Medicina, ditadura, literatura e a Canoinhas do Passado

Adair Dittrich, 84 anos, fala sobre seus antepassados, medicina e o extinto Barriga Verde. Assista no player

 

 

 

A casa transpira cultura. Livros, discos de vinil, TV rodando um vídeo de música clássica, dois computadores, fotos antigas espalhadas pelas paredes. Quem observa pode achar que se trata da casa de um escritor, um jornalista ou um músico, no que não se estaria errado. No entanto, dra. Adair Dittrich, 84 anos, é mais conhecida pela profissão a que mais se dedicou durante toda a sua vida, a medicina. Desde que lançou seu primeiro livro, O Meu Lugar, em 2016, cada vez mais Adair é reconhecida pelo texto refinado, que pode ser conferido semanalmente aqui no JMais, inclusive.


 

 

Analisar essas primeiras impressões é começar a entender essa canoinhense que concluiu o curso de Medicina em 1958 e optou por trabalhar em sua terra natal. Adair é apaixonado por cultura. Durante anos foi uma das principais redatoras do extinto jornal Barriga Verde, durante a ditadura militar chegou a ser confundida com ‘agitadores’ pelo simples fato de gostar de ler e ouvir música à noite, recebeu a medalha Antonieta de Barros, uma honraria do Governo do Estado pelos trabalhos realizados em favor das mulheres e, recentemente, teve seu nome emprestado a um prêmio literário a ser instituído pelo Município.

 

 

 

 

HEROÍNA DO PASSADO

 

Canoinhas já teve algum herói? Eis uma pergunta capciosa, difícil de responder se levarmos em conta o quão escassas são as memórias do município. Podemos não ter heróis instituídos, mas que existem pessoas que se encaixam muito bem no perfil, isso existem.

 

 

Uma dessas pessoas poderiam muito bem ser Thereza Gobbi, avó de Adair.

 

 

“A nonna (avó em italiano) morava em Curitiba, trabalhando com cozinha. Quando se iniciaram as obras de construção da estrada de ferro que ligaria Curitiba ao Rio Grande do Sul, minha nona resolveu se aventurar com meu nono (Pedro) na empreitada, cozinhando para os homens que construiriam a estrada”, relembra Adair.

 

 

Essa empreitada acabou se fixando em Marcílio Dias, então conhecida como Canoinhas. “Na época o distrito de Marcílio Dias era conhecido como Canoinhas e o centro da cidade era chamado de Ouro Verde”, recorda.

 

 

Em Marcílio Dias, Thereza e Pedro construíram um restaurante (o prédio ainda está lá) no terreno da Estação Ferroviária. “Ali funcionavam um salão de refeições, um bar e um café. Minha nona chegou a servir mais de 100 pessoas em um só dia em seu restaurante”, conta.

 

 

Foi na Estação que Petronilla, mãe de Adair, conheceu Adolpho, ferroviário que viria se tornar seu marido.

 

 

Voltando a falar da ‘nonna’ Thereza, Adair diz que é impossível não lembrar do tio Pedro Gobbi. “Ele era muito humanitário, capaz de tirar sua roupa para cobrir alguém com frio”. Adair conta que certa vez um homem caiu do trem e teve sua perna amputada. Para isso precisou viajar de trem de Canoinhas a Curitiba para encontrar o hospital mais próximo. Isso chocou Pedro que começou a lutar pela criação de um hospital em Canoinhas. No entanto, morreu antes de ver o sonho concretizado. Thereza prometeu tornar realidade o sonho do filho e para isso foi à luta. Organizou rifas, bingos, festas onde cozinhava em favor da causa além de ter pedido dinheiro a seus compatriotas, italianos que moravam em São Paulo. Cinco anos depois da morte de Pedro, em 1937, o Hospital Santa Cruz, enfim, foi inaugurado.

 

 

“Mas como vamos mantê-lo”, foi a pertinente pergunta feita pelo dr. Osvaldo de Oliveira, um dos primeiros médicos de Canoinhas e entusiastas do Hospital. Ao que Tereza respondia otimista – “Não se preocupe, nós damos um jeito”.

 

 

Assim, com inúmeras dificuldades, Tereza administrou os primeiros anos do HSC, vendeu todas as suas jóias, herança da família italiana, para pagar dívidas do Santa Cruz e hoje é lembrada pelo nome da UTI do HSC.

 

 



 

A VOLTA

Adair voltou para Canoinhas em 1963, portando os diplomas de médica, pós-graduada em anestesiologia. “Sempre quis trabalhar no interior, as grandes cidades não me atraiam”, revela.

 

 

Ela lembra que quando começou a trabalhar em Canoinhas, poucas ruas eram calçadas, o movimento era muito pequeno. “Eu atendia muita gente no Centro de Saúde, mas poucos pacientes procuravam o consultório”, recorda. O consultório de Adair ficava em frente à praça Lauro Muller, ao lado do extinto Foto João. “Lembro que ficava até tarde no consultório e me impressionava com a luminosidade da praça. Estive nos Estados Unidos e posso garantir que aquela iluminação não perdia para a de Miami”, compara.

 

 

 

 

PARADOXO

À medida que Canoinhas ia se transformando, mudando suas fontes econômicas e aumentando a população, o distrito de Marcílio Dias ia murchando como uma flor fora d’água. “Depois da morte de minha nona, minha mãe herdou o restaurante. Mas já estava difícil a situação. Com o advento dos ônibus pouca gente usava trem, a madeireira Olsen estava se acabando e a Estação também”, recorda.

 

 

O progresso da Marcílio Dias do passado, segundo Adair, está refletido nos inúmeros profissionais que como ela nasceram no distrito e hoje fazem carreiras de sucesso. Adair cita como exemplo o deputado estadual Antonio Aguiar.

 

 

Muitos desses profissionais passaram pela Escola Alemã, extinta com a 2.ª Guerra Mundial, onde se proibiu o ensino e a prática de línguas estrangeiras no Brasil, para dar lugar a Escola Manoel da Silva Quadros.

 

 

BARRIGA VERDE

Adair ainda lembra da dificuldade para se publicar uma foto no extinto Barriga Verde. “Precisávamos da ajuda de gráficas de Curitiba para isso”. Um dos fatos mais curiosos do Barriga Verde, conta Adair, foi uma matéria que questionava como estudariam as crianças que completassem o primário na Escola Manoel da Silva Quadros, já que a Escola estava prestes a encerrar o ensino fundamental. A matéria foi copiada pelo jornal O Estado de S. Paulo e provocou grande polêmica. Avani, irmã de Adair e diretora do Manoel, teve que responder a um processo por conta da matéria. “Ela não tinha nada a ver com isso, a matéria era de responsabilidade do jornal, mas como estávamos na época da ditadura,…”.

 

 

HONRARIA

Sobre a medicina, Adair revela que é sua grande paixão. “Minha mãe perguntava se eu não queria uma cama para dormir no hospital, já que eu, muitas vezes, vinha só para dormir em casa”, conta entre risos.

 

 

Sobre a medalha que recebeu da Assembleia Legislativa, humildemente diz – “Quando olho para dentro de mim acho que não fiz nada demais além de livrar minha própria vida”. E completa entre risos – “deve ser pelo conjunto da obra, como no Oscar”.

 

 

O agradecimento pela honraria vai ao amigo e colega de profissão, dr. Antonio Aguiar, que a indicou para receber a honraria.

 

 

 

Sobre a vida pessoal, Adair parece estar muito bem. “Não tenho filhos, mas meus sobrinhos me completam”. Além dos sobrinhos, a cultura faz parte da vida de Adair e parece completá-la tanto quanto qualquer outra paixão.

 

 

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