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Andanças pela Big Apple (II)

Divulgação

Adair Dittrich segue sua viagem por Nova Iorque                                                                              

 

Ao deixarmos o Lincoln Center deparamo-nos com uma lavanderia. Pessoas entravam com suas trouxas de roupas sujas e de lá saíam, sorridentes, com elas limpas e bem embaladas em plásticos. Ann lançou-nos um olhar cúmplice e inquisidor. Sim, desde Charleston nossas roupas acumulavam-se com detritos poluentes, de coloração escura, o negro pó que era apanágio, até então, apenas das grandes cidades. Fomos ao nosso hotel, que não ficava muito distante, e enchemos algumas sacolas com elas e retornamos à lavanderia.

 

 


Enquanto esperávamos que as máquinas de lavar e de secar fizessem o seu serviço servimo-nos, ali mesmo, de um necessário lanche. Tão fácil tudo. Era só colocar uma moeda nas máquinas e as roupas eram lavadas. Outra na secadora e a roupa saía sequinha. O mesmo com as máquinas de lanches e refrigerantes.

 

 

E a tarde se fora. Era tempo de nos arrumarmos para o programa noturno. Ann e Walt haviam reservado, com muita antecedência, ingressos para o espetáculo daquela noite, no Radio City Music Hall.

 

Radio City Music Hall/Arquivo

Fantásticas as Rockettes Girls em seus movimentos pelo gigantesco palco. Não fossem as diferentes tonalidades da cor do cabelo e da pele eu diria, olhando-as de longe, que eram irmãs gêmeas. Multi-gêmeas. Todas iguais. Trajes idênticos. Belíssimos. Em uníssono. Todos os passos. Em cadência perfeita. Bailados sincronizados. Acrobáticos. Sapateando como se fosse um só pé. Todas sorrindo. O tempo todo. Sob o som de uma orquestra que não emitia uma nota fora do compasso. Ou do tom. Ao findar o espetáculo, a multidão em pé, aplaudindo, pedia mais. Claro que as Rockettes Girls retornam ao palco, para, como sempre, como se estivessem em múltiplos espelhos refletidas,curvam-se ante a plateia, agradecendo, e dão a pedida e suplicada final colher de chá de mais alguns minutos de show.

 

 

Após o espetáculo das meninas-bailarinas-acrobatas assistimos a estreia de “Barefoot in the Park”, filme que não havia sido lançado nos cinemas. Novíssimo. Com os ainda jovens Jane Fonda e Robert Redford.

 

 

Em minha imaginação enxergo imagens nossas, como em uma fantasia da memória, saindo pela noite, descalços, cantarolando a melodia tema do filme, sapateando pelo parque, contagiados pela euforia emitida pelas Rockettes Girls.

 

 

Foram intensos os dias (e as noites!) que passei em Nova Iorque. Eu queria ver tudo. Queria assistir a todos os espetáculos. Uma vida já levada com centenas de horas noturnas em claro, ao lado de pacientes, pelos centros cirúrgicos, não iria eu me preocupar com horas de sono que ficariam para trás, agora, na grande cidade, nas minhas primeiras férias desde os tempos de faculdade…

 

 

Cedo eu já tomava o meu café no hotel e saía pelas ruas de Manhattan, que, a esta altura, já estavam tão conhecidas por mim, como as de minha vila natal…

 

 

Era quase hora do almoço quando chego ao hotel, com as mãos carregadas de sacolas, cheias de compras, e encontro meus amigos, apreensivos, à minha espera.

 

 

Riram muito quando contei a eles o olhar desconfiado, sem brilho, das vendedoras de algumas lojas, como a da Revlon, que não estavam muito a fim de me atender. Trajando uma saia comum e uma blusinha esporte, estilo chinês, não me deram atenção. Só arregalaram os olhos quando se depararam com meus Travellers Checks na hora de pagar a conta. As pessoas são iguais no mundo todo.

 

Brooklin/Arquivo

Nossos amigos americanos levaram-nos para almoçar no Brooklin, o bairro dos italianos. Em um restaurante que me fez lembrar das iguarias de meus Nonnos Pedro e Thereza Gobbi. Apenas com um pequeno senão. O molho de tomate, o sagrado “al sugo”, vinha acrescido de muito Ketchup, afim de fazer jus ao gosto dos americanos. Aquele sabor adocicado, em mistura ao ácido acético, não era condizente com a tradicional culinária italiana. Mas, foi só lhes dizer que eu preferiria que fosse puro tomate, para ser atendida de imediato. Afundei na macarronada.

 

 

Após o almoço fomos desfrutar das atrações do parque de Coney Island. E a Montanha Russa, dita como a melhor e mais completa do leste americano, naquela época, foi o nosso primeiro destino.

 

 

Enquanto aguardávamos na fila, esperando que houvessem carrinhos vagos, suficientes para nós todos, vejo um enorme cartaz, com letras garrafais, informando sobre objetos e adereços que deveriam ser deixados “em terra”. A lista era grande. Entre eles o destaque para dentaduras, colares, pulseiras, perucas, correntes e até gravatas. E não assumiriam responsabilidade alguma se algum desses objetos alçasse voo no decorrer da jornada.

 

 

Mas, o que mais espanto me causou nestes momentos de espera foi a gritaria que se ouvia. Eram quase uivos amalucados e histéricos daquelas pessoas mefistofélicas que, em alta velocidade deslocavam-se montanha abaixo e acima em todas as direções. Pareciam animais enjaulados sob tortura intensa. Mas, não. Eram apenas humanos se divertindo! Alucinados! Como se o mundo estivesse acabando!

 

 

Até que que a minha vez chegou! Gritei! Gritamos! Alucinadamente! Muito mais do que eu jamais pensaria. Muito além do que eu imaginara. Preciso é estar no bonde andando, antes de se pensar, maldosamente, sobre os que nele se encontram!

 



 

 

Os trens com seus carrinhos moviam-se, não digo lentamente,mas a uma velocidade suportável, até o momento em que atingiam a cumeeira. De onde despencavam, a jato, em um mergulho inesperado. Depois a passagem pelo lago. Impressão de que sob ele. Como se estivéssemos dentro de um submarino. Só que aberto. Encharcando-nos com a água que, pela velocidade, era como se fosse dentro de uma nuvem sobrecarregada, pulverizando o aguaceiro no momento exato em que por ela estivéssemos passando.

 

 

Depois fomos para a roda gigante. Que, com lentidão se deslocava. Com uma paradinha técnica no alto. De onde me deslumbrei com o mar ao longe.

 

 

E então caí numa esparrela. Caí na asneira de entrar num brinquedo que eu já conhecia, só que em tamanho menor, nos parques que, de vez em quando, aportavam em nossa velha Canoinhas. O famigerado Dangler. Foi só começar o rodopio lá no alto para o velho problema surgir. Uma cinetose idêntica àquela do enjoo do mar. Igual à que me acontecera já na primeira e única vez, em que naqueles pêndulos voadores eu me aventurara.

 

 

A tontura, a náusea, uma viagem pelo infinito que parecia não mais ter fim. E infinito foi também o tempo em que no ar fiquei flanando. Após a aterrizagem não consegui desembarcar sozinha. A brancura do papel estava colada em minha face. Água gelada urgente. No rosto e nas mãos. E que, sofregamente tomei. E, cambaleando, consegui, com ajuda, chegar em um local à sombra, onde desabei. Então a festa, para mim, acabara! Apenas naquele momento!

 

 

Com Walt, que já não era muito chegado a estes artefatos alucinatórios, fiquei zanzando pelo parque, enquanto os outros mergulhavam, de cabeça, nos demais brinquedos de gente grande que havia por lá.

 

 

Em um estande de tiro ao alvo quis tentar a ilusão de ganhar um troféu. Com armas, muito bem calibradas (?), tentei alguns tiros, na vã esperança de ser compensada com algum ursinho de pelúcia.

 

 

No caminho de retorno ao hotel jantamos em um bucólico restaurante à beira-mar naquela Long Island de tantas praias e encostas tão belas.

 

Village Vanguard/Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nosso programa noturno estava garantido. Como sempre, Walt já havia feito a reserva de uma mesa para nós no Village Vanguard, um famoso clube de jazz localizado em Greenwich Village.

 

 

Naquele clube iríamos passar algumas horas ouvindo não só os talentos locais, mas, também, como atração principal, um cantor, compositor e músico brasileiro que fazia muito sucesso nas terras de Tio Sam. Tratava-se de um dos precursores de um movimento novo na música popular brasileira. Um dos precursores da Bossa Nova. Com seu banquinho e seu violão. O nosso João Gilberto.

 

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