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A despedida a uma das mais longevas moradoras de Canoinhas

Erika Zacko/Fotos: Arquivo da família

Erica Zacko morreu aos 103 anos na semana passada                                                                    

 

Morreu na semana passada, aos 103 anos, uma das mais longevas moradoras de Canoinhas. Com memória intacta e sorriso no rosto, Erica Zacko “vai-se com ela uma parte da história de Canoinhas”, ouviu-se em seu velório. É impossível afirmar, por não haver pesquisa neste sentido, mas a reportagem não conseguiu encontrar moradora de Canoinhas mais longeva.

 

 

Felizmente, em 2005, o editor do JMais, Edinei Wassoaski, entrevistou Erica para o jornal Correio do Norte quando ela recém-completava 90 anos. Em homenagem a Erica, reproduzimos abaixo a entrevista seguida de galeria de imagens da vida de Erica fornecida pela família. Acompanhe:

 

Esperta, bem disposta e impressionantemente lúcida. Essa é a Erica Zacko, de 90 anos, que encontramos na ensolarada tarde de 31 de janeiro de 2005, na casa onde mora sozinha desde que o marido morreu, há 22 anos.

 

 

A descendente de alemães chegou a Canoinhas quando ambas eram precoces: ela tinha apenas seis anos, Canoinhas acabava de completar 11 anos. Foi desbravando a mata da localidade hoje conhecida como Parado que os pais de Erica conseguiram, com muito esforço, construir uma pequena casa feita com a madeira tirada das muitas árvores de imbuia ali existentes.

 

 

Mas essa história tem um começo mais longínquo e interessante. Na verdade, essa foi a segunda vez que a família deErica a veio morar em Canoinhas, vindos de São Bento do Sul, um dos maiores pólos migratórios de Canoinhas que hoje parece ter sido invertido. Se no início do século 20, milhares de sãobentenses descentes de alemães, em sua maioria, migravam para Canoinhas, hoje são milhares de canoinhenses que migram para São Bento do Sul. Parece que a cidade centenária está pagando suas dívidas com a história, com Canoinhas que enriqueceu boa parte dos imigrantes alemães vindos de São Bento do Sul.

 

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Mas nem sempre foi assim. Segundo o historiador Fernando Tokarski, por volta de 1913, o descendente de noruegueses Bernardo Olsen, vindo de São Bento do Sul, loteou uma grande área de terras na localidade do Parado (é importante lembrar que muitas localidades foram fundadas antes da vila de Canoinhas) e trouxe dezenas de famílias de São Bento do Sul. Entre eles, provavelmente estavam os Endler, família de Erica.

 

 

Comprando terras de Olsen, os pais de Erica conseguiram se fixar na localidade, plantando para seu próprio sustento.

 

 

Mas em 1914 estourou a Guerra do Contestado na região e a família perdeu tudo durante uma invasão de jagunços que queimaram a propriedade e tomaram as terras, obrigando a família a se refugiar em São Bento do Sul. Conhecidos como jagunços, segundo Tokarski, esses invasores eram na verdade os nossos sertanejos, aliados a monges ou que simplesmente lutavam por questões pessoais, muitas vezes desconhecendo a essência da guerra. Erica conta que sua mãe, prevendo a invasão, enterrou os pertences mais valiosos da família para depois levá-los consigo para São Bento do Sul na esperança de negociá-los por terras.

 

 

De 1914 a 1915 era praticamente impossível viver na recém-fundada cidade de Canoinhas. As invasões de jagunços eram contínuas e os incêndios comuns. Tokarski conta que os jagunços chegaram a queimar uma serraria que ficava onde hoje está a Prefeitura de Canoinhas. A serraria pertencia ao empresário Emílio Scholze, hoje lembrado como nome de rua.

 

 

O RETORNO

 

Felizmente, a família de Erica não teve a mesma má sorte da primeira vez que viveu em Canoinhas quando retornaram da vida sofrida de São Bento do Sul, com poucos recursos e miséria. Chegando em Canoinhas, em 1922, a família encontrou uma cidade em pleno desenvolvimento, mas ainda de recursos limitados. O pai de Erica, marceneiro de mão cheia, se esbaldou com a quantidade de madeira na região. A família voltou a se fixar na localidade do Parado, onde o pai de Erica montou uma marcenaria, onde fazia de tudo com a madeira, desde móveis até rodas de carroças. “Papai era um homem muito trabalhador”, lembra. O excesso de trabalho o levou cedo. Morreu aos 48 anos, tomando chimarrão, quando teve um infarto.

 

 

Pouco depois, aos 18 anos, Erica se casou com Henrique Zacko, servente de pedreiro recém-chegado de Jaraguá do Sul. Uma humilde profissão que permitiu Henrique fazer parte da construção de importantes obras para Canoinhas como a torre da primeira Igreja Matriz Cristo Rei, o malfadado Colégio Almirante Barroso e a Sociedade Beneficente Operária (SBO). Aliás, foi na SBO que Henrique levou o maior susto de sua vida. Caiu de um andaime junto com colegas e sofreu várias fraturas. Um de seus companheiros morreu depois  da queda. Henrique ficou um ano e meio hospitalizado.

 

 

Com Henrique, Erica teve quatro filhos, três homens, dois deles falecidos e uma mulher.

 

 

LUXO E RIQUEZA

 

“Sempre trabalhei, fiz de tudo, ajudei meu marido e sempre tive meu próprio dinheiro”, conta Erica que até hoje aceita encomendas de um doce esquisito, feito em uma forma mais esquisita ainda, mas que os admiradores garantem: é uma delícia. Trata-se do wafew, prato de origem inglesa, assado na chapa do fogão à lenha de Erica, feito à base de farinha de trigo.

 

 

Mas não é de hoje que os dotes culinários de Erica são famosos. Durante sete anos, ela foi a cozinheira chefe do lendário Clube de Tiro ao Prato, que existia em Três Barras. Freqüentado por gente de prestígio e dinheiro como médicos, advogados e empresários, o clube era um primor de luxo e requinte. “Ali não entrava gente pobre”, lembra Erica. “Eu cozinhava para eles porque eles tinham muita confiança em mim e adoravam minha comida”, recorda. Nos finais de semana, vinham pessoas de diversas partes do país. “Os carros eram lindos”, lembra. Além de atirar nos pratos, a diversão maior dos associados ao clube era matar pombos. “Esses pombos eram criados ali mesmo, e depois de mortos eram doados para instituições de caridade”, conta Erica.

 

ERVA-MATE

 

Erika também fez parte da história de evolução da erva-mate em Canoinhas. Ainda solteira, ajudou os pais a colherem, sapecarem e ensacarem a erva que era comercializada no centro da cidade ou em localidades próximas.

 

 

Erica conta que a fartura de erva-mate era muito grande e que as famílias se uniam para comercializar a erva sem que para isso contratassem funcionários ou montassem empresa. O difícil era colher a erva, já que a colheita era feita somente no inverno. Em outras épocas do ano, a erva estava se desenvolvendo. “Só era possível colher o broto da erva, que não presta para sapecar, tem muita cafeína”, explica.

 

 

Erica lembra que seu pai usava um cavalo, selado a uma roda de madeira fixada a uma enorme peneira. À medida que o cavalo era estimulado a andar, a roda girava e a erva era jogada na peneira. Só os pedaços secos de erva caiam para baixo da peneira, eram ensacados e estavam prontos para serem comercializados.

 

TEMPOS DIFÍCEIS

 

Erica conta que antes de se casar, a vida era muito difícil em Canoinhas. “Você comia carne só no domingo e, na maioria das vezes, tinha que viver do que plantava”.

 

 

Perguntada sobre o que mais lhe marcou na cidade nesses anos de vivência, ela lembra da famosa enchente de 1983, quando, segundo ela, um barracão de erva mate chegou a ficar submerso, próximo ao valetão.

 

 

Em meados da década de 50, Erica lembra que o centro de Canoinhas era composto por três bases fortes: a praça Lauro Muller, o comércio de Roberto Elke, onde hoje fica o Lojão Para Todos e o Banco Inco.

 

 

Em Marcílio Dias, que ficava mais próximo do Parado, onde Erica morava, o comércio dos Ulscan, era o socorro da família.

 

 

Um fato curioso nessa época foi a prisão de Kurt Mendes, um alemão que cuidava da hidrelétrica que fornecia energia para Canoinhas. No auge da 2.ª Guerra Mundial, o governo de Getúlio Vargas queria deportar o alemão para seu país, onde possivelmente seria morto nos campos de concentração por não ser um alemão legítimo, com raízes judias. Kurt foi salvo pelo fato de ser o único a saber como por a hidrelétrica em funcionamento. Para Canoinhas não ficar no escuro, as autoridades do município fizeram vistas grossas sobre a nacionalidade do alemão.

 

 

Sobre o que mudou, Erica destaca o aumento dos bairros que para ela foi espantoso. Quanto às administrações públicas, Erica conta uma lembrança que mais se parece com sugestão: “Antigamente, os colonos trabalhavam três dias em obras públicas para pagar seus impostos”.

 

 

 Na época de ouro da madeira, Erica lembra que muita gente investiu e ganhou dinheiro com serrarias, como os Voigt para quem lavava a roupa de oito funcionários, extremamente sujas, fruto do trabalho braçal pesado.

 

 

Erica lembra com nostalgia essa época em que distritos como Marcílio Dias se desenvolviam em ritmo acelerado por conta da grande quantidade de madeira existente no distrito. “Com a decadência da madeira, o distrito minguou”.

 

 

Mas, como bem lembrou Erica, “com o tempo, se some tudo”.

 

 

Quanta nostalgia!

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