A dor de um irmão vítima da ditadura

DM/Arquivo

Adair Dittrich conta detalhes da traumática experiência com a ditadura militar no Brasil

 

 

São sempre as mesmas tétricas imagens que invadem a minha mente. Elas chegam enquanto eu tento me envolver em meio às névoas que as árvores do meu jardim invadem. Enquanto eu tento me envolver na diáfana luz que da lâmpada do poste emana e ao adentrar este nevoeiro em lindos tons esverdeados se transforma.


 

 

São tétricas imagens que invadem a minha mente enquanto eu tento me envolver em meio às risadas coloridas e cristalinas de uma juventude feliz que canta e encanta.

 

 

Imagens de uma sala taciturna, de uma grande sala. Que de janelas não lembro se havia. Imagens de uma grande mesa escura. Imagens de muitos homens em verde oliva trajados e em torno dela sentados. Imagens e vozes que ousaram denegrir a imagem e a pessoa de minha mãe.

 

 

Eu lá eu entrei em busca de informações. Eu precisava saber do paradeiro de meu irmão desaparecido. E a um interrogatório me submeteram. E nada eu podia contar. Porque de nada eu sabia. Eu só sabia de mim e de minhas andanças em torno de meus pacientes. Mas eles queriam a presença de minha mãe. Palavras de escárnio e de deboche eu ouvi. Porque, disseram-me eles, se ela tivesse bem educado ao meu irmão ele não teria se metido na vida que levara… A vida de defender da quase escravidão os mineiros que trabalhavam na escuridão das minas da zona carbonífera do sul de nosso estado.

 

 

Mas de algo, certamente, eles temiam. Porque obrigaram-me a redigir um documento atestando, sob fé de meu grau de médica, que meu mano era portador de uma grave úlcera de estômago. Sim, porque o motivo da cirurgia de emergência a que fora submetido era uma úlcera de estômago perfurada…

 

 

Se não houvesse uma úlcera crônica, nada teria acontecido, queriam fazer-me crer. Não, não foi o jejum prolongado e nem as torturas físicas e mentais pelas quais fizeram-no passar as causas desencadeadoras da grave peritonite que quase o levou à morte.

 

 

Então, na cabeceira da grande mesa eu fiquei sentada. À frente uma grande folha de papel em branco. Não, eu não assinei aquele documento como médica. Consegui redigi-lo sem afirmar, em linha alguma, ser sabedora de que ele seria portador de uma úlcera péptica. Porque dele e de sua úlcera eu nunca vira sequer uma imagem radiográfica. Malabarismos de palavras elaboradas naquela folha eu joguei. E apenas como irmã dele embaixo eu assinei.

 

 

Chegada era a hora, então, de me conduzirem ao local onde ele se encontrava. Que seria um pavilhão de apoio do Hospital de Clínicas da cidade de São Paulo.

 

 

Colocaram-me dentro de uma super bem equipada perua Veraneio preta, com vidros escuros, conduzida por um indivíduo trajado com uma camiseta branca apertadíssima, calças de índigo blue, coturnos e cabelos cortados à escovinha… Foi um longo trajeto o percorrido. Entre a rua Tutoia e a Avenida Dr. Arnaldo. Mais de meia hora num trânsito ainda leve naquele ano de 1975. Mas muitas voltas foram dadas. Porque, explicou-me o motorista, desviar de prováveis intrusos era preciso. Sim, porque julgavam que não apenas eles, os homens da repressão, estavam com mil olhos em cima de mim… Pois é, supostos companheiros poderiam ir em busca do prisioneiro alquebrado dentro do nosocômio…

 

 

Para a ala onde meu irmão se encontrava eu fui levada. No quarto onde ele se encontrava eu pude entrar. Nítida sempre aquela imagem diante de meus olhos me acompanha. Seu sorriso não me enganou. Pálido. Muito pálido. Quase não conseguia erguer os braços para o fraterno abraço cheio de saudade. Fraqueza infinda, mesmo após mais de dez dias de pós operatório…

 

 

E os punhos dele… e os tornozelos dele… Quatro chagas circulares abertas… Quatro marcas de algemas que cavaram profundamente sua carne… No abdômen, não apenas a marca longitudinal e reta do local onde fora efetuada a incisão cirúrgica. Outras por lá disseminadas e desenhadas nas mais variadas direções. Mas ele nada me contou. Não precisava.

 

 



Sentei-me ao lado dele. Entreguei-lhe várias cartas. De minha mãe, da esposa Gecy, de minhas irmãs Aline e Avany. E as fotos de seu bebê, da menininha que estava então apenas oito meses de vida. Lágrimas vertem-me quando eu me lembro do carinho com que ele, em suas mãos, pegou aquelas fotografias. Beijou-as, uma a uma enquanto balbuciava palavras de amor e de saudade de seu bebê, de sua tenra menininha…

 

 

Mas eu queria saber detalhes de seu estado clínico. O colega de plantão então me mostra um prontuário onde não constava o nome dele. Apenas um número. Em lugar do nome a palavra Desconhecido, com a inicial maiúscula. Nada o colega me falava. Com os olhos, apenas, deu-me a entender que o silencio era imperativo.

 

 

A evolução clínica era a imagem real do que havia acontecido. Quando o abdômen fora aberto, a peritonite estava instalada. Não, não fora internado de imediato, logo aos primeiros sinais da pérfida perfuração. Preciso foi ter sido instalado um grave caso de septicemia para que, somente assim, o socorro médico fosse procurado. Mas não foi por bondade que o salvaram. Salvaram-no para dele tentar, mais tarde, extrair mórbidas confissões e denúncias contra os companheiros. O que jamais conseguiram.

 

 

Impressionante como se ficam sabendo das coisas, mesmo depois de muitas luas. Saber, por exemplo, que dentro da sala de cirurgia não se encontrava somente a equipe médica. Lá se encontravam pessoas outras com armas apontadas para os que lá dentro tentavam salvar uma vida. Para silenciá-los. Para que nada ao enfermo deitado naquela mesa cirúrgica fosse perguntado.

 

 

Somente anos depois eu tive a explicação das profundas marcas deixadas pelas algemas. Aldo fora conduzido de Curitiba para São Paulo no chão de um Fusquinha. Deitado de bruços sobre a corcova de um Fusquinha. No assoalho do carro. Com as mãos algemadas nas costas. Com os tornozelos algemados e dobrados em direção às suas costas. E com os gendarmes apoiando as botas sobre as suas costas.

 

 

Levou com ele para o túmulo as marcas das algemas. Levou com ele para o túmulo as marcas mentais e físicas pelas quais fizeram-no passar.

 

 

Quando fui para Salvador, na Bahia, algum tempo depois, a fim de participar do Congresso Brasileiro de Anestesiologia, fiz escalas na ida e na volta em São Paulo, a fim de poder visitar meu mano no Doi-Codi. Claro que tudo agendado previamente com o poder estabelecido. O mesmo cerimonial de compras em butiques da Rua Augusta. De visitas a cabeleireiros. De ir até a rua Tutoia apenas em táxis de luxo.

 

 

Aldo já se encontrava em melhores condições, embora magérrimo. Sorrindo veio ao meu encontro na sala designada. Mas vê-lo dentro de um apertado uniforme verde oliva, um uniforme tipo soldado raso foi deprimente. E não era somente ele. Outro prisioneiro que estava recebendo a visita de sua irmã e de sua mãe também vestido assim se encontrava.

 

 

Uma longa viagem para uma curta e resumida conversa vigiada.

 

 

E então uma extensa lista de objetos a serem comprados para uso pessoal de Aldo me foi entregue. Uma longa lista com tudo o que um homem necessita para sua toalete. E mais pijama, toalhas, guardanapos, cuecas, lenços e meias, além de algumas frutas, chocolates e outras guloseimas. Objetos que deveriam ser adquiridos em um supermercado que ficava a alguns quarteirões dali, subindo-se uma ladeira. Não havia sacolas para se levar a mercadoria. Então comprei também um grande saco de aniagem e um rolo de barbante para poder carregá-lo.

 

 

Entreguei tudo na portaria, aos cuidados do oficial-carcereiro do dia. Como faltaram alguns itens fui intimada a procurá-los em algum outro supermercado. E deixar naquela mesma guarita-portaria no dia seguinte quando eu seguisse em direção ao aeroporto para tomar o avião rumo a Salvador.

 

 

Uma nova e longa história a ser tecida em torno desta entrega.

 

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