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A cura através do amor

Um abraço que mudou uma vida                                                                                                                                                            

 

Juliana Ribeiro Borges*

 

Eu estava sentado após um longo dia de calor. Em uma das mãos meu instrumento de trabalho, o violão. Me sentia exausto, suado com o calor daquele dia que beirava os 40º, eu imagino. Mas a sensação térmica era muito pior, pois meu jeans surrado e minha camisa meio desbotada pareciam grudar em meu corpo. Alguns dias da semana me apresentava em um shopping para levantar algum dinheiro. Meu sonho era tornar-me um músico, mas isso dependia mais de sorte do que talento.

 

 

De repente ela se aproximou, com o seu riso largo, cabelos longos e ruivos e olhos claros e brilhantes. Olhou para mim sorrindo e falou olhando em meus olhos. Eu conheço você, estou quase lembrando. Sim! É você! Adoro suas músicas, sempre as ouço. Vamos tirar uma foto!

 

 

Ela se aproximou e me abraçou tão forte que eu me senti protegido. Senti seu perfume delicado e um calor aconchegante. Eu poderia viver dentro daquele abraço!

 

 

Tiramos a foto, ela se afastou um pouco e sentou-se em uma cadeira à minha frente. Passou seus dedos entre os cabelos e caiu uma mecha e ela naturalmente falou – caiu uma mecha do meu cabelo! O seu irmão estava próximo e disse – deve ser por causa da “quimio”. E ela me olha e falou para eu não me assustar por que ela não estava assustada. Conversamos um pouco sobre os vídeos que eu havia postado em uma página da web. E eu me sentia envaidecido por saber que ela os havia visto e mais, ela gostava das músicas e as sabia de cor.

 

 

O tempo passou rápido e quando percebemos já era noite e hora dela ir para casa. Trocamos telefone e combinamos de nos ver novamente. Era tão maravilhoso estar ao seu lado que eu parecia conhecê-la a minha vida inteira.

 

 

No outro dia fui apanhá-la em casa. Ela abriu a porta e eu não pude deixar de perceber seus pais espiando pela janela. Ela também havia percebido e continuou sorrindo ao meu encontro e me cumprimentou com um delicioso abraço. O seu pai aparentando uns 70 anos, cabelos brancos, estatura mediana e um pouco acima do peso sorriu com um ar de satisfação para mim e fez um sinal de positivo, confesso que fiquei meio encabulado. E então ela nos apresentou de longe e sua mãe também sorriu, mas com um ar meio preocupado. Sua mãe me pareceu muito dócil e preocupada, talvez um pouco desconfiada. Os dois usavam roupas tons pastéis, mas não era feio.

 

 

Passamos por alguns lugares e paramos fazer lanche. Na sua companhia tudo era prazeroso e espontâneo, eu não me sentia tímido e nem nervoso. Nossa conversa fluía naturalmente e estávamos sempre sorrindo enquanto falávamos.De repente ela passou as mãos nos cabelos e falou:

 

 

– Esses cabelos não são meus! É uma peruca, eu gosto deles, me sinto bem e gostaria que você soubesse.

 



 

Confesso que essa declaração me pegou de surpresa, mas pedi a ela para vê-la sem a peruca se ela não se importasse. E ela não demonstrou nenhuma reação negativa, sorriu e retirou a peruca.Ela era linda. Seus cabelos pretos bem curtinhos realçavam o seu rosto em uma harmonia fascinante.

 

 

Fiquei vidrado por um momento até que falei que ela era perfeitamente linda! E pela primeira vezvi o seu rosto ruborizar. Levei-a para casa, pois eu tinha uma apresentação marcada para mais tarde. Eu a convidei e ela aceitou.

 

 

Quando comecei a cantar ela estava lá, e eu cantei para ela, cada música, cada melodia. Cantei como eu nunca havia cantado antes, com o coração e com a alma. Nossos olhos se encontravam e eu parecia flutuar. Eu nunca havia me sentido assim, como se tudo estivesse na mais perfeita harmonia. O show terminou, me aproximei daquela bela moça agora com os cabelos curtos e saímos caminhando até pararmos em frente a sua casa e corajosamente roubar-lhe um beijo, o mais belo e apaixonante beijo. Sim! Eu a amava desde o primeiro instante que eu a vi.

 

 

Começamos a nos encontrar todos os dias, arrumei um emprego na mesma escola onde ela lecionava algum tempo atrás. Comecei a dar aulas particulares de música e de vez em quando me apresentava em algum barzinho.Ela era professora e atendia crianças com necessidades especiais, prestava serviço voluntário em um hospital na ala infantil e encantava com a sua doçura por onde quer que elapassasse.Seus pais a amavam e só queriam vê-la feliz e sorrindo, eram muito bem humorados e sonhavam com o seu casamento e, claro, netos.

 

 

Nós vivemos felizes por muito tempo, não nos casamos e nem tivemos filhos, passamos momentos complicados cada vez que o câncer voltava. Mas o amor é tão maravilhoso que ele foi capaz de curar. Infelizmente não o câncer, pois ele afetava o corpo físico e levou a minha amada para um lugar melhor. Mas curou o meu coração tão amargurado e triste e também minha alma que há muito tempo, antes de eu conhecê-la, não tinha mais o gosto pela vida. O seu amor me curou e me trouxe várias lições.

 

 

Aprendi tanto nesse tempo que vivemos juntos, que valeu pela vida toda. Não lamento sua morte, pois ela sempre está presente e sei que um dia nos uniremos novamente. Ela cumpriu a sua missão aqui e eu ainda estou cumprindo a minha.Mas acima de tudo aprendi que o amor não é físico que podemos amar as pessoas ao nosso redor, desejando o bem, ajudando e compartilhando a nossa vida.

 

 

Muitas vezes não precisávamos de palavras para demonstrar o quanto nos amávamos bastava um olhar, um sorriso, um abraço ou apenas o silêncio.

 

 

Meu nome é Juliana Ribeiro Borges, sou casada, professora de Educação Infantil e moro em Três Barras, no estado de Santa Catarina, no interior do Brasil.

 

 

* Juliana Ribeiro Borges é casada, professora de Educação Infantil e mora em Três Barras

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