A caminho de Washington

Casa Branca, sede do governo estadunidense/Divulgação

Adair Dittrich conhece a capital dos Estados Unidos da América                                                      

 

 

Um jantar à moda do sul na residência de um casal de amigos de Ann e Walt Penny coroou a nossa despedida da Carolina do Sul. Deixamos a acolhedora Summerville em uma esplendorosa manhã. Tomamos o rumo da Cordilheira dos Apalaches. Não poderíamos deixar aquele território sem passar por elas.

 


 

Deslizávamos por rodovias sempre magníficas, que margeavam áreas reflorestadas por pinheiros. Entremeadas a elas plantações de tabaco, muitos aviários e centenas de jardins, todos com estufas adequadas que garantem a grande produção de exuberantes flores.

 

 

Laranjais também poderiam ser vislumbrados, não tantos quanto os da Flórida. E em muitos quiosques, na estrada, podia-se comprar o maravilhoso e adocicado suco natural, tanto em pequenos copos, como em garrafas e até em galões. Não perdi tempo, comprei logo um galão e mais uns copos de plástico. Teria suco para alguns dias…

 

 

Em nossa rota cruzamos por Greenville, uma cidade que fica situada praticamente nas faldas dos montes que pretendíamos visitar.

 

 

Almoçamos em um aprazível restaurante que ficava dentro do Falls Park. Um rio com quedas d’água, que corre no centro da cidade, conferindo-lhe mais cor, mais som e mais luz. Suas margens arborizadas garantem o eterno fluir daquelas águas cristalinas que serpenteiam entre seixos e pedras.

 

 

De onde estávamos já avistávamos, ao longe, na fímbria do horizonte, o desenho recortado das montanhas em contraste com o azul do céu.

 

Wikimedia

À medida que delas nós nos aproximávamos a sua exuberância fazia-se quase palpável. Rodávamos pela Blue Ridge Park Way, rodovia que tem seu nome ligado à sub cordilheira dos Apalaches conhecida como Cordilheira Azul. Saímos dela e tomamos uma colateral que nos levaria ao mais alto dos montes do leste do país, o Monte Mitchell.

 

 

Quanto mais nos distanciávamos do sopé da montanha e galgávamos altura, mais suspiros brotavam do fundo de minh’alma ao admirar tanta beleza.

 

 

Percebia-se, pela tonalidade de um azul do céu a cada vez mais forte, à medida que mais altitude ganhávamos, que a temperatura exterior estaria, gradativamente, diminuindo.

 

 

Foi o tempo de abrirmos a porta do carro, com o intuito de dele sair, para que a fechássemos de imediato. Ainda bem que havíamos deixado nossos agasalhos bem à mão.

 

 

O monte tem mais de dois mil metros de altura. Chegamos, no entanto, apenas até a área do parque que se situa muito perto do topo. Deixamos o carro na grande área destinada ao estacionamento de veículos, a altitude mais alta permitida para veículos. Mas, subir o restante até o pico seria uma aventura apenas para os aficionados do montanhismo.

 

 

Um maravilhoso parque. Com árvores milenares. Sequer uma folha de papel ou vislumbres de cacos de copos e ou de garrafas espalhados pelo chão. Limpeza absoluta. Um magnífico mirante que avançava sobre um precipício, assombrando os temerosos das alturas. Deslumbrante o panorama que se descortina, lá do alto, em todas as direções.

 

 

Uma construção rústica, como se fora uma grande cabana, destacava-se na parte mais elevada do platô onde deixáramos o carro. Não só ela, mas todas as demais que faziam parte do conjunto do parque foram erguidas com troncos de pinheiros superpostos horizontalmente. Um verniz conferia à madeira uma tonalidade escura, brilhante. A grande construção comportava não só o restaurante como também algumas lojas de suvenires. Corremos para dentro dela afim de nos abrigarmos do causticante vento cortante.

 

 

Após almoçarmos notamos que o clima amainara, a ventania cessara e foi, então, possível darmos um curto passeio, a pé, pelas encostas do monte, apenas para termos o prazer de ver o mundo um pouco mais do alto.

 

 

Descemos o monte em silêncio, como se em meditação estivéssemos, cada um de nós envolvidos, emocionalmente, com a magnitude da paisagem vista das alturas.

 

 



A tarde estava quase findando. Pernoitaríamos em algum hotel, dentre os muitos que margeavam o caminho que nos levaria à Virgínia, e, ao nosso próximo destino, a capital dos americanos do norte.

 

 

Todos os hotéis localizados nos trajetos das rodovias são chamados de Motor Hotel, ou seja Motel. Eram os nossos pousos nas estradas quando a noite chegava. Desta vez hospedamo-nos em um pertencente à rede Howard Johnson.

 

 

Na manhã seguinte, mais uma vez, aproveitei as delícias de uma piscina de águas azuis e de um sol inebriante, enquanto esperava que meus amigos saíssem do ninho.

 

 

Entre paradas para descanso nas áreas apropriadas da rodovia e outra para um bom almoço, observando a paisagem com olhos deslumbrados, fomos nos aproximando de Washington.

 

 

Já no hotel em que pernoitáramos na estrada fizemos uma reserva para outro da mesma rede. Não poderíamos correr o risco de andar pela cidade toda em busca de algum que estivesse de acordo com os nossos dólares e, ao mesmo tempo, nos oferecesse o mesmo conforto.

 

 

Era um prédio imponente, com muitos andares, mas com todas as cores e a característica das construções que identificam a rede Howard Johnson. Piscina na cobertura. Freezers horizontais, em todos os andares, produzindo, continuamente, cubos de gelo que, na mesma proporção de tempo eram consumidos pelos hóspedes.

 

 

Havíamos, já na véspera, escolhido o tour que compreenderia o mais importante da história da cidade. Então, cedo já, logo após o café da manhã, tomamos o espaçoso ônibus de turismo.

 

 

É impressionante linha reta que se via desde o Lincoln Memorial e se estende pelo Obelisco, Casa Branca e Pentágono. Visitaríamos tudo isto e após o almoço iríamos ver o Arlington National Cemetery.

 

 

A viagem pela Casa Branca é algo que nos leva à história da América. Quadros pintados pelos mestres da arte arrancam suspiros pela beleza e sensação de realidade. Foi ali, naqueles corredores, que comecei a sentir as primeiras pontadas na cabeça. Não conseguia mais prestar atenção, direito, às explicações de nossa guia de turismo, que, empolgada, ia narrando detalhes históricos.

 

 

Fazíamos parte do primeiro ônibus de turismo a ali chegar. Então, não se formara ainda uma fila para a visitação. Mas, já na saída, o cordão de pessoas rodeava o quarteirão onde se situa a sede do governo.

 

 

Passamos, então, para o Capitólio. Nada dele posso falar. Andava eu seguindo a manada. Com a cabeça já em turbilhão. Não eram apenas as muscas volantes que me toldavam a visão. Já a acompanhava todo um vespeiro.

 

 

Era chegada a hora do almoço. Levaram-nos para um restaurante com um grande avarandado que se debruçava sobre o rio Potomac. Lindo seria ficar ali olhando as águas a rolar não fosse a minha cabeça que já estourava. As imagens reais confundiam-se com brancas fantasmagorias à minha frente. E então, o inevitável que coroa estas crises, aconteceu. A náusea era tanta que nada que eu tentasse fazer a controlaria. Meu amigo Geraldo, atendendo a um quase mudo apelo meu, chamou um taxi a quem entregou o endereço de nosso hotel.

 

 

Foi o hotel mais bem aproveitado entre todos os que pelo mundo eu passei. Eu já levava comigo a medicação para as minhas inúmeras crises de enxaqueca, mas nunca os consumira na quantidade máxima permitida como naquela tarde. Foi a crise mais homérica de toda a minha vida. Tinha esperança de que os vômitos, já quase incoercíveis, deixassem, pelo menos, algumas moléculas dos derivados do Ergot, dos analgésicos e descontraturantes musculares, ser aproveitados pelo organismo, a fim de que a crise fosse debelada.

 

 

Quarto às escuras, aos poucos, os sintomas atenuavam-se e a síndrome parecia estar sendo debelada. O sono foi tomando conta, calmamente. Dormi no colo de minha Nonna Thereza, sentindo as mãos dela afagando os meus cabelos.

 

 

Não conseguia mais olhar, sem que as náuseas voltassem, para o galão de suco de laranja. Despejei-o, com alívio, na pia do banheiro.

 

 

No dia seguinte completei a visitação da parte histórica que deixara para trás.

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