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Andanças pela Carolina do Sul

Summerville, Carolina do Sul/Arquivo

Adair Dittrich segue em sua viagem pelos Estados Unidos                                                     

 

O ponto mais importante para o meu amigo Geraldo São Clemente, era, justamente, a cidade de Charleston, onde estavam localizadas as instalações da West Virginia Company. Foram duas esplêndidas semanas as que passamos na Carolina do Sul.

 

 

Ficamos hospedados na residência de Ann e Walt Penny, amigos dos anos em que residiram na sede da Rigesa, em Três Barras, empresa da qual Walt tinha sido diretor.

 

 

Eles moravam em Summerville, uma pequena e bucólica cidade, distante uns cinquenta quilômetros de Charleston. A casa deles ficava situada em meio a um aprazível bosque.

 

 

Emocionante a hospitalidade do povo daquela cidade. Ann e Walt tinham preparado uma recepção na casa deles, já na nossa primeira noite, para a qual já haviam convidados vários amigos e vizinhos, entre os quais muitos colegas de trabalho.

 

 

Foi o tempo de acomodarmos nossas bagagens em nossos aposentos, conhecermos a casa e seus jardins, e saímos com Ann para as compras.

 

 

Pitoresca cidade. Naquela época, apenas prédios baixos, com, no máximo, dois pavimentos. Ruas arborizadas. Coalhada de pérgulas e jardins. Muitas alamedas floridas.

 

 

Não era permitida a venda de bebida alcoólica em mercearias e ou supermercados. Havia casas específicas para este fim. Reconhecidas por um visual especial. Círculos em cores berrantes e a palavra Liquor’s em destaque. Só nelas poderiam ser adquiridas embalagens das mais afamadas marcas de bebidas que contivessem álcool. E permitida a venda apenas em quantidade limitada por pessoa, maior de idade, com identificação anotada.

 

 

A recepção oferecida por eles foi algo muito especial. Com pessoas alegres. Com canapés deliciosos. Com coquetéis para todos os gostos. Com música envolvente. E agradabilíssimas conversas.

 

 

E conheci então Mrs. Margareth. Esposa de um colega de Walt, funcionário da West Virginia em Charleston. E, para felicidade minha, ela era a enfermeira chefe do Centro Cirúrgico do Charleston Medical College Hospital.  Para onde já me levou na manhã seguinte.

 

 

Não precisava mais nada para coroar minha viagem pela América do Norte.

 

 

Apresentou-me à equipe de Anestesiologia. Pude, então, frequentar o serviço e participar das atividades inerentes à minha especialidade em todas as manhãs durante os dias de minha permanência na Carolina do Sul.

 

 

Havia três rodovias que ligavam Summerville a Charleston. A mais bucólica era uma rodovia simples, que contornava as colinas, passava entre belas casas rodeadas de jardins. Era, no entanto, a mais longa.



 

 

Após o retorno do hospital, em todas as tardes, alguma atividade estava programada para nosso entretenimento.

 

 

Enquanto Geraldo saía com Walt a fim de cumprir suas tarefas, ou na fábrica ou nas “Plantations” nas quais se fazia o remanejamento das árvores próprias para servirem de matéria prima para o fabrico do papel, Regina e eu seguíamos com Ann para cumprir as nossas.

 

 

Tarefas, aliás, muito agradáveis. Porque sempre findavam em torno de uma piscina de água cálida, onde, sob a sombra de imensos guarda-sóis saboreávamos uma infindável variedade de sucos naturais feitos com as frutas da terra.

 

 

Literalmente infiltramo-nos na vida das pessoas de Summerville. Passamos uma tarde inteira na casa de uma jovem senhora, muito bonita, muito falante, muito gentil que tinha apenas um filho, garoto ainda de uns 5 anos. Autista. O marido, lutando no Vietnã. As mulheres que não exerciam alguma profissão e que tivessem tardes livres, revezavam-se, diariamente, com o intuito de colaborar com o desenvolvimento do menino. Foi uma das tardes de muito aprendizado e de mastigar muita coisa lá no fundo de minha massa cinzenta!

 

 

Aos sábados eu não frequentava o hospital. Em um deles tivemos muitas horas de atividades com um grupo de adolescentes que participavam de ações desenvolvidas no decorrer das férias escolares. Entre jogos, brincadeiras, atividades artísticas, campeonato de natação em uma grande piscina olímpica, constavam palestras. E, naquele dia, as palestrantes éramos nós. Regina falou de muita coisa de sua terra natal, das minas gerais. De nossa cultura e de nossos hábitos. A mim me coube falar das coisas inerentes à minha profissão e também de nosso sul, do inacreditável, para eles, frio do sul do Brasil. Da neve que aqui, eventualmente, caía. De nossas geadas. De nossos pinheiros diferentes dos pinus de lá. De nossa araucária e o saboroso pinhão que ela produz.

 

 

Queriam saber tudo das Cataratas do Iguaçu. Saber se dava para lá ir e voltar num mesmo dia, assim como se fosse um piquenique que se pudesse realizar em um dia feriado. Mas, sempre havia alguém que já sabia das nossas distâncias. Que o nosso sul também era imenso. Adolescentes muitos cultos.Que liam muito. Conhecedores já da geografia do mundo. Foi mais uma tarde fantástica em que conhecimentos mil foram trocados.

 

 

Nas noites em que não havia alguma recepção ou jantar na casa de um dos amigos de nosso casal anfitrião, tirávamos para conhecer os restaurantes de Charleston.

 

 

Encantei-me, sobremaneira com o Perdita’s. Um restaurante muito antigo. Com um Menu elaborado artesanalmente. Escrito a mão em preto e vermelho. Com o nome dos pratos ali servidos em inglês e francês. Local charmoso. Que conta a história da moça que por lá viveu. O destaque ficava para a ausência de bebidas alcoólicas. A única servida era um coquetel de champanhe. E somente uma taça, por pessoa. No mais, apenas sucos e refrigerantes. Mas, sempre havia alguém que portava sua própria garrafa de uísque, vinho e ou cerveja e a deixava, indiscretamente, sob a mesa.

 

 

Gostei muito de outro restaurante que tinha a arquitetura de uma velha capela. O nome, pelo que ainda me lembro, era “Old Chapel”. Com vitrais multicoloridos. Com muitos arcos. Mas onde o vinho também não tinha vez.

 

 

Tivemos um domingo diferente. Fomos conhecer o movimentadíssimo porto de Charleston. Pudemos apreciar de perto o cais onde atracavam luxuosos iates. Tomamos um barco e fizemos um passeio pela baía, com maravilhosa vista da cidade. A cidade que foi palco de um dos mais consagrados filmes de Hollywood, “E o vento levou”. A legendária cidade que primeiro se rebelou. A cidade onde teve início a Guerra da Secessão. A cidade incendiada. Passeamos também,acomodados nas velhas charretes, em um mergulho naquele passado histórico.

 

 

Ann era do Norte. Fez seu curso superior em Nova Iorque. Logo que regressou aos Estados Unidos voltou a exercer sua profissão como professora de história americana em uma das escolas de Summerville. Sorrindo, contou-nos haver desmistificado a concepção sulista de que eles haviam vencido Guerra da Secessão. E que o avião havia sido inventado por um brasileiro chamado Santos Dumont e não pelos irmãos Wright.

 

 

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