Dias negros que quero esquecer

Leia a segunda parte da crônica de Adair Dittrich sobre a ditadura militar

 

 

Naquele tempo não tínhamos aparelho de televisão em nossa casa. E nem se pensava ainda naquelas antenas, que mais que antenas, torres pareciam, encarapitadas pelos telhados.


 

 

O óbvio era chegar em casa após um dia de intenso trabalho e ler. E ouvir rádio. Ficava no consultório, muitas vezes, até muito tarde. Nunca sabia se primeiro jantava, se primeiro tomava banho ou se primeiro ficava jogada sobre uma poltrona a fim de apaziguar mente e músculos exaustos após tão intensa jornada. E depois de tudo, em meu quarto, relaxada eu me deixava ficar, ouvindo melodias orquestradas que já sabia, de longa data em que emissoras de rádio procurar. Enquanto as teimosas pálpebras não se fechassem, eu estudava casos clínicos que haviam ficado em aberto.

 

 

Não seria diferente aquela noite de 31 de março do ano de 1964. Mas algo diferente sucedeu. Dormi ouvindo o costumeiro programa de músicas que àquela hora da noite a rádio Guaíba de Porto Alegre apresentava. O livro científico cai-me das mãos num cochilo. A música continuava. O sono arrebatou-me. A música continuava. E eu não desligava o pequeno rádio de pilha à cabeceira de minha cama. Um leve acordar na madrugada e a interminável seleção de melodias, sem parar, sem parar…

 

 

Até que, assim de repente, às seis horas da manhã de um inusitado primeiro de abril sou acordada pela tonitruante voz de um locutor narrando os fatos que haviam acontecidos entre a noite da véspera e aquela madrugada.

 

 

Levantei-me às pressas, desci as escadas correndo e encontro minha mãe e minha irmã Avany, ao lado do grande rádio que ficava na cozinha. Não estávamos entendendo nada.

 

 

A vida continuava. Fui para o hospital. E então lá o meu colega Adir Seleme contou mais alguma coisa. As notícias eram desencontradas.

 

 

Foi no correr dos dias que a história foi se delineando para mim. Foi no correr dos dias que fiquei sabendo dos famosos grupos dos onze. Algo do qual eu nunca ouvira falar e nem para que serviam eu sabia.

 

 

Mas… eu tinha um irmão que era advogado de um sindicato de mineiros da zona carbonífera do sul de nosso estado.

 

 

E no correr dos dias o mês de abril chegou ao fim. E com ele o famoso cerco à minha vila. A manhã que não me sai da memória. A manhã em que coturnos sujos entraram em nossa casa em busca de meu irmão. A manhã em que minha mãe foi acometida por um infarto agudo do miocárdio e ficou à beira da morte… A manhã em que meu pai sofreu uma queda, fraturou o úmero e um câncer que nunca mais dera sinal de vida retornou com toda a sua força. Um câncer que o corroeu e o levou embora em menos de vinte meses.

 

 

Tive que me apresentar ao comando do exército sediado na vizinha cidade. E do ranzinza coronel comandante ouvir sermões e admoestações que eu nunca entendi.

 

 

E como o rastro que deixam as lesmas por onde passam a notícia de que éramos personas non gratas pela cidade se espalhou. Eu já podia regressar para casa às 4 horas da tarde. Porque o meu consultório, antes sempre lotado, ficara às moscas. Era o medo que grassava entre as pessoas. O medo de serem vistas em um local onde clinicava alguém que já tinha sido chamada ao quartel. O medo de serem vistas ao lado de alguém que tinha um irmão procurado pelas forças verdes porque militava em um exército dito vermelho. O medo de serem vistas ao meu lado, e, repentinamente, por esta lama ficarem conspurcadas.

 

 

Um fato que poderia ter sido o mais acabrunhador, o mais aviltante, o que poderia ter me levado a atos impensados, foi, no entanto, penso eu, o que me levantou perante os olhos da sociedade, que mudou um pouco a visão e o conceito da história, que fez com que muitos me olhassem de outra forma.

 

 

Era em torno de meio-dia de um dia daqueles tenebrosos, talvez, ainda em meados de maio. Não recordo exatamente a data. Retornava eu do hospital quando alunas do colégio onde eu estudara, começaram a apedrejar o carro que eu dirigia. E, claro, alguns impropérios o vento trouxe até mim.

 

 



Retornei sobre os meus passos. Ou melhor, virei o volante e fui falar com Madre Maria Albertina Bischoff, superiora do educandário e das Irmãs Franciscanas de Maria Auxiliadora, que acolheu as minhas lágrimas com seu meigo sorriso, em seus braços.

 

 

Contou-me ela que, exatamente, naquela manhã, um certo capitão Schmidt passara, para todas as alunas, um filme alucinado, contando os horrores que se fazia na então União Soviética. Provavelmente imagens de guerra. Mas que incutira na frágil mente das adolescentes de então que os vermelhos “comiam criancinhas”… Não sei se este verbo se refere ao ato de ingerir algo como um alimento ou se a sua conotação estava ligada a um termo pejorativo…

 

 

Os pais das alunas fizeram fila em meu consultório para pedir desculpas e tentar amenizar o espetáculo do final daquela manhã tão triste.

 

 

Mais as nossas Irmãs Franciscanas por nós fizeram naqueles dias cinzentos. Porque elas me conheciam e conheciam a minha família e não tiveram medo de se solidarizar com as nossas angústias.

 

 

Alguns meses depois, com Madre Albertina e mais outra freira, seguimos rumo ao Rio Grande do Sul. Creio que elas me acompanharam nesta viagem, como minhas santas guarda-costas de hábito marrom. Deixei-as na casa delas em Passo Fundo e, com os parentes de Irmã Nívea, a Porto Alegre segui ao encontro de meu mano.

 

 

As Irmãs queriam que num convento da capital gaúcha, do qual era superiora uma prima de Madre Albertina, o meu irmão ficasse albergado. O que ele não aceitou, claro! Mas desde então as duas Madres trocavam cartas com muito mais assiduidade. Porque dentro delas seguiam as que mandávamos para o meu irmão e as que dele recebíamos.

 

 

E, para completar, no ano seguinte Madre Albertina convida-me par dar aulas de Puericultura para as alunas da Escola Normal. Foram anos magníficos onde passei os meus conhecimentos para um infinito número de jovens ávidas pelo saber.

 

 

Foi um tempo em que pude mostrar ao nosso pequeno mundo quem eu sou e para que vim.

 

 

Em contrapartida, do outro lado dos bastidores, a perseguição sem tréguas em cima de nossa família continuava.

 

 

Em uma ocasião fomos procurados por um advogado de Curitiba, colega e amigo de meu mano. Havia um processo correndo naquela região militar. Esse advogado representaria o Aldo e, numa dessas conversações entre defesa e acusação, inerentes em todo processo que corre pelas instâncias civis e militares da vida, nosso amigo sentiu que uma propina estava sendo solicitada. Valores combinados, levei eu mesma, em pessoa, a vultosa importância pedida pelo promotor militar para amenizar a acusação e solicitar ao júri a absolvição do réu. O que aconteceu. Aldo foi julgado inocente perante um tribunal militar, com juiz militar, com um júri formado por militares, com um promotor militar.

 

 

Eu estava lá naquele dia e naquela hora. Com minha mãe. Junto conosco minha prima Ruth e seu marido Rui Vieira que tinham visto, por acaso, nos jornais, a publicação daquele julgamento.

 

 

Muito ainda a ser contado sobre os dias cinzentos que tão duramente marcaram nossa vida e a vida de tantos.

 

 

Eu pensei que o meu poço de lágrimas estivesse exaurido e que elas não mais conseguissem escorrer por minha face. E escrevo isto chorando… Porque dias negros como aqueles eu não imaginava mais presenciar em nossa amada pátria. Mas…

 

 

Pensei que talvez este seja meu último texto… Mas então me lembrei que há tempo ainda até 31 de dezembro.

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