleiro. Que vendia jornais e revistas. E bilhetes de loteria também. Alardeava em alto som os números da sorte que somente ele tinha para vender. E anunciava também as manchetes dos jornais do dia. Claro, que no caminho que ia de União a Curitiba e ou a Joinville, seriam as notícias da véspera.

 

 

Passava o homem do buffet que era chamado de Bifê, assim como se fosse o nome dele ou o de sua profissão. Que ofertava uma variada e colorida gama de doces e frutas. Tudo devidamente acondicionado em uma bandeja retangular de madeira. Que ele pendurava em seu pescoço por meio de uma grossa correia de couro. Um deles era o mais risonho. Seus alvos dentes destacavam-se de sua reluzente cor escura. Ficou conhecido por Gibi, apelido que o acompanhou pela vida.

 

 

Encontrei-me, muitas vezes, com o velho Gibi, com os cabelos agrisalhando, mais avantajado de corpo, servindo como garçom, primeiramente, em uma churrascaria e doutras vezes em alguns eventos sociais em Curitiba. Do mesmo jeito simpático. Com o mesmo sorriso cativante. Com a mesma cortesia que sempre o caracterizou.

 

 

No caminho a Curitiba, o trem passava pela Lapa. Terra natal de meu pai. E na estação sempre o meu tio Juca nos aguardava com as gasosas e o vinho de maçã de sua fabricação. Gasosas que já tomávamos no trem. E o vinho que tinha endereço certo em nosso destino.

 

 

O som das rodas sobre os trilhos…  o som das engrenagens de uma locomotiva, lentamente, a deslizar… sons de saudade… sons que ainda poderiam estar movendo a vida. A vida dos trens. A vida…

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