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10 anos sem Aurora: O espetacular frigorífico que não veio

Presidente da Coopercentral Aurora, Mario Lanznaster, assina protocolo de intenções sob olhar do falecido governador Luiz Henrique/Arquivo

Há dez anos a Coopercentral Aurora confirmava a intenção de se instalar em Canoinhas; a notícia comemorada com festa aqueceu o mercado imobiliário, animou famílias com parentes que foram tentar a sorte fora e atraiu investimentos

 

 

Quando o ciclo da madeira teve seu auge nos anos 1970, a indústria madeireira empregava pelo menos 3 mil pessoas em Canoinhas. Este número só foi definhando aos poucos até chegar ao ápice da agonia do setor no ano passado com o fechamento da empresa Fuck SA, extinguindo, de uma só tacada, mais de 500 empregos.

 

 

Dos anos 1970 para cá só se ouviria a falar novamente neste número, 3 mil, há exatamente dez anos. No dia 30 de outubro de 2007, a Coopercentral Aurora confirmava investimento em um frigorífico em Canoinhas com potencial para empregar, num primeiro momento, 3,2 mil pessoas. A notícia foi recebida com festa. O mercado imobiliário aqueceu, novos investimentos vieram para a cidade, que ganhou ainda um campus do Instituto Federal com a pré-aprovação de um curso técnico em Vestuário, para possibilitar que os próprios canoinhenses fabricassem os uniformes dos funcionários do frigorífico. Os canoinhenses que foram tentar a vida lá fora fazia planos de retornar para sua terra natal.

 

 

A onda positiva atingiu até Mafra, onde pouco depois a Sadia anunciaria um também fracassado projeto de instalação de um frigorífico na cidade vizinha.

 

 

Terreno comprado pelo Governo do Estado e colocado à disposição da Aurora/Arquivo

A expectativa no dia do anúncio foi ainda maior porque, esperta, a direção da Aurora criou uma competição entre Canoinhas e a cidade gaúcha de Carazinho. O leilão deu certo. Para incentivar a empresa, o então governador do Estado, Luiz Henrique da Silveira, prometeu comprar o terreno para a instalação do frigorífico. A parte do governo foi cumprida. O terreno comprado à época por R$ 1,5 milhão hoje está arrendado para plantio.

 

 

O aporte inicial em Canoinhas seria de R$ 400 milhões em investimentos diretos, na forma de recursos próprios e financiados pelo BNDES. Cada complexo avícola incluiria a indústria, os incubatórios, as granjas-matrizes e a fábrica de rações. Depois de iniciada, a execução de cada obra exigiria 18 meses de trabalho para a conclusão. Mais tarde, anunciou a empresa, outros R$ 400 milhões seriam investidos em Carazinho.

 

 

O presidente da Coopercentral, Mário Lanznaster, antecipou que a indústria de Canoinhas teria prioridade e determinou a imediata finalização dos projetos e encaminhamentos das licenças e autorizações para que as obras iniciassem ainda em 2007. A expectativa era de que a unidade movimentasse R$ 1 bilhão por ano.

 

 

No gabinete do então prefeito Leoberto Weinert (PMDB), o momento foi festa e muita euforia (leia texto abaixo).

 

 

Cerimônia em almoço que sacramentou negociação/Arquivo

ALMOÇO E AUDIÊNCIA

A ilusão dos canoinhenses foi alimentada em pelo menos outros dois momentos específicos. Um almoço oferecido para mais de mil pessoas e patrocinado com dinheiro de empresários canoinhenses lotou o pavilhão de festas da Igreja Matriz Cristo Rei. Com a presença de executivos da empresa e com uma plateia lotada de agricultores, o workshop O Futuro é Agora: Oportunidades para Todos, promovido pela prefeitura de Canoinhas, com apoio de diversas entidades, discutiu a implementação da unidade da Coopercentral Aurora na cidade.

 

 

Pelas ruas, nos corredores, no comércio, nas reuniões de família, não se falava em outro assunto, senão, na vinda da Aurora para Canoinhas.

 

 

Foi nesse período de expectativa que o mercado imobiliário deu um salto. Quem tinha imóveis para alugar ou vender elevou os preços às alturas na expectativa de faturar com a procura que, consequentemente, deveria aumentar.

 

 

A gestora de negócios imobiliários Mauren Mussi Dreveck acompanhou esse processo e lembra que de toda cidade, quando há notícias de novos empreendimentos, os valores imobiliários sobem. Aqui não foi diferente. “Muita gente decidiu esperar. Outros aumentaram os valores”, recorda. Mauren lembra que logo após a moratória da Aurora foi lançado o programa Minha Casa, Minha Vida, que impediu o desaquecimento do setor. Com a crise iniciada em 2015, no entanto, o mercado começou a desaquecer. Em um exemplo prático, um imóvel tabelado em R$ 350 mil, hoje pode ser comprado por R$ 280 mil.

 

 

Adriana Leiria, gerente do Supermercado Queluz, que se instalou em Canoinhas dois anos depois do anúncio da Aurora, não nega que o anúncio da empresa foi um dos atrativos que contou para a escolha por Canoinhas, “mas houve uma pesquisa de mercado e a prova de que não viemos somente por causa da Aurora é que estamos aqui até hoje, inclusive, com planos para a cidade”, afirma.

 

 

A diretora do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC), campus Canoinhas, Maria Bertilia Oss Giacomelli, diz que o Instituto veio para Canoinhas a fim de qualificar mão de obra para a indústria. Tanto que o curso de Agroindústria foi o primeiro a ser aprovado para Canoinhas. Com a demanda frustrada, hoje o curso foi extinto e deu lugar ao de Tecnologia em Alimentos. “Estamos muito felizes porque este curso está permitindo um espaço maior no mercado de trabalho para nossos alunos. Agroindústria era muito focado, mas com certeza teria uma ressonância maior no mercado se a Aurora estivesse aqui”, afirma. Essa visão mais ampla da área agrícola deve ser suprida a partir do próximo ano quando passa a ser oferecido o curso superior em Agronomia pelo IFSC. “Estamos aqui para formar mão de obra para a região”, afirma, lembrando que compete à sociedade apontar os eixos de cursos que venham a ser oferecidos pelo Instituto.

 

 

 

 

 

 

 

 

SEM CHANCE

A Aurora só admitiu oficialmente que não tem mais planos de se instalar em Canoinhas em um email de três linhas enviado ao JMais nesta semana. A princípio o investimento foi sendo adiado de ano em ano. Em entrevista concedida à Band FM, em 2012, Lanznaster chegou a prometer o investimento para 2016. Agora, no entanto, o e-mail afirma: “Após consultar a diretoria da Cooperativa Central Aurora Alimentos, informo que a construção de uma unidade industrial para abate e processamento de aves em Canoinhas não está mais nos projetos de expansão da empresa.”



 

 

FUTURO

Atual secretário de Desenvolvimento Econômico, Paulo Machado diz que hoje Canoinhas trabalha em parceria com o Governo do Estado para trazer algo de maior vulto para a cidade. “Agora um setor que ficou relegado nos últimos anos foi o das empresas que já estão aqui. Trabalhamos com a valorização desses negócios”, afirma.

 

 

Ele lembra que o projeto de expansão da WestRock deve aquecer a economia de toda a região. “A ampliação da WestRock é uma oportunidade às nossas empresas. Vamos fazer uma reunião com a diretoria da multinacional para identificar os serviços que serão necessários na obra para que, em parceria com a Acic e demais entidades, possamos articular as empresas locais para que se preparem para aqueles serviços específicos a fim de que o menor número possível de empresas venha de fora, levando embora os empregos e o dinheiro”.

 

 

Machado informa ainda que há um projeto em andamento para aquisição de uma área às margens da BR-280 com o objetivo de construir um condomínio empresarial. O modelo está em gestação pelo Município em parceria com entidades empresariais.

 

 

Cidade foi vítima de outros embustes

 

“Teremos aqui o único centro de tecnologia e genética de patos da América do Sul.” A frase do diretor-presidente da Villa Germania, André Grütmacher, em junho de 2011, durante coletiva com a imprensa, mostrou que o frigorífico de patos e marrecos (para eles o marreco é uma espécie de pato) tinham planos ambiciosos para Canoinhas. O problema é que o negócio nunca se concretizou. Depois de muita conversa e nenhuma ação concreto, o próprio Grütmacher parou de atender as ligações do prefeito à época, Leoberto Weinert.

 

 

Em 2008, a Eucatex anunciou investimento na cidade. Edson Lisboa, um dos diretores da empresa, disse na época que “estamos com sinal verde para iniciar a implementação da empresa, inclusive já estamos recebendo material de Canoinhas para testar”. A primeira unidade a ser instalada seria de substrato, em seguida a previsão era de uma unidade de tintas e num terceiro momento a instalação de uma indústria de MDF. Nada se concretizou.

 

 

Ainda na esteira dos embustes, a Mate Leão chegou a ser confirmada com investimentos em Canoinhas em 2009. O anúncio, assim como os outros aqui citados, virou pó.

 

 

 

Nervosismo e expectativa

Edinei Wassoaski

 

Prefeito Leoberto Weinert (PMDB) chegou na prefeitura às 16h20min de terça-feira e foi direto para sua sala. Na sala contígua, usada pela assessoria de imprensa, repórteres de rádios e jornais da cidade circulavam nervosos atendendo e disparando telefonemas na expectativa pela primeira mão.

 

Às 17h06, fiz a enésima ligação para o assessor de imprensa da Aurora, Marcos Bedin. A primeira, no entanto, que foi, enfim, atendida.

 

 

  • “E aí Marcos, saiu a decisão?”, disse tentando ser o mais amistoso possível.
  • te passando o release agora!”, ouvi do outro lado.
  • “E aí, Canoinhas levou?”, perguntei mais que depressa.
  • te passando o release agora”, repetiu.

 

Percebendo que ele não iria me passar a informação em primeira mão, arrisquei.

 

 

  • sabendo que a assembléia decidiu por Canoinhas, só me confirma”. E depois de dois segundos de total suspense:
  • “É, primeiro vão investir em Canoinhas, ainda este ano, depois em Carazinho”, desovou enfim minha preciosa fonte.
  • “Então está confirmado, Canoinhas…”
  • “Isso aí, to te passando o release…”, seguido do tututututu.

 

Pelas minhas costas, um batalhão de repórteres começava a disparar ligações para suas respectivas redações repassando a informação. No mesmo momento, o assessor de Weinert, Sandro Teixeira correu para o gabinete do prefeito, que ainda não havia recebido a confirmação. Cerca de 10 minutos depois, um telefonema arrematador de um dos diretores da Aurora sacramentou a informação para Weinert. Às 17h22, dez minutos depois de eu anunciar extraoficialmente em primeira mão na Rádio Clube que Canoinhas receberia o investimento, Weinert entrou na sala de reuniões onde secretários e assessores o receberam com uma calorosa salva de palmas. Com os olhos marejados – nunca havia visto Weinert chorar, nem quando venceu a eleição –, e voz embargada, Weinert fez a primeira declaração oficial sobre a vinda da Aurora para a cidade. Agradeceu todo o seu staf, pessoas que, segundo ele, passaram noites acordadas para garantir a elaboração dos projetos e salientou que daqui pra frente o trabalho é dobrado, porque Canoinhas terá de trabalhar para viabilizar o negócio que deve mexer com todo o Planalto Norte.

 

 

No canto, era impossível não perceber o olhar de orgulho do secretário de Desenvolvimento Rural Donato Noernberg. Não sei a quantas pessoas Weinert se referia quando disse que muitos passaram noites acordado para garantir a vinda da Aurora, mas tenho certeza que uma dessas pessoas foi Noernberg.

 

 

Publicado originalmente na edição de 3 de novembro de 2007 do jornal Correio do Norte

 

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