A masculinização da política

De um lado, a masculinização é uma demanda reacionária ou de embrutecimento. Por outro, uma natural reacomodação das placas tectônicas

 

 

Walter Marcos Knaesel Birkner*


 

 

 

Entre vários ensinamentos, o resultado das eleições demonstra uma resposta à feminização da política, própria das democracias contemporâneas e de alto significado civilizatório. Não obstante, a disseminação das narrativas identitárias amorteceu pautas tradicionais, produzindo a reação conservadora. De um lado, a masculinização é uma demanda reacionária ou de embrutecimento. Por outro, uma natural reacomodação das placas tectônicas. Precisamos achar espaço à convivência dessas demandas polarizadas, resultado dos excessos passionais e valorativos que transbordaram nessas eleições.

 

 

O que entendo por feminização, na verdade faz parte da evolução da própria democracia. Trata-se não só do avanço e materialização de direitos sociais, mas também dos direitos individuais de última geração, tendo a ver com a tolerância à diversidade. Aí estão as pautas do feminismo, das relações de gênero, meio ambiente, diversidade comportamental, sexual e racial. Trata-se do respeito às minorias, mas também da assistência aos necessitados e da proteção aos direitos humanos. Trata-se do Estado de bem estar, benevolente e perdulário. A democracia é uma mãe generosa e endividada.

 

 

Mas qual é o problema dessas pautas? Grosso modo não são um problema, ao contrário, uma solução civilizatória, justamente a que manteve o Ocidente à frente do processo civilizador durante cinco séculos. Estamos falando da valorização do indivíduo, dotado de razão e liberdade para descobrir o mundo e muda-lo à sua maneira. Ciência, mercado e democracia, incluindo a tolerância religiosa, não teriam evoluído sem o despertar do homem renascentista que existe em nós, liberto dos grilhões dos preconceitos e das verdades infalíveis que nos mantiveram na escuridão medieval.

 

 

Se existe um problema, é o modus operandi dessas causas, isto é, a exacerbação do que caracterizamos de feminização da política. Não é uma exclusividade brasileira, mas temos lá nossas particularidades. Além da defesa estridente dessas causas, criou-se o fetiche em torno da resistência a elas. O pânico disseminado em torno do “fascismo” e suas pautas agregadas intoxicou a Sociedade e se apequenou numa farsa eleitoreira. A esquerda trocou seu universalismo pelas pautas identitárias. Sua hegemonia cultural, por mais honesta nas suas origens, chega agora ao fim. Que Gramsci descanse em paz.

 

 

Insisto nesse ponto porque o leitor não tem o dever de conhecer, mas o direito de saber. Preso pelo fascismo italiano, o filósofo Antonio Gramsci preconizava que a revolução socialista não se daria mais por armas, mas pela palavra. Seria pelas narrativas criadas por intelectuaisnas universidades, escolas, imprensa e artes, formando legiões de disseminadores de ideias. Marteladas, intoxicariam (o termo não é dele) a Sociedade por meio de uma cultura hegemônica de aceitação ao socialismo. A troca da luta armada pelas narrativas foi o primeiro ato desse processo de feminização.

 

 

E o que é a masculinização da política? Uma reação conservadora às atuais pautas identitárias e sua eficiente fetichização. Elas intoxicaram as universidades, as escolas, os jornais e telenovelas. E, quando invadiram as eleições profetizando o caos e a ameaça do fascismo, “mexeram com que tava quieto”. Repito o que sugeri em artigo anterior: quase toda a importância desses temas do liberalismo identitário foi temporariamente prejudicada pela saturação que seus propaladores provocaram no período eleitoral. Podia ter sido diferente? Não creio. Trata-se de dialética internacional.

 



 

Mas, falar desses temas ante um quadro de problemas de ordem universal e tradicional provocou a irritação conservadora. E os problemas de sempre, como o desemprego, a violência, a corrupção e a falta de competitividade foram desprezados pelo liberalismo identitário. Alie-se isso aos baixos resultados em matemática, português e ciências, negligenciados por diretrizes educacionais antimeritocráticas em dissintonia com as necessidades do desenvolvimento econômico. Aí se compreende o transbordamento do azedume e uma resposta masculinizada nas urnas.

 

 

Quais são as demandas masculinizadas? Velhas conhecidas do homem das ruas: geração de empregos e pau nos criminosos, ante as pautas libertárias e protetivas do Estado de bem estar. Acontece que parte da sociedade já percebeu o que liberais conservadores denunciam há tempo: que o Estado não é protagonista, senão coadjuvante na geração de empregos, quando não é o vilão nefasto do desemprego. E qual a causa tripartite? Patrimonialismo, centralismo e extrativismo estatais, através de empreguismo, privilégios e corrupção. E quem tem denunciado os inimigos do povo? Os conservadores.

 

 

As propostas que tem convencido a Sociedade são o devido respeito à economia. Leia-se: uma religação cooperativa entre decisões políticas comprometidas com a produtividade, a competitividade e a geração de novas riquezas, por meio da austeridade fiscal e da reposição dos fins públicos sobre os interesses privados. Isso é ruim pra quem? Para todos aqueles que defendem e dependem da Mãe generosa e endividada que, não querendo passem seus filhos os sacrifícios de sua infância, enche-os de mimos que o homem da casa não consegue sustentar. O conservadorismo é um pai rígido e sovina.

 

 

Quanto à violência, a maioria da sociedade não se convence mais de que o problema da criminalidade se combate com a trova dos direitos humanos. O politicamente correto pensa assim, mas toda a correta atenção dos últimos governos no combate às desigualdades não impediu o aumento exponencial da violência. Já o homem das ruas pensa diferente: quando vê uma trabalhadora humilhada com uma arma na cabeça, acredita que isso se combate com autoridade, disciplina e punição, como nas Forças Armadas. Aí foi só esperar um candidato assim personificado e votar nele.

 

 

O fato é que o homem das ruas está com medo. Tem medo de perder o emprego, seu negócio, sua família; medo de não prover a família, perder a casa, de ser assaltado, humilhado e tanto mais. É preciso reconhecer os sentimentos desse homem da cidade e do campo. Ele trata todo mundo igual, ajuda os outros, paga impostos, vai à igreja e cuida do que é seu. Não tem e não quer nenhum direito especial, mesmo engolindo sapo, se aposentando mais tarde e vivendo menos que a mulher, a quem deixará uma pensão. Não bastasse, é acusado de fascista por gente que silencia diante da mentira e da perfídia.

 

 

Agora, é claro: masculinização, no bom português, não significa a brutalização dos comportamentos. Se há xiitas, há sunitas e o novo governo que os de cá odeiam e os de lá louvam não pode insuflar o ânimo entre eles, como fez durante a campanha. Ao contrário, terá de controla-los.Dito isso, independente da opção sexual, homem não se cria na frente do espelho, nem em gangues de covardes. Homem se cria a partir de casa, na dureza do trabalho, tal qual a preparação militar para as durezas da vida, com disciplina, coragem, e respeito à ordem. É o exemplo que o presidente deve inspirar.

 

 

No mais e no longo prazo, a convivência entre a feminização e a masculinização da política passará pela simplificação do projeto nacional de educação. Simplesmente, tratemos de ensinar crianças e adolescentes a ter respeito com o próximo, o que tornaria desnecessário todo o tipo de discurso fetichizado sobre racismo, fascismo, machismo e homofobia. Isso requer do sistema educacional brasileiro uma disposição ética e cognitiva para a inserção da abordagem liberal clássica, cujo pressuposto básico está justamente no respeito ao indivíduo e na igualdade de tratamento. O resto é perfumaria.

 

 

*Walter Marcos Knaesel Birkner é doutor em Ciências Sociais e professor visitante da UFRR

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