Andanças pela América do Sul (VI)

Vista de La Paz/Arquivo

Inicia-se o Congresso de Anestesiologia em La Paz

 

 Mal raiara o dia, naquele outubro de amena temperatura, nos altiplanos andinos, e eu já estava na janela, feliz, tendo à minha frente o Illimani. Acordar, e ver aquela imagem, já nos primeiros minutos do dia, trouxe-me uma inesperada sensação de retorno a uma época, da qual eu não tinha lembrança, mas que à qual eu tive a certeza de pertencer.

 


 

A cordilheira parece refletir toda a energia que emana das esferas mais longínquas do universo, transmitindo inenarrável paz em seu entorno. A paz, que há milênios, todos os deuses impregnam naquelas rochas cobertas de neve, irradiando-a pelos espaços além.

 

 

Eu não queria tomar café sozinha e então fui para o salão de recepção aguardar meus amigos e demais colegas para só então dirigir-me ao restaurante. Detive-me, ali, por algum tempo, lendo e inteirando-me sobre o que ver em La Paz naquele dia. Tínhamos todo o dia livre, ainda, pois a abertura do Congresso dar-se-ia somente à noite.

 

 

 

Sabia que deveríamos nos locomover devagar, a fim de não deixar que los diablos se intrometessem em nossa circulação, causando-nos os tão temíveis males provenientes da elevada altitude a que não estávamos acostumados.

 

 

Preferimos percorrer, inicialmente, o centro histórico da cidade. E, a pé fomos, lentamente, descobrindo as riquezas arquitetônicas, lá inseridas desde que os espanhóis descobriram os encantos das montanhas da América do Sul.

 

E a nossa primeira visita foi ao Museu Nacional de Arte de La Paz. O próprio edifício que comporta as maiores preciosidades em arte, já desponta com sua arquitetura ímpar. Fazia pouco tempo que o imenso palácio que alberga um acervo de altíssima qualidade transformara-se em museu. São três andares edificados com seixos, cal e tijolos no chamado estilo barroco andino.

 

 

 

A manhã fora curta para apreciar tantas obras de arte, tanto de pintores e escultores clássicos europeus, como de artistas locais. E dentre tantos não posso me esquecer da alegria em ter podido apreciar telas de Portinari, de Di Cavalcanti, de Manabu Mabe e de Alfredo Volpi.

 

 

 

No correr da tarde apenas pude passar defronte a tantas outras construções que datavam do período da colonização espanhola. Pois, imprescindível seria preparar-me, adequadamente, para as solenidades da noite.

 

 

Há tantos dias já, perambulando fora de casa, precisava saber da governanta do hotel se minha roupa estava devidamente passada e em ordem. E passar, mais algumas horas, em um salão de beleza, para reformar minhas pobres unhas e ajeitar uns cabelos que já se encontravam em lastimável estado.

 

 

 

E foi neste salão que eu descobri nada entender da língua espanhola. Pois, aquela algaravia que as manicures e cabeleireiras trocavam entre si, era algo completamente desconhecido para mim. Sim, porque lá mais se fala os idiomas quéchua e aimará que o castelhano. Não era o espanhol que eu não entendia. Era a desconhecida língua herdada dos antepassados indígenas dos Andes.

 

 

O quéchua é mais antigo que o Império Inca. E ainda trocavam, entre elas, palavras em aimará. Estas duas línguas são consideradas oficiais, não apenas na Bolívia, mas, no Peru também. Então lá fiquei eu, entregue às mãos de excelentes profissionais da arte de se melhorar o visual feminino, sem entender o que falavam. Mas, claro, quando se dirigiam a mim, falavam em espanhol. Com acento quéchua, claro.

 

 

 



Foi uma linda noite, a noite de abertura do X Congresso Latino Americano e IV Boliviano de Anestesiologia.

 

 

 

Com as bandeiras nacionais dos países de todos os anestesiologistas ali presentes desfraldadas. Imagine-se a minha emoção ao ver a bandeira de minha pátria, lá no alto, despontando junto às demais.

 

Com maravilhosas flores andinas enfeitando o grande salão de eventos.

 

 

Com uma orquestra tocando o Hino Nacional da Bolívia e outras melodias também.

 

 

Com um grupo de balé que apresentou uma das mais famosas danças andinas, num estilo clássico de fazer com que lágrimas vertessem do fundo de minha alma.

 

 

Com discursos breves, saudando os convidados e participantes. Com loas aos organizadores. E, ao final, a palestra científica de abertura. Que foi o ponto alto da noite. Proferida pelo nosso mestre, Dr. Danilo.

 

 

E depois deste cerimonial, a recepção. Uma ceia. Com as delícias da culinária boliviana. Onde não poderia jamais faltar a famosa truta do lago Titicaca e algumas variedades de batatas andinas, preparadas com arte pelo chef do evento. E muita bebida escocesa famosa ao lado do tradicional pisco e da cerveja boliviana.

 

 

As conversas adentraram quase a madrugada. E às oito horas da manhã, em ponto, iniciar-se-iam os trabalhos científicos dos Congressos. Imaginei que iria perder a hora. O que jamais aconteceria naquelas altitudes. Acordei cedo e fiquei inteira o resto do dia.

 

 

Preciso falar sobre os debates em torno de um importante tema que afeta a prática da anestesiologia nas altitudes elevadas. Não se poderia pensar que a Mesa Redonda “Anestesia en la altura” interessasse apenas aos anestesiologistas que lá nos altiplanos andinos exercem esta especialidade.  Muito sobre este tema naquele evento lá se falou. Não apenas na sala das grandes palestras, como também na destinada aos temas livres. Muito interessante foi um dos trabalhos que demonstrava que as pessoas nascidas e que vivem nas altitudes elevadas são menos sensíveis aos estímulos do Oxigênio do que as que que nascem e vivem ao nível do mar.

 

 

 

Naquele entardecer, logo que findaram as explanações científicas, os colegas bolivianos nos levaram para conhecer o grande mercado, ou feira livre, instalado em uma das grandes praças da cidade. Lá, produtos artesanais de todos os tipos podiam ser encontrados. Miniaturas de lhamas, para dar sorte. Pelerines de lá de lhama. Em fundo mais escuro, preto ou marrão, salientando, em branco, o desenho daqueles animais.

 

 

E foi, então, que eu fui apresentada às folhas secas de coca. Com as quais se faz o famoso chá que aquece o corpo dos habitantes andinos, amenizando o frio das noites com nevascas sem fim, desde a mais remota ancestralidade.

 

 

Como anestesistas, conhecíamos o primeiro anestésico local utilizado, que destas folhas tinha o seu princípio ativo extraído. Só não imaginava que, ao mastigar o produto nativo, ao natural, sentiria a língua ficar, um tanto quanto, amortecida. Mas, os anestesistas bolivianos garantiram-me que não é a folha, in natura, que causa o problema maior na civilização atual, mas, sim, o uso indiscriminado daquilo que dela se extrai em laboratórios clandestinos.

 

 

Então, além dos novos conhecimentos adquiridos, ouvindo atentamente o que explanavam os luminares da ciência anestesiológica, no decorrer das palestras e das mesas redondas, muita coisa a mais ainda aprendi na praça do mercado de La Paz.

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