Algumas tintas de Washington

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Adair Dittrich segue na capital estadunidense                                                                               

 

A sensação de bem-estar que sucedeu àquela que fora uma das piores crises de enxaqueca que eu já havia passado em minha vida, ultrapassou todos os níveis de euforia que eu pudesse sentir. Sempre que uma dor qualquer é debelada, à custa de poderosos analgésicos, sedativos ou antiespasmódicos, sente-se uma lassidão total. Quando a crise de enxaqueca desaparece o que se sente é uma leveza total. Senti-me, então, como se no espaço estivesse flanando. Pronta para outras emoções. Não crises. Não cefaleias. Pronta para desfrutar o que Washington tivesse para me mostrar. E, na recepção do hotel, fiquei aguardando o retorno de meus amigos.

 

 


Restavam ainda muitas horas até que a luz do dia fosse substituída por aquela emitida pelas imensas luminárias que se estendiam, a perder de vista, pelas avenidas e jardins.

 

 

Fizemos o tradicional passeio a pé pelo centro da cidade em busca de lembranças, além de cartões postais e diapositivos com as imagens da bela capital americana.

 

Ponte sobre o rio Potomac/Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Passear pelas margens do rio Potomac. Ah! Aquelas margens carregadas de cerejeiras-do-japão. Cerejeiras que quase se debruçavam sobre as águas do rio. Não floridas naquela ocasião, pois já nos achávamos em pleno verão.

 

 

Em meio a um jardim encontramos uma casa de lanches, diferente das habituais, com mesinhas sob as árvores, com cadeiras de ferro esmaltado, tudo muito parisiense. Consegui, então, comer algo. Sem suco de laranja…

 

Galeria Nacional de Arte de Washington/Divulgação

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na manhã seguinte saímos cedo, com o intuito de não pegarmos fila na visita à Galeria Nacional de Arte de Washington. É o que se aconselha, pois, não demorou muito tempo para que os salões ficassem com lotação esgotada, além da imensidão de pessoas que do ao lado de fora ficavam aguardando o momento de entrar.

 

 

Deleitamo-nos com pinturas e esculturas de mestres da arte de várias épocas. Fiquei por muito tempo olhando “Jesus expulsando os vendilhões do Templo”, de El Greco. Consta que algumas personagens de seu tempo, que não lhe eram gratas, estão em suas obras retratadas, como pessoas do mal. Quem El Greco colocaria hoje, se aqui vivesse, como figurantes desta tela?

 

 

Pelos salões daquela Galeria de Arte desfilam ainda Rafael, Tiziano, Henri Toulouse Lautrec, Rembrandt, Velasquez, Vermeer, Modigliani e tantos mais. Claro que Picasso lá não poderia faltar. Mas há também obras de vanguarda, arte africana, asiática, enfim, um mundo que estudiosos da arte levariam semanas para a tudo observar.

 

Instituto Smithsonian/FRE/ACE

Após nosso almoço, fomo conhecer o Instituto Smithsonian. É evidente que andamos um pouco por alguns espaços apenas. São inúmeros museus. Com quilômetros a se percorrer. Separamo-nos. Cada qual em busca do que mais lhe dizia respeito. Fantástica a parte destinada à História Natural. Enfim, uma tarde que levou meus neurônios à exaustão, tanto os novos conhecimentos em arte e ciência assimilados.

 

 

O amanhecer do dia seguinte, um domingo, embora um tanto nebuloso, não demonstrava que seria um dia chuvoso por ali. Cedo deixamos o hotel, já com nossas bagagens dentro de um novo carro alugado.



 

 

Fomos primeiro ao cemitério de Arlington, chegando lá a tempo de apreciarmos a tradicional troca da guarda junto ao túmulo do Soldado Desconhecido. Que, em realidade, são três. Muitas pessoas já lá se encontravam com suas câmeras a postos, a fim de captar todas as majestosas cenas. Os soldados, que montam esta guarda, revezam-se, voluntariamente, em turnos, nas vinte e quatro horas de todos os dias do ano.

 

 

Não é simplesmente uma troca de guarda. É uma troca, ao ritmo de quatro por quatro, totalmente coreografada. Uma homenagem a todos os que tombaram nos campos de batalhas e anônimos ficaram aos olhos dos homens da terra.

 

 

O cemitério, todo relvado, estende-se pela colina, com suas pequenas lápides brancas. Tudo igual. Apenas o nome de cada um lá escrito. Inclusive o de Kennedy, o presidente e o de seu irmão, em meio aos milhares de soldados mortos nas mais variadas guerras disputadas por aquela nação.

 

 

Era domingo. Dia de se assistir à Missa. O que meus amigos jamais deixariam de fazer. A igreja escolhida foi a Basílica do Santuário da Imaculada Conceição. É um tributo dos católicos americanos para “Nossa Abençoada Mãe e Padroeira do país”. Uma arquitetura contemporânea que engloba o espírito romanesco e bizantino. É o mais alto edifício de Washington.

 

 

Em solene silêncio eu permaneci, meditando nas palavras latinas, proferidas com forte sotaque inglês, que o padre ministrante proferia logo após a leitura do Evangelho. E, também no que eu havia conseguido absorver do conteúdo que, do solene púlpito ele havia falado no decorrer de sua prédica. Repentinamente, Regina e Geraldo levantam-se e me deixam a sós. Sabia que eles iriam à mesa da Comunhão. Mas não era este o momento da Eucaristia, ainda.

 

 

Enquanto cismava com o que estaria acontecendo, se minha amiga não estaria passando bem… de repente, eu os vejo no corredor central da nave, à frente de uma fila de demais fiéis, indo em direção ao altar onde o sacerdote oficiante os aguardava. Só então percebi o alcance da fé de meus amigos.

 

 

Era o momento da celebração do Ofertório. Regina e Geraldo portavam em seus braços as ofertas principais. O pão e o vinho. Um frisson percorreu-me inteira e muitas lágrimas de emoção ainda rolam quando eu me recordo daquele momento.

 

Lincoln Memorial/Getty Images

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Saímos da Basílica e fomos, como despedida, visitar o Lincoln Memorial, a paisagem que faltava para coroar nossa estadia em Washington. Êxtase ao ver as perfeitas colunas de uma obra inspirada nos templos gregos. A própria estátua de Lincoln, toda em mármore branco, faz com que se entre em profunda meditação, relembrando os feitos do grande homem que ele foi.

 

 

Era hora de tomarmos a estrada rumo à Grande Maçã. Almoçamos em uma lanchonete logo que pegamos a rodovia, já na saída da capital americana. Lanchonete típica dos Estados Unidos, iguais às anteriores onde já havíamos tomado muitos lanches. Mesas e bancos fixos. No almoço, na maioria dos casos, sempre eram servidos sanduíches. Exibidos em cardápios com fotos multicoloridas, com muitas páginas, brilhantes, devidamente plastificadas. Um prato diferente em cada página. Com a descrição minuciosa dos ingredientes que entravam em sua montagem ou que estariam à disposição à mesa. Desde o pão até o sal, a pimenta, o ketchup, a maionese, a alface e o tomate, além, claro do ingrediente principal, ali vinham, em grandes letras, fazendo parte da descrição. Um em cada diferente linha…

 

 

Finda a refeição tornamos à rodovia principal, no rumo de Nova Iorque. Naquela ocasião, esta rodovia não era inteiramente duplicada. No entanto, havia uma terceira via em todos os pontos onde uma quarta ainda não havia sido implantada.

 

 

Plantações de algodão e tabaco, primordialmente, margeavam ambos os lados da estrada. Mas extensas áreas de florestas ainda podiam ser observadas. Muitos aviários, principalmente na Virgínia.

 

 

Passamos por Baltimore e Philadelphia, sem, no entanto, entrarmos em nenhuma destas cidades. A chuva, que mais ao sul parecia não querer dar o ar de sua graça, começou, de início, quase fluidicamente. Mas, à medida que os minutos passavam, grandes borbotões castigavam o para-brisa do carro como se tivessem a intenção de arrebentá-lo.

 

 

Entramos em Nova Iorque num entardecer plúmbeo, quase negro, embora a escuridão da noite ainda não houvesse chegado. Tudo era escuro. Os Muros. A cor do céu. Tudo isto acrescido à gosma escura do asfalto molhado, às emanações poluentes das fábricas da periferia. Não era chegada a hora, ainda, de se acenderem as luzes na cidade. Impressão de que eu estava entrando no set de filmagem de algum filme noir.

 

 

            Ainda bem que, sobre aquela grande cidade muito eu já lera, muitos filmes lá locados e muitas fotos em revistas coloridas eu já vira, senão a impressão do momento da entrada teria me deixado apavorada. No dia seguinte, belas imagens toldaram a visão inicial.

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