Deslizando sobre o gelo…

Geada registrada no ano passado em Canoinhas/Fátima Santos

Adair Dittrich escreve sobre os invernos de sua vida                                                                          

 

Era um tempo, há muito, tempo em que o frio era mais intenso. Era um tempo, há muito tempo, em que a temperatura começava sua queda já na despedida do mês de março. Era um tempo de um tempo gelado que adentrava outubro.

 

 


Era um tempo de um sol que, intensamente, emitia seus raios de luz e calor, descrevendo a cada dia, uma curva mais curta pela abóboda celeste. Sol que somente aparecia nos dias em que o intenso nevoeiro permitia. Nos dias em as nuvens escuras e carregadas de água cancelavam seu roteiro por nossas vilas.

 

 

Mas, havia dias, muitos dias, em que elas, as nuvens, deixavam-se flutuar pelo nosso espaço, fechando-se por completo, não deixando abertura alguma para que os raios do nosso astro maior por elas pudessem passar.

 

 

Era um tempo de geadas constantes, diárias, seguidas. Um branco lençol estendia-se diante de nossos olhos, perdendo-se no horizonte além.

 

 

Um gelo escorregadio cobria as poucas calçadas, as pedras britadas das ruas, a terra que nos circundava. Pelos barrancos e escarpas sombreadas, estalactites e estalagmites formadas pela congelação da água, extasiavam nossos olhos por dias e dias seguidos.

 

 

Em muitas manhãs as vidraças do meu quarto pareciam-me foscas, impedindo-me de vislumbrar a brancura que se estendia pelo jardim e pelos campos mais além. Um ofuscamento que era causado pelo congelamento da umidade condensada na parte interna daqueles vidros.

 

 

Quando, naqueles dias invernais, as nuvens negras acumulavam-se nos céus, prenunciando intensas tempestades, nós já sabíamos que não seria apenas água que do alto cairia. Nós já sabíamos que, naquelas baixas temperaturas gotículas de gelo despencariam sem cessar, por horas e horas.

 

 

E havia o nevoeiro congelado envolvendo-nos em todas as horas do dia. Uma névoa úmida, carregada, que parecia despejar quase microscópicos grãos de arroz sobre a terra.

 

 

Em plena manhã de um sábado de agosto, há mais de cinquenta anos, a negritude que se estendia pelo céu de nossa vila era de uma intensidade jamais vista depois do raiar do dia. A temperatura, nos termômetros, não alcançava o patamar do número zero na escala Celsius. A geada aparecera em sua total majestade.

 

 

Então eles começaram a aparecer. Primeiro surgiram as gotas de água congelada. Não era granizo.  Depois a imagem mudou. Não mais as transparentes e translúcidas gotas de água cristalizadas pelo frio intenso. Eram pequenos tufos de algodão que o vento levava para todas as direções. Voluteavam pelo ar em grande quantidade, formando um balé fantástico, numa dança gélida e sensual, até que vencidos pela gravidade amontoavam-se no solo. E lá estendidos, por muitas horas permaneceram.

 

 

O espetáculo não foi de longa duração. O clímax pouco durou. E o branco lençol diferente que a nossa terra cobria, em pouco tempo desvanece-se. A primeira neve que eu vi descer do espaço em minha vila. Um espetáculo que não foi de longa duração, mas que, inesquecível ficou na memória de todos os que o vislumbraram.

 

 



Aquele dia marcou também pela nossa expectativa em ver, uma vez mais, a dança de flocos pelo ar. A temperatura estacionara em apenas um grau centígrado acima de zero no decorrer de todas as horas que se sucederam. Temperatura não compatível com o despencar de mais neve. O sol não surgiu em momento algum. Passamos o dia sob uma névoa intensa, sob um frio intenso, mas a visão tão esperada não retornou.

 

 

Não tínhamos lareira, ainda, em nossa velha casa de madeira, em Marcílio Dias. Mas, a maior parte daquele dia foi passado na cozinha, em torno do grande e aconchegante fogão de lenha.

 

 

O triste, para mim, naquele dia, foi marcado por um atendimento a uma senhora, com insuficiência cardíaca, que morava, com seus filhos, em uma casa de madeira que ficava quase ao lado da serraria. Uma casa, dentre as muitas que naquela rua se enfileiravam. Uma casa sem vidraças. Para clarear o quarto onde jazia a enferma, necessário era abrir a janela feita de tábuas. Das mesmas tábuas com que fora a casa construída. Descerrando-a entrava a claridade, sim, mas o vento gélido também. Frestas entre as tábuas das paredes, frestas no assoalho, frestas no teto. E o vento que lá fora assobiava, multiplicava-se em seu interior.

 

 

Necessário e urgente levá-la ao hospital, onde, por dias, ficou internada.

 

 

Se, ao de lá retornar, levei algum tempo, quase debruçada sobre o nosso fumegante fogão, para aquecer-me, fiquei a imaginar como viviam os que lá, em tão precárias condições moravam…

 

 

E foi naquele entardecer de sombras e frio intenso que precisei correr, novamente ao hospital a fim de atender a uma menininha que viera ao mundo três dias atrás. Tudo decorrera com a maior normalidade por ocasião de seu nascimento. Ela e sua mãe já se encontravam em casa, quando um grave problema ocorreu com sua respiração. No instante em que eu a examinava sumiram os batimentos cardíacos, sumiram os movimentos respiratórios.

 

 

Foram instantes cruciais.  Elizete, era a preciosa atendente de enfermagem que naquela hora me auxiliou. Correndo foi ela ao centro cirúrgico pegar a maleta onde eu guardava meu material de anestesia. Enquanto isto, através de uma respiração boca a boca e massagem cardíaca externa retorna a cor ao corpo de nossa menininha. Torno a ouvir os preciosos sons dos batimentos do seu coração. Após efetuar una intubação oro- traqueal foi, com o oxigênio enviado aos seus alvéolos, sob leve ventilação, que a vida se manteve.

 

 

Foi num segundo, (porque é sempre em um segundo que esta fatalidade ocorre) que a energia elétrica deu uma de suas costumeiras fugas para longe de nosso convívio. Apagão geral. No hospital e na cidade. Não havia gerador. Ainda. Sob a luz de velas e lanternas, quase na escuridão, continuamos.

 

 

E foi ali, no leito em que se encontrava, que aquele pequeno ser recebeu o batismo pelas mãos de sua mãe. Arrepio-me a cada vez que me lembro da imagem de minha amiga Maria Regina Bolivar Moreira de São Clemente pegando um copo, enchê-lo com água da pia no banheiro ao lado. Vejo-a, tentando ocultar seu desespero, com as emoções estampadas na face, demonstrando uma fé inabalável, derramar aquele líquido sobre a frágil fronte de sua filhinha e proferir as palavras sacrossantas que em muitas celebrações batismais eu já ouvira. E batizou-a com o nome de Cecília Inez.

 

 

Tínhamos uma incubadora, antiga já, mas que ainda ajudava, e muito, na recuperação de recém natos que ao mundo chegavam em condições precárias. Que funcionou, então, com muitas bolsas de água quente para aquecer aquele frágil corpinho que quase gelado chegara às minhas mãos.

 

 

Era um tempo, há muito tempo, em que o frio era mais intenso. Era um tempo, há muito tempo, em que deslizávamos, como malabaristas sobre o gelo, na tentativa de, nas mais precárias condições, salvarmos vidas e amenizarmos dores.

 

 

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