Andanças pela América do Sul (II)

Cajamarca, no Peru/Divulgação

O Vale do Sol e as ruínas de Cajamarca                                                                                                                                             

 

Ao acordar, naquela minha primeira manhã nas costas do Pacífico, busquei, em vão, por uma réstia que fosse, de um sol de primavera, através das janelas de meu quarto. Apenas nevoeiro eu vira. Porque em Lima a névoa é uma constante. Uma consequência das correntes oceânicas e de uma umidade relativa do ar muito elevada. O que ocasiona também uma temperatura muito amena, em plena região equatorial, durante o inverno e a primavera.

 

 


Já após o café da manhã iniciaríamos uma longa jornada a fim de conhecermos um pouco das ruínas de templos e pirâmides de épocas imemoriais. Pontualmente, o nosso simpático guia já nos aguardava na recepção do hotel. As coisas da cidade tinham as suas peculiaridades, mas, o mais importante era conhecer as ruínas das antigas cidades incas ou mesmo da era pré-incaica.

 

 

Saímos, então, em direção ao norte, primeiramente, rumo à Cajamarca. O nosso deslumbramento já teve início no decorrer da própria viagem. A rodovia subia, em partes, costeando o mar. Terreno muito acidentado. Subíamos e descíamos colinas e mais colinas. A cordilheira, magnífica, com seus cumes nevados, à nossa direita.

 

 

E assim continuamos até tomarmos uma rota em direção ao leste. Entre as montanhas andinas a nossa jornada continuou. De lado a lado as escarpas coloridas estendiam-se. Árvores floridas debruçavam-se à beira dos penhascos, extasiando a vista com um inacreditável desfile de matizes das mais variadas cores. A rodovia seguia beirando o vale. Águas cristalinas, ao longe, reluziam ao sol.

 

 

Sim, ao sol. A um magnífico sol. Deslumbrante iluminação que os deuses de todas as galáxias inseriram ali. Um sol que lá brilha, aquece e faz o coração vibrar desde que aponta no horizonte, no longínquo leste, nas primeiras horas da manhã, depositando-se depois, muito além, nas águas perdidas do oeste, quando chegada é a hora do crepúsculo do entardecer. Lá é o vale encantado do sol de tantas lendas e aventuras incaicas.

 

 

Num determinado ponto do caminho nosso guia-motorista encosta o carro em um belvedere. Já havíamos ultrapassado muitos metros acima do nível do mar. Uma visão de êxtases contínuos. Picos e picos a se perder no horizonte além. Olhando-se para o alto a brancura das neves eternas.

 

 

Ao retornarmos ao veículo o jovem e sorridente guia abre o porta-luvas de onde retira dois objetos preciosos, devidamente guardados em uma capa protetora. Eram as palhetas dos limpadores do para-brisa. Que ele, com todo o cuidado, coloca em seus devidos lugares.

 

 

Porque há um senão a partir dali. Lá chove. Mas a claridade equatoriana persiste. Em todas as horas do dia. Porque estamos no Vale do Sol. Ao qual Karl May me apresentara, ao contar as suas imaginárias aventuras, percorrendo as cordilheiras da América do Sul*.

 

 

Nossa segunda parada foi em um parador onde saboreamos um refrescante suco de uma fruta típica peruana, o suco de lúcuma, uma bebida mais pastosa que líquida e muito saborosa.

 

 

Em seguida fomos apreciar a enorme e variada exposição de produtos em cerâmica de uma pequena fábrica que ficava ao lado. De dar água na boca. Vontade de comprar uma peça de cada. Mas, estávamos apenas no começo de uma longa viagem. De avião. Pequenas peças, bem simbólicas da região, foram enchendo nossas bolsas.

 

 

A chuva ainda não se pronunciara. O céu, em seu azul mais pronunciado possível. O sol, em sua magnificência rindo no risco mais reto e mais alto da abóboda celeste, jamais, até então, visto por mim.

 

 

Eis que, ao longe, surgem as famosas ruínas. Destacando-se, quase no horizonte. Alberto, que era o nosso guia achou de bom alvitre que almoçássemos antes de iniciarmos a correria por todos aqueles locais onde templos e pirâmides haviam sido erguidos há muitos séculos.

 



 

Outro inesquecível festival gastronômico. Fomos no prato do dia de um bucólico restaurante, incrustado num platô, perto das escarpas montanhosas. Lembro-me que era picante. O Picante de Cuy. Saboreamos um inigualável porquinho-da-índia, com molho de pimenta. E sempre com as batatas andinas e um refogado de legumes. Explicaram-nos que era um prato muito antigo da região, talvez desde antes até da época do Império Inca. Não importa desde quando exista. Era muito bem preparado.

 

 

E foi ali que fui apresentada ao famoso Pisco. A aguardente de uva típica da região andina. Pela, digamos, invenção, brigam Chile e Peru, tanto quanto, ou mais, até do que brigam com o Equador pela autoria da música “El Cóndor pasa”**. Uma delícia o Pisco Sour. Nós o provamos, como aperitivo, e depois como digestivo, após a sobremesa que era um creme feito com diversas frutas da região. Ainda tenho a escura garrafa da tradicional bebida que trouxe comigo. Nela está lapidada a face de um Inca, sereno e dócil. Tão sereno e tão dócil quanto a bebida, que, segundo Alberto, não se pode passar de apenas uma pequena dose. Porque, no dia seguinte,“le duelen los huesos!”, garantiu-nos ele, com profundo conhecimento de causa.

 

 

Era chegada a hora de visitarmos as ruínas de Cajamarca. Localizam-se no vale de mesmo nome. Lá frutificou a semente da cultura Caxamarca. São inúmeras as construções que datam de remotas eras. Disseram-nos os guias que elas são pré-incaicas. Uma verdadeira aula do que foi, como foram encontradas e como elas são preservadas deu-nos uma jovem e prestimosa arqueóloga que lá passava os seus dias, prestando este inestimável serviço.

 

 

Explicou-nos ela que não acreditássemos no que alardeavam os vendedores de peças, ditas originais. Eles nos afirmavam que as figuras dos deuses incas ou anteriores àquele período eram verdadeiras e únicas… Claro que adquiri uma coleção de “originais” datadas das diversas fases da vida incaica e pré-incaica. Em barro, em pedra. Porque foi algo que marcou, em mim, profundamente, nesta viagem.

 

 

E assim ficamos conhecendo, embora não tão profundamente, como era e como vivia a antiga civilização que por Pizarro e seus asseclas foi dizimada em nome de uma chamada civilização branca.

 

 

Traços característicos nas imagens dos deuses permitem aos estudiosos diferenciar as diversas eras em que eles existiram. São detalhes na face ou na vestimenta que se encontram, fielmente retratados em suas esculturas. Deuses com lágrimas a escorrer do olho direito dão a indicação de que eram oriundos de uma tal época. Se no outro olho, de outra.

 

 

Incríveis as construções todas. Pasmei com as chamadas janelas de Otuzco e Combamayo. São imensas necrópoles. Constam de criptas escavadas na rocha onde os corpos dos seus maiores eram depositados. Com incrível sistema de drenagem para que a água não os danificasse no decorrer dos séculos.

 

 

Lá existem muitos sítios com águas termais. E os Incas já deles se utilizavam, construindo piscinas. Eram os locais dos Banhos Incas, tais como os Banhos Romanos que se veem pela Europa.

 

 

O complexo arqueológico é imenso. Estende-se por muitos quilômetros quadrados por toda a região de Cajamarca.

 

 

O sol mergulhava, uma vez mais, nas águas do Pacífico quando a Lima retornamos. O que deveria ter sido um passeio para apenas meio período de um dia, para nós que de tudo queríamos muito mais saber, do que apenas ver, foi bem mais prolongado.

 

 

*”Percorrendo as Cordilheiras”, romance de aventuras de Karl May.

 

**Melodia de Daniel Alomia Robles e versos de Julio de La Paz.

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