Andanças pela América do Sul (VII)

Lago Titicaca/Divulgação

Singrando pelo Titicaca…

 

 

Em todos os nossos Congressos de Anestesiologia sempre havia um dia livre. Um dia sem trabalhos científicos. Um dia programado para se passear. Um dia inteiro reservado para visitarmos locais inimagináveis. O de La Paz não foi diferente.


 

 

Foi o dia em que mais cedo tomamos o nosso café da manhã. Logo em seguida partimos pelas estradas do altiplano boliviano em direção ao Lago Titicaca.

 

 

A guia de turismo de nosso ônibus conhecia tudo sobre história e geografia, não só de sua terra natal, como do mundo como um todo. Lentamente, percorríamos as rodovias que, àquela época, em sua quase totalidade não eram asfaltadas. Assim como as nossas por aqui também não eram.

 

 

Ao longe, as montanhas nevadas. Por todos os lados, a vegetação. Rara e rala. A grama não tinha a cor verde do verde de nossos vales. Era um verde-amarelo esmaecido. Mais que grama eram touceiras de capim, com mais de dois palmos de altura.

 

 

Explicou-nos a nossa guia que aquela vegetação rala estende-se por todo o altiplano, espalhando-se até as faldas das cordilheiras. Que aquela área planaltina é, essencialmente, uma área de pastagens. E que estas pastagens se alastram até onde as neves imperam. Por lá vicejam duas importantes espécies de plantas que são a quina, de onde se extrai o quinino e a coca.

 

 

Uma frase de nossa culta guia jamais saiu de minha mente. Falava ela que eles, os bolivianos, eram abençoados por possuírem aquelas pastagens, aqueles campos esverdeados, aquelas flores. Porque noutros países do mundo, que têm a mesma altitude daqueles altiplanos, as neves são eternas. Onde nada viceja. Uma explicação otimista de quem ama o que é seu e vê beleza nas menores plantinhas que a sua terra produz.

 

 

Mas, enquanto nosso ônibus percorria as vias do altiplano ficamos, meio embasbacados, ao olhar a maneira como os nativos aravam a terra e a preparavam para o plantio. Não, não eram arados puxados por cavalos ou bois. Era a força humana que os tracionava. E outro companheiro, na parte de trás, forçava as lâminas para que penetrassem no solo. Atrás desta dupla vinha outra pessoa, geralmente uma mulher, que portava um saco de onde tirava a semente que atirava para dentro da vala recém aberta.

 

 

Tratava-se de uma plantação de batatas. Paramos para conhecer algumas das espécies deste famoso produto agrícola boliviano. Fiquei pasma ao saber que lá se produzem mais de quatro mil espécies dessa iguaria tão saborosa e tão difundida pelo mundo afora.

 

Illimani

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mais alguns quilômetros, sempre tendo ao fundo o mais magnífico dos cenários. Os picos cobertos de neve cobrindo todo o horizonte além e entre eles, imponente, o eterno Illimani.



 

 

À nossa frente outra majestade, em azul, estendia-se, cristalinamente por quilômetros sem fim, fundindo suas cores com as cores do céu. Despontava ante os meus olhos um verdadeiro mar interior, despontava ante os meus olhos o lago dos deuses incaicos, despontava ante os meus olhos o Titicaca.

 

 

À nossa frente o lago onde nasceu a civilização inca. Para onde o deus Sol levou seus filhos. O lago navegável situado na mais elevada altitude do planeta. Estávamos a quase quatro mil metros acima do nível do mar, a flutuar sobre a sua superfície líquida.

 

 

Num panorâmico barco singramos por suas águas. Não ventava muito naquela hora em que o sol já ia alto. As ondas eram suaves. Em um recanto, de uma paisagem ímpar, com algumas árvores, via-se uma construção especial feita de troncos de madeira, entremeados com pedras. No ancoradouro da margem atracamos. Não foi difícil descer do barco. Escadaria de pedra. Em seguida um longo caminho por sobre as águas em um pier de madeira.

 

 

A temperatura caíra drasticamente. O sol sumira atrás de negras nuvens. E do alto começaram a cair finíssimos flocos de neve que enregelavam nossas faces. Imperioso era correr para o abrigo da construção que me parecia, vista do pequeno navio, distar apenas uma dezena de metros das margens. Engano meu. Era muito mais. E a corrida parecia nunca chegar ao fim. Foi o momento em que senti as agonias das alturas. Intensa taquipneia tomou conta de mim. Acompanhada de batimentos cardíacos acelerados. Com as narinas congeladas. Tontura total. Deu tempo de chegar, inteira, ao delicioso e aquecido recanto que nos aguardava com todas as benesses dignas dos deuses. Incaicos, claro!

 

 

Estávamos em um restaurante situado às margens do lago, em algum recanto da Ilha do Sol. Alguém, nativo da região, assegurava-me que estávamos a cinco mil metros acima do nível do mar. Por isto eu fui apresentada ao mal das alturas. Mas, em realidade, a altitude não chega, naquele local, aos quatro mil metros. O problema foi o ímpeto de sair correndo. O recepcionista nativo, ao exagerar na metragem, só queria brincar comigo ao ver-me mais branca que a neve circundante…

 

 

Para que nos aquecêssemos, fomos logo para a beira de uma grande lareira rústica, toda em pedra, onde rubras chamas crepitavam. Serviram-nos logo, também um vinho muito especial, que deveria ser proveniente das bandas do norte da Argentina.

 

 

O almoço, claro, foi mais uma das inesquecíveis refeições que eu saboreei no decorrer de nossa viagem. Além do peixe servido, que naquela manhã havia sido retirado das geladas águas do lago, um desfile variado de apenas algumas espécies de batatas, preparadas das mais diversas maneiras. Com os mais diferentes temperos. Como entrada, serviram-nos o famoso pique, um prato que leva um pouco de tudo, e, principalmente, uma senhora pimenta que faz o espírito subir a alturas inimagináveis.

 

 

Após o almoço visitamos algumas ruínas incaicas na ilha. O tempo correu rápido. Caminhamos, apenas poucos metros pela longa estrada, construída pelos mais antigos povos da região. Ela não segue em linha reta. Contorna todas as elevações. Pode-se admirá-la, serpenteando, ao longe.

 

Igreja de Nuestra Señora de Copacabana/Divulgação

Era chegada a hora de retornarmos ao barco e, antes de retomarmos o caminho de volta a La Paz fomos conhecer Copacabana. Sim, Copacabana, onde se situa a Igreja de Nuestra Señora de Copacabana, a santa protetora da Bolívia.

 

 

Esta igreja data do tempo da colonização espanhola. Tudo nela é arte. A porta, com imagens em alto relevo, todas esculpidas em madeira. Paredes e teto cobertos com pinturas de cunho religioso. Um imenso altar que, com o ouro nele cravejado, reflete a luz do sol, iluminando toda a nave.

 

Morro do Calvário/Divulgação

Ainda tivemos pique para subir ao Morro do Calvário. De onde pudemos admirar toda a cidade debruçada pelas margens e o lago estendido além.

 

 

Segundo explicou-nos nossa guia, chamava-se o local, em dialeto aimará, kota kahuana, que quer dizer “Vista do Lago”.

 

 

Não se sente o cansaço quando se visita o paraíso. Mas, era chegada a hora do retorno. Navegávamos não muito longe das margens. Para que naquelas paisagens pudéssemos mergulhar os olhos. Apenas areia, pedras e vegetação. Praias paradisíacas com uma que outra construção de pedra onde viviam felizes e abençoados moradores. Hoje eu vejo imagens do entorno do lago. Surpreendente como está superpovoado. São muitas as vilas e os hotéis, os clubes e as casas de veraneio. Quando por lá passei apenas o que os deuses incaicos lá haviam colocado. E eu vi e vivi uma paisagem onde a natureza era dona de tudo. Eu passei pelo paraíso.

 

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