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Belas imagens do mundo eu vi na Expo/67

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Adair Dittrich segue seu passeio pela Expo/67                                                                       

 

A visita que fizéramos ao Pavilhão dos Estados Unidos, ainda na noite de nossa chegada a Montreal, fora apenas um breve passar. Pessoas aglomeravam-se com o intuito de a tudo ver. Impossível observar detalhes. Então, após a minha demorada e inesquecível visita ao encantado pavilhão da terra de meus Nonnos Pedro e Thereza Gobbi, retornei para a grande bolha geodésica transparente, afim de melhor observar os avanços tecnológicos daquele grande país.

 

 

A exibição americana levava o nome de “Creative America” e fora projetada, exatamente, para ilustrar suas inovações tecnológicas e estéticas. A fim de que as pessoas melhor pudessem circular pelos vinte andares daquele imenso globo,que tinha um diâmetro de mais de setenta metros, havia um sistema de plataformas interligadas por escadas rolantes, além daquelas espiraladas de que já falei.

 

 

Claro que a arte cinematográfica, obrigatoriamente,era um dos pontos fortes. Mas, o que mais chamava a atenção era a exposição espacial. O homem ainda não havia pisado na lua, mas lá já se poderia apreciar um panorama lunar simulado.

 

 

Ao deparar-me com a paisagem exterior do espaço destinado à Tchecoslováquia um frisson fez-me ali permanecer estática. Vidro e cerâmica entre estruturas de aço. Não o vidro comum. O fino vidro da Boêmia imortalizado ao longo dos séculos. Entrei. Corredores iluminados pela luz do sol, que lá se infiltrava, através daquelas paredes. Um sonho. Miríades de cores dos próprios cristais lá expostos. Miríades de cores efêmeras que se alternavam à medida que os raios do sol incidiam sobre os cristais. Tudo eram luzes, eram cores, eram cristais. O arco-íris disseminado e multiplicado.  E, no meio de tudo, eu revoluteava qual borboleta ensandecida.

 

 

É óbvio que de lá não saí sem saborear alguma das deliciosas iguarias oferecidas em um de seus restaurantes. E pude então provar a inigualável Pilsen tcheca.

 

 

Ainda inebriada com os cristais da Boêmia, andando a esmo pelos espaços exteriores, deparo-me com as imagens francesas. A tarde já quase findando, o cansaço tomando conta, mas jamais eu deixaria de me embriagar com tudo o que a França estivesse mostrando no interior de seu pavilhão.

 

 

Não posso dizer o que mais fundo dentro dele me marcou. A enorme gama de perfumes que enchiam paredes, estantes e balcões envidraçados. Todos os aromas que desde há muito empolgavam os meus sentidos lá se encontravam. Frascos de todos os tamanhos e formas. O meu inseparável Miss Dior em destaque. E o número 5 de Chanel, sendo mostrado pelo olhar sorridente e erótico de Marilyn Monroe que o eternizou. Depois as coleções dos grandes mestres da alta costura em um contínuo desfilar. E em cada canto um bandoneonista executando as velhas cançonetas francesas mundialmente conhecidas.

 

 

A vida da França palpitava em tudo. Na poesia de Victor Hugo, de Musset, de Rimbaud… Nas pinturas de Rénoir, Dégas, Manet…

 

 

A noite chegara em Montreal. Mas, ainda muito havia a se ver. Eu almoçara em um restaurante italiano. Então, para encerrar o dia, procurei o espaço onde a Áustria exibia a sua produção cultural, científica e industrial. Para, ao final, saborear, em um jantar, as iguarias da terra de meu avô cervejeiro, de meu avô vienense Antônio Dittrich.

 

 

O pavilhão tinha paredes cristalinas, em forma de rochas e fora projetado para sugerir montanhas, pedras preciosas e campos de verde grama. Como o tema da Expo/67 era “O homem e seu mundo”, os austríacos mostraram sua música, sua literatura, suas pesquisas cientificas. E muito de música clássica tinham para exibir. De Mozart a Strauss, de Schubert a Haydn, entre dezenas de outros.

 

 

Não o dia inteiro, mas a intervalos regulares apresentava-se uma verdadeira orquestra formada por sinos e badalos com os mais diversos tamanhos, lembrando o contínuo som ouvido pelas montanhas austríacas, som que se propaga ao longe, o som dos cincerros a tilintar entre os montes.

 

 

E então fui apreciar as iguarias de um dos restaurantes da terra das valsas. Pratos vienenses autênticos. Garçonetes vestidas à moda das camponesas do Tirol. Hospitalidade perfeita. E valsas de Strauss a embalar o final de um dia que ficou marcado.



 

 

Havia já uma multidão de pessoas em frente ao portão de entrada da Exposição, quando eles se abriram, aos primeiros albores da manhã seguinte. Entre elas, nós.

 

 

Seria o nosso derradeiro dia ali. Já havia escolhido, com calma, na véspera, antes de dormir, os pavilhões que mais me interessariam visitar.

 

 

Comecei cedo com o de Cuba. País que sempre chamara minha atenção. Atenção multiplicada após Fidel. Atenção despertada ao tempo em que o mundo por ele torcia em suas peripécias em Sierra Maestra, tentando libertar sua terra de um ditador tirano e cruel. Precisava saber das coisas de lá. E a opção única, em tempos cinzentos por cá, seria esta providencial visita ao seu pavilhão. Que representava o espírito juvenil da revolução cubana, como era enfatizado em seus fôlderes.

 

 

Constava de uma série de figuras geométricas, de várias formas e projetadas em todas as direções. Construído em aço e alumínio tinha revestimento em vinil branco e cúpulas de plástico e vidro, multicoloridas. A intenção de haver sido elaborado neste estilo era a de, ao encerrar-se a exposição mundial, desmontá-lo, peça por peça e remontá-lo em Havana.

 

 

Seguindo o tema “O Homem e o Mundo”, a exposição cubana mostrava como era o seu país antes de primeiro de janeiro de 1959 e como se encontrava naqueles dias de 1967, com ênfase para o setor de educação, assistência médica e social.

 

 

 

Restaurantes serviam frescos frutos do mar trazidos diretamente das costas cubanas. Àquela hora matinal não seria possível saborear os famosos drinques, à base de rum, que lá estavam sendo servidos. Eram muitos e carregados de abacaxi, além de hortelã e muito limão.

 

 

Com a intenção de almoçar em um restaurante do pavilhão alemão, para lá me dirigi. Múltiplos caminhos para muito se ver. Passo pelas imagens que vi sobre coisas mais antigas, sobre arte barroca, sobre a música e sobre a literatura. Poemas de Schiller, escritos de Brecht, frases de Goethe… A história da música clássica de Bach aos modernos, passando por Mendelssohn, Wagner, Schumann e Beethowen.

 

 

Tanto lá a se ver com minúcias. A mesa de trabalho de Otto Hahn, local onde, em 1938, ele descobriu a fissão do átomo de Urânio. Os instrumentos ópticos e de precisão, especialidades alemãs. O batiscafo do suíço Picard, construído na Alemanha.

 

 

E, para culminar as minhas emoções, lá eu vi a primeira imprensa gráfica do mundo, a imprensa de Gutemberg, por ele montada há cinco séculos, fazendo cuidada e meticulosa demonstração.

 

 

Finalmente, dei-me conta de que precisava almoçar. Comida alemã de excelente qualidade. Deliciei-me com um belo prato com salsichas e batatas bem temperadas. Com a tradicional cerveja alemã que não poderia faltar.

 

 

Componentes das verdadeiras bandas de Munich lá se encontravam dando o imprescindível toque musical. Todos em seus trajes de gala. Camisas brancas. Calções de couro, com suspensórios enfeitados. E o que me causou mais espanto? A cor da pele de seus integrantes. Brancura ímpar. Alvos. Impressão que acabavam de sair de dentro de um pau oco. Onde o sol jamais penetrara. Mas as melodias que de dentro daqueles instrumentos saíam eram melodias trazidas das longínquas aldeias onde moravam todos os deuses bávaros.

 

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