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Aos Homens de Cáqui (I)

  Acompanhe homenagem de Adair Dittrich aos policiais                                                                                                                                                      

 

          (Texto escrito em junho de 1974)

 

Ela nasceu há quase um século e meio. Pequena. Assim como nasce um poema. Humilde. Ela é feita de Homens. Desconhece a letargia… É feita de mil coisas, mil valores… É o brio, é o ideal, é a ronda, a sentinela, o noite-dia, o sem tréguas… É o sono interrompido. É o símbolo de tudo o que protege e de tudo o que defende a nossa dignidade.

 

 

Impõe-se, para preservar. Encarcera, para separar o bom do mau. Quando chega, chega para participar. Depois, quando se vai, deixa para trás um rosto de liberdade, um cosmo de confiança, uma certeza de amparo.

 

 

Saudando-te, amigo de cáqui trajado, eu te agradeço. E te respeito. Pela fé que inspiras, pelo Amor que dás, pela Paz que instauras. Creio em ti para crer na Ordem. Creio em ti para que eu possa crer na ação da justiça. Creio em ti para crer num futuro mais humano e mais feliz.

 

 

Ainda ontem eras para mim o policial de minha pequena cidade apenas. De minha pequena cidade pacífica por natureza, aqui onde não terias, nunca, necessidade de aplicar todo o teu vasto conhecimento para a manutenção da ordem e a expansão do progresso. Mas, como tudo, a tua imagem também está sujeita à mutação.

 

 

Não sei se te importa muito ou pouco o conceito que fazemos de ti. Mas sei que te importa, e muito, o conceito que possas fazer de ti próprio.

 

 

Estudando a tua história vemos que ela tem marcas de heroísmos, inundada de sacrifícios e isto nos parece tão belo quanto a imagem colorida deste nosso país.

 

 

Há um território imenso onde continuas estendendo os teus passos de vigília. Anônima é a multidão que aguarda cada vez mais de ti, porque aprendeu a viver tranquila, a progredir sem amarras à sombra da tua proteção.

 

 

E tu, que vives continuamente conquistando o aperfeiçoamento numa luta sem tréguas, logo verás projetado no futuro o fruto de tua própria tarefa.

 

 

E os que vierem para burlar as leis encontrarão a muralha de tua presença.

 

 

E os que vierem para trabalhar em paz, encontrarão as mãos dessa lei estendida para eles e, por trás dessas mãos, a tua disponibilidade, o teu apoio.

 

 

 

És o guarda de trânsito que se desdobra para que os acidentes diminuam… ali, apenas a figura do amigo em meio à multidão anônima e estranha.

 

 

Já te vi tantas vezes, no cruzamento de um torvelinho de ruas, enroscado tal mosca em teia de aranha, conseguindo, com a calma e paciência que te é peculiar, desenlear, fio por fio, devolvendo a seu rumo certo, cada malha desta tão compacta rede.

 

 

Já te vi nas saídas de escolas, elástico e ligeiro, conduzindo crianças, de sarjeta em sarjeta, livrando-as do alucinado turbilhão dos roncos de motores e das buzinas catatônicas.

 

 

Já te vi, explicando caminhos, de ida e retorno,de mão e contramão, ao aflito campesino que chegava à cidade, em sacrossanta paciência, sem demonstrar cansaço, com teu sorriso de sempre, com tua voz amena de sempre, mesmo que a neurose já tentasse te atingir.

 

 

… e depois, muito depois, ao terminar o teu tempo, eu te vi vagando pela rua… e eras mais um rosto na multidão. Somente agora poderias, então, mostrar teu cansaço, a caminho do aconchego do lar.

 

 

… e em cada dia, igual assim, somes de nossa memória, como quem dobra uma esquina…

 

 

És o guarda rodoviário, incansável patrulheiro das estradas. Nas longínquas serras, nas ermas planícies, nos monótonos chapadões és o primeiro a socorrer as vítimas de um acidente.

 

 

Foi lá que eu te vi, como o anjo consolador, o enfermeiro único de uma hora incerta, a esperança derradeira.

 

 

Foi lá que tu camuflavas, num rosto de pedra, o horror que te ia na alma, ante o horrendo cataclismo que se abatera sobre os estranhos que cruzaram teu caminho, e conseguias, num arroubo de ternura, orientar o desespero para a luz.

 

 

Foi então que eu te vi, cavalgando em teu negro garanhão de rodas, silvando um antipático apito, atrás de meu carro que queria acompanhar o vento… e teu rosto logo à janelinha, mostrando um sorriso simpático demais que para que o som do apito se perdesse na desmemória. E falaste. E eu concordei. E mais falaste. E mais uma vez eu concordei. Como discordar do sorriso contagiante? Como discordar da palavra que é conselho? Como discordar na mágica manhã de um domingo azul escancarado numa estrada ensolarada? Foi preciso o apito. Foi preciso a parada. Foi preciso o sorriso.Foi preciso a palavra. Foi preciso. Foi preciso deixar lá fora a pressa, para que, no rodar tranquilo a largura do mundo se revelasse nova e surpreendente. E a paisagem não percebida na corrida com o vento, surgiu, para que meus olhos a embalassem.

 

 

E te vi tantas vezes mais nas estradas por onde passei. Consertando faróis nas madrugadas frias. E do frio das tragédias levavas mensagens de dor e mensagens de amor.

 

 

E te vi ainda uma vez. No meu retorno. Era noite. Tomavas um último cafezinho talvez… a névoa e a noite permitiam que teus ombros vergasssem e que teus olhos denunciassem o sol e o cansaço do dia, porque ninguém estaria ali para te ver como um policial, mas apenas para te ver como um homem. Um homem que sente, que ama, que sofre, que chora, que ri, que vai e retorna dentro de sua grandeza e fragilidade, o Homem que entende, o Homem que vê, surpreendido, a diversidade de sua própria imagem…

 

 

… e múltiplo e complexo e diverso te foste. Mais uma sombra incansável que a névoa da noite engoliu.

 

 

És o Homem do Fogo. Que passeia tua negra silhueta nos imensos corredores de chamas e escombros… o que visualiza em cada espaço vazio o rosto do amigo, o desespero do amigo, o destruído sonho do amigo e do amigo, o medo, o horror, a solidão, a angústia de uma face deformada e de um fim que chega sem aviso e que parte sem memória.

 

 

Talvez sejas o medo que se esqueceu de ser medo. Ou talvez a viagem que se alonga para que também outras se alonguem. Ou talvez sejas o poema que se fez guerreiro para recolher das chamas trêmulos restos de outros poemas.

 

 

Não sei. Mas o teu medo existe e não o percebemos. E nem tu o percebes. Tua viagem poderá findar no próximo mergulho ao mundo das chamas. Mas, nós não o admitimos. E nem tu o admites. E teu poema poderá morrer na garganta, sufocado pela fumaça. Mas, ambos sabemos que os poemas são eternos. Sei que amanhã, outra vez chegarás, Homem do Fogo, com a mesma silhueta de tantas vezes, com a mesma coragem de tantas vezes e a mesma ternura que tantas vezes me fez ter medo e orgulho por seres aquele homem que tu és.

 

 

E estarás presente para ver o rescaldo, estarás presente para juntar o teu poema esparso nas cinzas, poema de fuligem molhado, poemas entre escombros… poema.

 

 

Sabes, hoje, na fumaça que ardia em meus olhos, como num flanar de asas entre dedos… sumiste.

 

 

(Continua)

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