A insustentável leveza do ser brasileiro

Estamos movidos pelas emoções, pelas paixões e na ânsia de conferir um sentido aos acontecimentos

 

 

Sandro Luiz Bazzanella*


 

A experiência existencial humana demonstra ao longo das noites que se perdem no tempo que diante de um evento natural, de um acontecimento individual, ou de um fenômeno social abrupto, a primeira reação dos seres humanos é procurar desesperadamente se proteger do desconhecido. Ato contínuo e, imediato multiplicam-se explicações como tentativa de resposta ao fato. Nestes momentos movidos pelas emoções, pelas paixões e na ânsia de conferir um sentido aos acontecimentos, especulam-se em torno das possíveis causas do evento, as razões que levaram indivíduos a agirem de determinada forma, ou mesmo os culpados pela derrocada de uma proposta societária.

 

 

Explicações e respostas aligeiradas aos eventos, aos acontecimentos, ou aos fenômenos não raras vezes se apresentam insuficientes, senão equivocadas. A devida compreensão dos fatos e dos acontecimentos requer prudência, persistência e paciência para transcender os aspectos conjunturais em movimento e alcançar as prerrogativas estruturais onde podem se localizar as causas de tais fenômenos. Tudo indica que a sociedade brasileira se encontra num destes momentos em sua cíclica trajetória política e social.

 

 

Sob tais pressupostos, atentemos para dois pensamentos que podem se apresentar incômodos na atual conjuntura. “Um povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la” (Edmund Burke 1729-1797). “Os povos se ressentem de suas origens” (Alexis de Tocqueville 1805-1859). Estas duas máximas, a primeira proferida pelo político liberal, filósofo, e orador irlandês e, a segunda pelo aristocrata, filósofo e cientista político francês, nos coloca diante de paradoxos constitutivos da sociedade brasileira.

 

 

O primeiro destes paradoxos e, não necessariamente nesta ordem, encontra-se no fato de que desde nossas origens nos conformamos como uma sociedade autoritária, verticalizada em que a dialética do “senhor e do escravo” (Hegel) se manifesta clarividente. Em todo escravo reside à vontade de ser senhor, de replicar as práticas autoritárias de que foi vítima sobre seu próximo. Ou dito de outro modo, em todo escravo reside a vontade de obedecer ao domínio de seu senhor e, desejar que seus semelhantes assim procedam docilmente. Porém, disfarçamos esta condição autoritária com os rótulos de que os brasileiros são um povo acolhedor, alegre, festivo e pacífico.

 

 

Essa condição paradoxal autoritária manifesta-se nas inúmeras variáveis que constituem a conformação de “dois brasis”. Um Brasil de minorias com acesso a padrões de vida e de consumo de primeiro mundo e um Brasil de milhões de assalariados em condições precárias de vida. Um Brasil de lobbies e corporações que se locupletam com os recursos públicos e um Brasil que desesperadamente necessita do amparo público. Um Brasil de magistrados, letrados e especialistas, de reconhecimento internacional e um Brasil de analfabetos funcionais. Um Brasil de matriz e racionalidade civilizatória de origem européia e outro Brasil de indígenas e afro descendentes, cuja racionalidade e visão de mundo não se conforma tacitamente aos modelos impostos e vigentes. Um Brasil integrado nas festas populares, no carnaval e no futebol e um Brasil que no dia seguinte criminaliza a cultura e os hábitos populares.

 

 

 

Ainda nesta direção, um Brasil que cinicamente insiste em proclamar a importância estratégica da educação para o desenvolvimento do país, mas que na prática desconsidera, senão desautoriza professores em relação à liberdade de cátedra. Um Brasil que reconhece a infância como um momento especial na formação humana e, outro Brasil que avilta suas crianças, adolescentes e, jovens limitando as oportunidades educacionais e profissionais. O filósofo pré-socrático Pitágoras no século V a.C advertia para o fato de que uma sociedade que menospreza suas crianças necessariamente terá que bater nos seus adultos.



 

 

Paradoxalmente ouvem-se generalizados e comprometidos discursos em defesa da democracia. Porém, partes significativas destes discursos desconhecem as exigências da democracia, o comprometimento republicano, o cuidado com a dimensão pública, com liberdade de expressão. Ainda nesta direção, nos dois brasis alguns são mais iguais que os outros perante a lei.  Em terras tupiniquins democracia tornou-se sinônimo de opinião pública, rápida, rasteira, efêmera ansiosa por impor a “verdade”. Em sua acefalia a opinião pública apresenta-se tirânica em sua pretensa defesa da democracia.

 

 

Apresenta-se ainda nos dois brasis o paradoxo daqueles que se proclamam liberais, não definindo adequadamente tal condição. Não se esclarece se estão a anunciarem-se como defensores do liberalismo econômico, ou de liberalismo político. Tudo indica que,parte significativa destes discursos se apresenta como defensores do liberalismo econômico. Em sua versão clássica o liberalismo econômico pressupõe a igualdade de condições como ponto de partida, oportunizando a cada indivíduo no exercício da liberdade de constituir-se em sua autonomia preservando o espaço público. Porém, num dos brasis a igualdade de condições como ponto de partida é apenas uma quimera. Ademais, confunde-se liberalismo econômico com “liberdade de mercado”. Desconhecem, ou cinicamente desconsideram o fato de que a suposta “mão invisível” do mercado exige constantemente a segurança do braço forte do Estado.

 

 

Mas, talvez o paradoxo mais dramático que se apresenta para uma sociedade que desconsidera suas origens, sua história, reside na condição de que diante de uma crise opta pela estratégia de Alice. A personagem do famoso conto infantil, que a procura do país das maravilhas encontra-se numa encruzilhada com o gato e lhe pergunta: “Qual o melhor caminho?”. Responde-lhe o gato: “Para quem não sabe para onde vai qualquer caminho serve”.  Nestes contextos, de incapacidade de decidir sobre o caminho a seguir, resultante da incompreensão da natureza do problema em que está envolta, a sociedade se torna presa de promessas messiânicas carregadas de propostas simplistas e salvacionistas.  Nestes contextos, os paradoxos e contradições que estruturalmente se apresentam nos fundamentos da sociedade brasileira desaparecem. Há um caminho, uma verdade, uma luz a ser seguida. A salvação esta logo ali na frente, basta apenas extirpar os indesejáveis, os coxos, o diferente.

 

 

A manifestação e sobrevivência societária de propostas messiânicas necessitam identificar e apontar o “mal”, “os culpados”, aqueles que merecem ser condenados como os únicos responsáveis pela desgraça que se abateu sobre a sociedade, sobre o país.  É característico de movimentos messiânicos nuances de exercício do poder a partir de variáveis totalitárias. Ao identificar um suposto inimigo da pátria, da família, dos valores, da propriedade e, impregnam as massas acéfalas com discursos de ódio, criminalizando o pensar autônomo e, sobretudo afirmando tacitamente e peremptoriamente que o caminho da verdade requer enfrentamento, senão o exercício da violência.

 

 

Messianismo, fundamentalismos, pequenas verdades, rótulos, bodes expiatórios, autoritarismos, acusações, e, sobretudo a crença de que obedecendo tacitamente aos imperativos de (i)lógica da economia de mercado se possa alcançar a terra prometida, a afirmação da soberania, o protagonismo na definição dos rumos do desenvolvimento social. Neste contexto, proliferam discursos que exaltam a grandiosidade da pátria, a exuberância de suas riquezas naturais, a força do povo e, sobretudo discursos eivados do argumento em torno de um destino manifesto da grande nação, soberana e desenvolvida.

 

 

Pensar e compreender as inúmeras variáveis que conformam os “dois brasis” é a tarefa civilizatória que requer empenho e zelo por parte daqueles indivíduos e cidadãos que se desafiam a pensar para além das aparências. Requer capacidade de diálogo, de abertura para a acolhida do argumento do outro, do diferente como condição primeira da existência do debate. Desconsiderar a dimensão dialógica significa cair na tentação da afirmação de verdades, de limites compreensivos em relação aos desafios presentes no horizonte civilizatório, permanecendo na insustentável lógica dos ciclos políticos e econômicos.

 

 

 *Dr Sandro Luiz Bazzanella é professor de Filosofia

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