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70 ANOS DA TRAGÉDIA DE VALINHOS

Miranda mostra local por onde o vendaval passou/Fátima Santos

Único sobrevivente homem da tragédia a ainda morar em Valinhos, Euclides Miranda conta detalhes daquela noite terrível

 

Testemunhas do horror

 

Na varanda de uma casa espaçosa, de madeira, Euclides Miranda, 84 anos, olha para o horizonte como quem vislumbra um futuro promissor. Também pudera. O presente já é uma dádiva para o sobrevivente de uma noite trágica, que viu dois irmãos morrerem ao seu lado.

 

 

“Anoiteceu trovejando. A primeira casa que o furacão pegou foi da família Zavascki. Eles iriam fazer uma dança. Primeiro o vento ergueu a casa e jogou eles no terreiro. A casa foi embora, ficou só o assoalho. Depois, ergueu o assoalho e tombou em cima deles. Quando eles quiseram sentir o peso do assoalho, subiu e caiu de novo sobre eles”, relata com a certeza de que foi um furacão que passou por Valinhos na noite de 16 de maio de 1948 (furacões só ocorrem no litoral). Apesar da violência, não morreu nenhum dos membros da família. Adiante, o vento foi mais cruel. A casa onde Euclides vivia com a família não ficou impune. A destruição deixou-o por mais de 12 horas debaixo dos escombros, salvo pelas pernas da cama que seguraram o teto que caiu sobre ele. Seus irmãos, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Miranda dormia na mesma cama com um irmão. Outras duas irmãs dormiam em uma cama ao lado. “Caiu uma viga em cima de nós, quebrei a clavícula e o osso da paleta. Meu irmão morreu. A mesma viga caiu em cima das minhas irmãs. Matou uma e outra ficou”, relata. Somente às 10 horas do dia seguinte, Miranda foi tirado dos escombros. Além dos dois irmãos, um tio que morava com a família, morreu. A mãe, grávida, e o pai, sobreviveram. “Meu pai caiu a par do fogão e abraçou dois irmãos meus. Minha mãe caiu para o terreiro, salvou meu irmão, que nasceu dias depois, por um milagre”.

 

Euclides Miranda em sua casa/Fátima Santos

Quando saiu dos escombros, Miranda viu um descampado. “Quase perdi o juízo”. Ele lembra que, à época, especulou-se que uma bomba poderia ter sido jogada sobre a localidade. “Imagine, uma ripa furou uma árvore, atravessou. O pessoal do Rio de Janeiro que esteve aqui levou para um museu (o tronco da árvore)”. Não foram só árvores que foram atravessadas. Fotos mostram um cavalo com uma ripa atravessada por seu corpo. “Tiraram foto só de um cavalo, mas muitos outros morreram”, recorda-se.

 

Estrada de acesso a Valinhos. Local por onde passou o vendaval/Fátima Santos

João Kaschuk, 83 anos, que morava em Felipe Schmidt à época. Conta que, quando chegou em Valinhos, no dia seguinte, teve a impressão de que o temporal foi seletivo. “Não pegou nada da serraria (Thomasi), foi passando como um facho, varrendo tudo, levou a escola e a igreja e foi arrancando tudo”, descreve ele.

 

 

 

RELATOS

Os repórteres do jornal A Noite, do Rio de Janeiro, que cobriu a tragédia, foram ao Hospital Santa Cruz entrevistar os sobreviventes. Os menos feridos foram levados para a Serraria Thomasi. Os mais feridos ficaram no local, aguardando o dia clarear para serem socorridos. O breu era total. No resgate dos feridos, Armelindo Thomasi, dono da serraria e do principal armazém da localidade, teve um papel primordial. Como boa parte da população local trabalhava em sua serraria, o empresário sentia-se responsável por aquele povo. Tanto que, na noite da tragédia, foi ele quem mandou um emissário ao centro de Canoinhas para arregimentar ajuda enquanto ele, Henrique Gonçalves, Henrique Tulinevelitz e Stanislau Baranosseb formavam uma força tarefa para resgatar os feridos. Um velho paiol de milho foi transformado em necrotério e as instalações da serraria em enfermaria. Thomasi chamou atenção por sua propriedade, com exceção do estoque de madeira, ter se mantido intacta. Uma das vítimas disse ao Correio do Norte à época: “Deus foi muito bom nessa dolorosa tragédia, não quis que o furacão destruísse o que pertencia a Armelindo Thomasi porque então a tragédia seria maior”.

 

 

Ao jornal A Noite, Armelindo relatou que Antonio Fabrício, humilde lavrador, disse a ele: “Sinto um peso na cabeça e nada enxergo. Veja o que pode fazer para acabar com meu sofrimento”. O homem estava com uma enorme farpa de madeira que lhe rasgava o olho esquerdo, cuja ponta saía na base do crânio. Armelindo quis recuar. Fabrício, no entanto, implorava por ajuda. Armelindo, então, puxou a farpa com força e Fabrício caiu morto.

 

 

 

O SOCORRO

O prefeito à época, Otávio Tabalipa, recrutou médicos e enfermeiros e mandou seis caminhões com suprimentos para Valinhos. Os mais feridos, que necessitavam de cirurgias, foram levados nos mesmos caminhões para o hospital. Mais de 300 pessoas receberam assistência médica, no local, pelos médicos que ficaram por dois dias em Valinhos.

 

 

O Governo do Estado liberou 50 mil cruzeiros para ajudar as vítimas. A Legião Brasileira de Assistência fez a entrega de 15 mil cruzeiros. O dinheiro serviu para comprar comida e roupas aos desabrigados.

 

 

 

MALDIÇÃO

No Hospital Santa Cruz, os sobreviventes feridos relataram ao jornal A Noite que não queriam mais voltar a Valinhos. Ermelino Rodrigues disse que havia perdido a filha “naquele lugar infernal”. “A história daquele lugar é muito triste, ninguém gosta de falar sobre isso. Saindo daqui tomaremos outros rumos, mas para Valinhos nunca!”.

 

 

Vários relatos referem-se a uma maldição, mas A Noite não explica qual seria essa maldição.

 

João Kaschuk/Fátima Santos

João Kaschuk explica ao JMais que um homem, conhecido apenas como Mendes, queria fazer um baile depois da missa. O padre não aprovou. Os dois discutiram e Mendes teria dado uma surra no padre. Saindo de Valinhos, o sacerdote teria jogado uma maldição na localidade. “Mas depois o padre voltou e pediu perdão de joelhos à comunidade”, minimiza Kaschuk.

 

 

Joana Lipke também falou em maldição ao jornal A Noite. “Eu tinha cinco filhos e marido. Perdi três e não sei onde está meu marido. Ouvi um barulho infernal. Depois a casa parecia que estava subindo como um balão. Não vi mais nada. Quando o dia amanheceu estávamos longe do lugar onde era nossa casa. Meus filhos estavam mortos com farpas de madeira atravessadas pelos corpos. Nada mais tenho, senão dor e desespero”, relatou.

 

 

Vitalina de Lima perdeu o marido, Vitorino, e seus dois filhos. Ficou só no mundo.

 

 

Otília Gonçalves, que também perdeu o marido, Marcilino, contou ao jornal que “falavam muito sobre maldição. A desgraça não poderia demorar muito. O senhor deve saber que é o vale dos amaldiçoados, não?”, pergunta ao repórter.

 

Capa do Jornal A Noite de 24 de maio de 1948/Reprodução

O jornal ouviu também Floriano Sucheke. Ele contou que a casa “flutuava no ar”. A cama de sua mãe foi encontrada a 300 metros de onde ficava a casa, relatou o jornal.

 

 

João Francisco Rodrigues dos Santos narrou que tinha três casas na localidade. Todas foram destruídas. “Lembrei daquele dia em que o vale foi amaldiçoado. Pensei que fosse bobagem”, emendando que sua família foi salva, mas uma imagem de Nossa Senhora Aparecida partiu-se.

 

Nesta sexta-feira, 18, o JMais publica a terceira e última reportagem da série mostrando a repercussão internacional da tragédia.

 

 

LEIA A PRIMEIRA REPORTAGEM DA SÉRIE

Uma noite de horrores

 

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