70 ANOS DA TRAGÉDIA DE VALINHOS

Altar da igreja da localidade ficou intacto/Arquivo

Há exatos 70 anos, Valinhos, no interior de Canoinhas, vivia uma das maiores tragédias do século em Santa Catarina: 23 pessoas mortas em um temporal

 

Uma noite de horrores

 

16 de maio de 1948. Valinhos, localidade a 40 quilômetros de Canoinhas, não era muito diferente do que é hoje. Comunidade bastante religiosa, tinha na Madeireira Thomasi sua principal atividade econômica, depois da agricultura, ainda mais forte no distrito de Felipe Schmidt, que fica a dez quilômetros da localidade e na qual muitos moradores de Valinhos trabalhavam.

 


 

À época, o acesso do centro da cidade a Valinhos demandava uma viagem de duas horas. O acesso dava-se pela atual BR-280, só asfaltada e tornada rodovia nos anos 1980. Essa dificuldade de acesso tornou ainda mais dramática a situação daquela noite de horrores.

 

 

Às 20h15 boa parte dos moradores já estava debaixo das cobertas. Era um domingo frio e chuvoso.

 

Euclides Miranda no local por onde o vendaval passou/Fátima Santos

Euclides Miranda, 84 anos, estava deitado em sua cama, no quarto que dividia com uma irmã de 17 anos e um irmão de oito anos, quando ouviu um estrondo que parecia vir de Felipe Schmidt. “Parecia que o furacão explodia um monte de dinamites cada vez que tocava o chão”, relata. A dinamite a que Euclides se refere, certamente era o barulho de casas de morada e de comércio, igreja, escola, serrarias e currais que foram varridos, por ventos de mais de 400 quilômetros por hora, em menos de cinco minutos. A casa onde Euclides vivia com a família não escapou. A destruição deixou-o por mais de 12 horas debaixo dos escombros, salvo pelas pernas da cama que seguraram o teto que caiu sobre ele. Seus irmãos, no entanto, não tiveram a mesma sorte. “A tábua que caiu em cima da cabeça do meu irmão deixou seu rosto fininho”, conta com naturalidade, demonstrando que os anos o ajudaram a aceitar o trauma da perda e as cenas de horror que testemunhou com apenas 14 anos de idade.

 

 

 

O jornal A Noite, do Rio de Janeiro, que mandou dois repórteres para Valinhos, relata que o horror se instalou no distrito. “Gritos de dor, chamados de socorro partiam de centenas de casas e vinham de todas as direções. Pais chamavam angustiosamente pelos filhos, maridos pelas mulheres, mas as vozes eram abafadas pelo rumor da tempestade destruidora (…) Várias senhoras, que lograram agarrar-se aos mourões ficaram totalmente desnudas. O vento rasgou-lhes as roupas para depois despi-las por completo. Apavoradas, as infelizes largaram os troncos de árvores, sendo atiradas ao brejo”, relata o jornal.

 

 

O Correio do Norte, jornal mais longevo de Canoinhas, tinha recém-completado um ano de existência quando a tragédia aconteceu. O editor Guilherme Varela foi até o local dos fatos e registrou cenas desoladoras. “Quem não sentiu de perto a desolação, o silêncio que impõem tais acontecimentos, quem não escutou os queixumes dos que se salvaram, quem não teve contato direto com a criançada que órfã ficou, não pode avaliar a extensão do imenso desastre”, registrou. Ainda em Valinhos morreram 18 pessoas. Outras cinco vítimas morreram no Hospital Santa Cruz, de Canoinhas.

 

 

 

RASTRO

João Kaschuk/Fátima Santos

João Kaschuk, 83 anos, mora em Felipe Schmidt desde criança. Tinha 13 anos quando ouviu numa segunda-feira, 17 de maio de 1948, rumores de que Valinhos estava arrasada. A curiosidade levou–o a ver uma cena de horror que começava pelo caminho à localidade. Ao chegar lá, só destruição. “Não sobrou nada, foi um risco de destruição”, conta.

 

 

Floriano Suchek, único sobrevivente da família, contou em 2008, à reportagem do jornal Correio do Norte que sua mãe, muito religiosa, convocou a família a rezar de joelhos, prevendo “o fim do mundo”. Floriano percebeu que uma janela estava aberta e ao tentar fechá-la viu o monstruoso furacão aproximando-se. Em questão de segundos viu-se com a janela na mão e a casa completamente destruída, com toda a família morta sob os escombros. Ao voltarmos à casa de Floriano, na semana passada, descobrimos que ele morreu há dois anos, aos 93 anos de idade por causas naturais. Sua filha, Márcia Bernadete Sucheke é professora na escola de Felipe Schmidt. Ela conta que o pai nunca se esqueceu do horror daquela noite. “Sempre que o tempo se preparava para temporal ele começava uma oração”, recorda.

 

O FATO

Famílias desoladas visitam escombros em Valinhos/Arquivo

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 

 

É difícil precisar o que de fato aconteceu naquela fatídica noite em Valinhos, um ponto obscuro no mapa para os precários institutos de meteorologia à época. De uma coisa, no entanto, tem–se certeza. O gerente regional de Defesa Civil de Canoinhas, Edson Antocheski, garante que não se tratou de um furacão, como foi amplamente divulgado pela imprensa à época. “Furacões só acontecem no litoral”, define. Na região de Canoinhas são mais comuns as microexplosões ou tornados (no vídeo abaixo é possível saber a diferença entre os dois).

 

 

 

Pelos relatos dos sobreviventes é mais provável que um tornado tenha passado por Valinhos. “As microexplosões achatam tudo porque o vento vem de cima para baixo, já os tornados sugam e levam o vento para a nuvem, então conseguem arrancar as coisas do chão e jogar para cima”, explica a professora de meteorologia da USP (Universidade de São Paulo), Rachel Albrecht.

 

Destruição causada pelo temporal/Arquivo

Antocheski concorda que a tragédia de Valinhos foi uma das maiores da história de Santa Catarina, mas não é a maior. Em 1974, 199 pessoas morreram em Tubarão vítimas de uma enchente.

 

 

DOR E DESESPERANÇA

O que aconteceu nos dias seguintes ao furacão foi a agonia de uma localidade promissora. Em questão de poucos dias, as mais de 150 famílias que viviam em Valinhos foram deixando a localidade. A maioria decidiu deixá-la e morar com parentes em localidades vizinhas ou, simplesmente abandoná-la.

Rastros de destruição/Arquivo

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na segunda reportagem da série, que será publicada nesta quinta-feira, 17, o JMais mostra relatos de testemunhas da tragédia.

 

 

FRAGMENTOS DE UMA TRAGÉDIA

 

  • Os Drs. Fernando de Oliveira e Haroldo Ferreira passaram mais de 12 horas cuidando dos feridos no local da tragédia.

 

  • Uma criança de dois anos foi encontrada, na manhã seguinte à tragédia, sem nenhum ferimento, em pé, longe de onde estava sua casa, carregada pelo temporal.

 

  • 52 casas desapareceram junto com a igreja e a escola.

 

  • Um rapaz foi encontrado espetado no galho de uma árvore. Com equipamentos limitados, os socorristas deceparam seus braços para retirar o corpo.

 

  • Seis carpinteiros e 10 ajudantes trabalharam em ritmo acelerado para fabricar os caixões para depositar os corpos estendidos sobre tábuas na serraria Thomasi.
  • Na hora do furacão morreram 18 pessoas. Outras cinco morreram no hospital.

 

  • Todos os corpos foram sepultados no cemitério de Felipe Schmidt.

 

  • Uma propriedade, que seria vendida por 70 mil cruzeiros, foi varrida pelo vento. O negócio, claro, foi desfeito.

 

  • Cerca de 3 mil curiosos foram conferir de perto os estragos do temporal.

 

  • O jornal A Noite, do Rio de Janeiro, sobrevoou o local fotografando os estragos.

 

  • Duas crianças foram encontradas mortas, abraçadas, na cama que dividiam.

 

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