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Carta para uma Primeira Dama

Leia a coluna do fim de semana de Adair Dittrich                                                                                         

 

Senhora:

Estou aqui sentada, branco papel a minha frente, ainda em branco, e mil ideias apenas ajuntando-se, aglutinando-se apenas na cabeça como se em um labirinto a procura do melhor estivessem a fim de lhe contar uma história. Uma história que é minha, uma história que é nossa.

 

Minha história, senhora, não é curta… não é lenta a minha história e nem somente de passagem ela é.

De passagem estou eu, não a história.

Estou aqui sentada a escrever, como há muitos anos atrás já o fazia, para os meus rabiscos que eu pensava serem rabiscos de poemas.

Hoje, senhora, aqui tentarei, nestas formas nada poéticas de rabiscar, contar-lhe de fatos e coisas que muito me entristecem e que, sei, às suas mãos estão, diariamente, chegando.

No entanto, espero, senhora, que tenha a paciência dos fortes e continue lendo.

Lendo do triste que tenho a contar.

Analisando a angústia das misérias que estou a analisar.

Sei, senhora, que seus momentos a sós de reflexão, são cada vez mais raros, como mais raros são os momentos em que vive agora para si mesma desde que assumiu a sua postura ao lado de nosso presidente. E não somente agora, mas desde que a sua vida pública teve início.

Mas, senhora, eu tenho histórias para contar…

Eu vejo crianças nascendo famintas…  saídas de um ventre de mães desnutridas.

Eu assisto crianças desnutridas a procurar, sofregamente, um seio esquálido, murcho e vazio.

Eu acompanho mães de olhos encovados, com um filho ao colo, outro pequeno ainda segurando em suas mãos e outro já no ventre a caminho da luz.

E acompanho-as, mães e crianças, mães-crianças, no ir e vir desesperado em busca do pão, em busca do leite, em busca da medicação, da roupa, do cobertor, da lenha e do fogo.

Senhora, nem lenha, nem fogo e nem coberta; nem pão, nem leite…

O que temos, apenas, é o atendimento e o remédio. Que jamais curarão esta fome crônica.

Mas, tenho, senhora, a esperança dos otimistas de que nesta terra há ainda tempo de se fazer alguma coisa. O que vejo a minha frente não são as últimas mães e nem as últimas crianças. Algo, sei, poderá ser feito…

Um começo… uma aurora… e depois um sol a derramar-se contínuo, cheio de benesses, pelos anos que virão.

Um começo… senhora, um começo que seja uma aurora.

Eu já poderia ter deixado de lado as minhas ferramentas e a minha luta. Mas a coragem invade minh’alma depois de vê-la, senhora, a comandar núcleos, pequenos núcleos que têm em seu cerne a incumbência de uma melhor vida levar ao nosso povo.

E daqui, deste nosso perdido e esquecido rincão, onde jamais chegou sequer um postinho da Legião Brasileira de Assistência…

daqui, deste rincão esquecido onde muitas pessoas de boa vontade se esforçam num noite-dia contínuo para um leve e curto bem estar de poucos…

e onde milhares de famílias esperam por um pouco de alguma coisa…

eu ouso roubar um pouco de seu tempo senhora, para que ouça ou leia, a história que tenho para contar.

Senhora,

faz tempo, parece que foi ontem, adormeci, sonhei e acordei médica…

mas o sonho continua… acordado e vendo esfacelarem-se entre os meus dedos todos os ideais.

Porque os meus ombros são frágeis.

Porque só com boa vontade, mesmo que haja uma grande força de vontade, não se tira leite de pedras e não se colhe pão nos abrolhos.

E o que eu tenho diante de meus olhos?

Uma população desdentada e faminta… que eu sonhara ver saudável e saciada.

São mais de trinta anos já, mais de trinta anos apenas de sonhos. São quase três décadas de vida dedicadas à saúde pública e ainda não desisti.

Mas, como eu dizia, senhora, o que tenho eu diante de meus olhos?

Uma população detentora da mais baixa renda per capita de meu pobre estado de Santa Catarina!

Uma mortalidade infantil que, há dois anos atrás, ocupava o segundo lugar no campeonato estadual.

Uma procissão de desempregados que se amontoam na periferia da cidade. Crianças de apenas quatro anos de idade mendigando pelas ruas, às portas dos Bancos, dos Super Mercados, dos bares, das lanchonetes, alimentando-se dos restos de comida atirados no lixo, nos monturos…

…  e a desnutrição aumentando,

… e a diarreia que se alastra,

… e a desidratação minando a saúde,

… e a morte ceifando vidas pequeninas, preciosas vidas que muito teriam ainda para ver e se encantar neste mundo.

Por isto, senhora, eu ouso chegar até o seu canto com os meus rabiscos nestes retângulos brancos de papel para lhe fazer um pedido. Que procure nos mapas este nosso perdido município chamado Canoinhas, cidade polo de uma microrregião com outros tantos irmãos iguais ao nosso em pobreza e esquecimento.

Por isto, senhora, eu ouso chegar para roubar seu tempo, precioso tempo, para pedir-lhe que volte seus olhos até esta terra que tem a Santa Cruz como padroeira, que já foi a terra do ouro verde, pelo verde de nossa erva-mate, e plante aqui a pedra de um sonho que precisa se tornar realidade.

Plante aqui, senhora, as bases de seu projeto…

Plante aqui o início do início do início…

Plante aqui a primeira semente da mais bela flor, da flor que irá alegrá-la nos dias futuros seus.

Plante aqui o seu projeto para que as nossas mãezinhas, as mãezinhas do hoje e as mãezinhas do amanhã possam receber o leite e o pão do corpo, o leite e o pão da alma, o leite e o pão da mente.

Para que as mãezinhas do hoje e do amanhã tenham um local aprazível onde possam aprender a cuidar de si e do ser que está em seu vente.

Para que as crianças que já nasceram, que já têm alguns dias, alguns meses ou alguns anos de vida e as que ainda estão por vir tenham um local onde, em tempo integral, possam permanecer. Um local onde terão o sagrado alimento para o corpo, o sagrado alimento para a alma, o sagrado alimento para a mente. Um local sadio para os seus folguedos. Um local onde haverá lenha e haverá fogo. Um local onde não faltará o agasalho e a coberta. Para que não sintam mais o frio físico que as atormenta e nem o frio do abandono que as diminui neste reino onde deveríamos ser todos iguais. Um local onde a igualdade impere e todas elas possam se sentir como dignas criaturas filhas do mesmo Pai que nos fez a nós todos como irmãos.

Senhora, desculpe estes toscos rabiscos que entram no branco do papel no meio da noite, para, repito uma vez mais, roubar o pouco e precioso tempo que tem.

Mas, senhora, falamos aqui na mesma linguagem de mulher para mulher e em cima de um bem comum, a causa de nossas pobres e abandonadas crianças.

Ouça-me, senhora e sonhe também o meu sonho, sonhe com este apelo.

Só o Pai a recompensará, creia, em forma de saúde e bem estar no mundo dos pequeninos.

Que Ele a ilumine.

Carinho,

 Adair, em algum dia do ano de 1989

 

(Rascunho de uma carta nunca enviada, no fundo das gavetas encontrado)

 

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